A mais evidente presença sua que me restou foi a estranha mania de só dormir em metade da cama. Mesmo depois de não a dividirmos mais, eu a dividia sozinho. Religiosamente. Tanto que passei a usar a sua metade como outra mesa de cabeceira, deixando nela livros, cadernos e o pijama. Demorei a associar a mania a você. Demorei quase seis meses até perceber. E precisei de pouco mais de um ano para começar a ver a mania se dissipando lentamente, como se te empurrasse a cada dia mais para fora dela, mas sem querer interromper seu sono. O dia que eu acordei com ela toda revirada, totalmente ocupada por mim, foi o primeiro que realmente te deixei ir, que me senti livre para prosseguir. Foi como se minha vida toda estivesse até então dividida, tudo pela metade. Foi esse dia que soube poder novamente amar.
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