Ego Freak
Mais Anima que Superego
sábado, 16 de dezembro de 2023
terça-feira, 19 de setembro de 2023
A primeira vez que eu vi neve foi em 1996. Tinha dezesseis anos e estudava por intercâmbio no interior da Carolina do Sul.
Estacionamos no Kmart e logo que saímos do carro, começou a nevar.
Abri os braços em uma alegria plena, feito criança, maravilhando-me com o novo. Neve é sempre lindo, mas neste dia foi a neve perfeita. Grandes mas leves flocos caiam lentamente, quase flutuando, até encontrarem algum objeto e se espatifarem em quase pó.
Aprendi depois que estes flocos são chamados dendritos e ocorrem em temperaturas não tão baixas, com certo grau de umidade.
Quando penso na vida diária da paternidade (dupla), esta é a lembrança que me ocorre. A cada gesto novo, cada palavra aprendida, cada uma das surpresas diárias da convivência explode em mim como dendritos de amor. Leves, lindos e muitos.
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
sábado, 15 de junho de 2019
fecho o olho e volto
no que seria um dia
de semana
qualquer
numa manhã de sol
que se nublado
não mudaria em nada
deito no banco
até hoje no mesmo lugar
cinco anos inteiros
e ainda volto
nesta manhã qualquer
fecho os olhos
recrio o som que guardei
como se o escutasse
o tucano preto
peito laranja
suas asas abertas
até a árvore em frente
onde todo dia esperava
sua parceira
os tucanos são monogâmicos
ela me disse
o som chegando
com o tucano
sua asa aberta
contra o vento
cinco anos e ainda escuto o vento bater em sua asa aberta sobre mim
enquanto plana à sua matinal
espera
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
sexta-feira, 25 de julho de 2014
sábado, 12 de julho de 2014
terça-feira, 8 de julho de 2014
segunda-feira, 16 de junho de 2014
quarta-feira, 11 de junho de 2014
terça-feira, 10 de junho de 2014
sexta-feira, 6 de junho de 2014
terça-feira, 3 de junho de 2014
(da desigualdade e da meritocracia)
“Quanto mais estruturalmente desigual uma sociedade, maior a participação da sorte em nosso destino.”
A questão não é filosófica, mas matemática. Quanto maior a diferença sociocultural em uma população, maior o salto necessário para superá-la. E maior a inércia econômica individual ou geracional.
Somos hoje, brasileiros, mais o que nascemos do que o que nos tornamos. Somos dos países mais desiguais do planeta, contando com um abismo entre os mais ricos e os mais pobres que vai além da distância econômica. Nosso sistema educacional disfuncional e carente aprofunda as diferenças iniciais ao invés de diminuí-las. A falta de estrutura ou ferramentas sociais cria um jogo onde o vencedor (no conceito amplamente aceito de sucesso, incluído o financeiro) é previamente conhecido. Onde a vitória é herdada. Um sistema tão evoluído (da pior maneira possível) de manutenção do status quo que pode ser comparado ao sistema indiano de castas.
Um dos professores mais importantes da minha vida me deu aula por apenas seis meses. Não era nem um pouco querido na faculdade (UFRJ), tido como tumultuador, questionador em excesso, marqueteiro e maluco. Sempre gostou da fama e fazia muito para aumentá-la, com brigas e arroubos em sala de aula, em assembleias de professores e onde mais achasse válido. Luis Eduardo Potsch é um cara a quem admiro, mesmo sem concordar com muito do que diz. Dentre as polêmicas frases e atitudes dele, duas me chamaram especial atenção: a primeira, que ele fazia com todas as turmas, era questionar o mérito de cada aluno que lá estava, alegando ser muito mais mérito dos pais na escolha de boas escolas do que do aluno ao passar; a segunda, de que o altruísmo sincero não existiria, sendo apenas egoísmo disfarçado. Ainda não tenho opinião formada sobre a segunda, mas o foco é a primeiro, esta que era especialmente dura para nós jovens recém entrados na faculdade cujo vestibular é dos mais concorridos do país. Era um golpe em nosso ego, à sensação de mérito próprio. O fato de que nem todos com a mesma chance que nós lá estava não invalida o argumento, ao contrário do que achávamos, já que estes todos tiveram também a mesma sorte. Invalidada estaria a tese se a maioria do que lá estudavam tivesse vindo de escolas públicas normais, descartadas as poucas que são consideradas centros de excelência como os Colégios de Aplicação da UERJ e UFRJ, os Pedro Segundo, Cefets e afins.
O questionamento à existência do mérito é também um questionamento ao conceito de meritocracia. Fato é que a meritocracia como a conhecemos ou como é amplamente aplicada tem três grandes defeitos: primeiro, a medição do resultado final, sem ajuste à situação inicial individual, é um contraditório suficiente para invalidar o conceito; segundo, o modelo usual de meritocracia não endereça a questão ética, ou a maneira como o objetivo é alcançado, igualando caminhos eticamente opostos que alcancem resultado único; e por fim, este modelo incentiva a busca por resultados de mais curto prazo, cujo componente sorte é muito mais importante para seu fim do que os de prazo mais longo (o resultado de um processo/sistema depende da combinação de sorte e habilidade/competência, apesar de geralmente considerarmos somente o segundo componente - talvez pelo primeiro ser menos controlável, menos mensurável).
Ao longo da minha experiência como voluntário e com voluntários, tive dos momentos mais sublimes. Na sorte do convívio com pessoas extraordinárias, cuja vontade, força, bondade, amor superaram o limite do imaginável, do possível, incluindo-se aí tanto os voluntários quanto as pessoas a quem os trabalhos se destinavam a ajudar. Na indescritível alegria de ver realizada a causa ou impacto pelo qual se trabalhava. No desejo sincero, amplo, irrestrito em ajudar por ajudar.
Mas vivenciei e presenciei também coisas não muito boas. E a pior de todas, a sensação de preeminência de quem lidava com alguém menos favorecido. Não evidenciada por descaso ou destrato, mas pelo olhar. Pelos pequenos gestos que transbordavam uma aura de superioridade, que exigiam em troca gratidão, gerando a sensação de uma dívida emocional. E nestes momentos me pegava pensando não se o trabalho voluntário vale a pena, porque isso é inquestionável, mas na motivação destas pessoas e na causa dessa sensação. E a cada minuto que passa, vejo na extrema desigualdade e na não compreensão dela e de seus efeitos por todos, a terra fértil onde prospera essa sensação.
(ao contrário do que pode parecer, este texto nasceu de duas fantásticas vivências recentes: à Dona Vera e ao Sonhar Acordado/Dia do Sonho, com muito carinho)
entrelaçado em minha mão
cada poro da sua pele
arrepiado em explosão
cada ida e volta do seu peito
em respiração
cada sua tremida de leve
nas batidas do seu coração
cada segundo da sua mente
sua constante reflexão
cada sorriso aberto
ah, a cada sorriso seu
me desfaço por ti
em arroubo
que louca paixão
segunda-feira, 2 de junho de 2014
quinta-feira, 29 de maio de 2014
sou dado a arroubos e paixões, que me tomam em séries cada vez mais espassadas. desde que te conheci que os trato como distrações ao amor definitivo que você me representa, mesmo quando distante, ausente. sei e não é de sonhar, tão pouco imaginar, o que o futuro, este que nos pertence, está a guardar. visualizo em detalhes como vidente, este crente na gente que sou. te sinto toda: das mãos mexendo em nervosismo ao abraço apertado que te acalma pela certeza do inevitável. sinto teu cheiro mesmo quando à léguas de mim. conheço teu gosto desde antes de sabê-lo só seu, prévio à qualquer conceito meu de paladar. escuto a música que é você mesmo quando no ambiente mais barulhento. nada é capaz de ofuscar sua presença em mim, entranhada que me está. temos a calma da certeza e da eternidade que nos espera e desde que paramos de nos perder, de nos fugir, temos também a urgência da vida, que nem um segundo queremos desperdiçar. eu, que era pântano de dúvidas e hesitações sou hoje bastião da certeza do nosso voar.
sexta-feira, 23 de maio de 2014
quinta-feira, 22 de maio de 2014
segunda-feira, 19 de maio de 2014
é como se os textos fossem a verdadeira revolução energética da humanidade: renováveis e inesgotáveis. como se o petróleo, nosso ou não, não fizesse mais sentido. para que veículos automotores se posso voar? se lendo-os, dou voltas ao mundo, vou do mais raso ao mais fundo. e as entrelinhas, estas benditas, fossem água gelada a me refrigerar. o impulso que me dá, dessa felicidade repentina, leve e inesgotável. basta começar a minguar que uma releitura a carrega por completo. uso mais que o recomendado, sem qualquer efeito colateral. uso pra sorrir e pra chorar. uso muito. usarei sempre, sem parar.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
sábado, 3 de maio de 2014
sexta-feira, 2 de maio de 2014
o céu completamente azul, numa cor só possível depois da chuva que caiu, recortado pela montanha coberta de verde, mais praquele escuro atlântico. o barulho das ondas do mar quebrando ao fundo (estou de costas para o mar, de frente para o sol). a leve embriaguez da vodka e da cerveja. o papo gostoso, íntimo e essencial como só se chega quando se ama (e neste caso, é amor infinito, incondicional, de família - um amor que tem um tamanho pra uma discussão só dele - e hoje eu quero discutir você). e a sua imagem me surge. na verdade primeiro me surgiu seu gosto, seu cheiro. senti pela memória sua pele na minha. meu pé no seu pé, subindo minha coxa na sua, o resto de mim em você, até meus dedos, emaranhado em seus cabelos tão finos, tão lindos. nosso sono, tão real. nossa noite inusitada no que seria um dia banal. e nosso afastamento sem propósito, sem motivo. você se escorrendo pelas minhas mãos, líquida, turva. eu não fecho meus dedos e deixo-te ir no que talvez tenha sido a maior perda primária da minha vida. você escorreu de mim e se tornou o maior amor que eu não vivi.
terça-feira, 29 de abril de 2014
domingo, 27 de abril de 2014
terça-feira, 22 de abril de 2014
sábado, 19 de abril de 2014
nina tem quatro meses e meio e os olhinhos puxados da mãe. não puxados como uma oriental, mas bastante esticados para uma ocidental.
nina sorri, embaixo de uma cobertura plástica que a protege da chuva.
(chove muito hoje, uma chuva forte que veio de repente).
a mãe da nina atravessa a rua com ela, lutando contra buracos, poças e o desequilíbrio do guarda-chuva pesado, que toma uma mão que deveria estar ajudando a empurrar o carrinho. e mesmo com todas essas lutas, a mãe da nina ri. mas não é só pelo mundo: a mãe da nina ri para mim.
deixo-a passar e ela segue seu caminho em meio a obstáculos e dificuldades pelas calçadas que parecem feitas para alagar e dificultar, nunca para ajudar.
não resisto e me ofereço para segurar seu guarda-chuva. a mãe da nina, que não toma mais chuva, está feliz, um pouco encantada, mas principalmente aliviada pelo aumento de conforto da viagem da nina. se nina está bem, sua mãe está bem também.
ajudo-a até seu carro, que parte em direção ao humaitá, sem perguntar seu nome, sem pedir seu telefone.
a mãe da nina é a mais bonita das moças que apareceu na minha vida, entre um dia de shopping da gávea e uma chuva. é a mulher que eu queria para mim. mas deixo-a ir sem saber seu nome, sua rua ou qualquer coisa que o valha. tomara que o pai da nina valorize o tesouro que tem.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
domingo, 13 de abril de 2014
sexta-feira, 11 de abril de 2014
terça-feira, 8 de abril de 2014
domingo, 6 de abril de 2014
sábado, 5 de abril de 2014
domingo, 23 de março de 2014
terça-feira, 18 de março de 2014
domingo, 16 de março de 2014
sexta-feira, 14 de março de 2014
terça-feira, 11 de março de 2014
(do desejo e do real)
“amor não é esporte
não é combate
amor é até a morte
gentileza
amor é consorte”
Esporte é jogo de soma zero. Só há vencedor havendo perdedor. Um ganha, outro perde. Simples assim. Esporte é combate, é conflito. Mesmo entre regras claras, esporte é disputa. Palmo a palmo. Milésimos de segundo. Ponto a ponto. Raça é coisa bonita no esporte – “queremos raça”. Garra também. Disputa-se espaço para vencer, vencer, vencer. No esporte o outro é adversário ou oponente. É oposto. E os opostos não se atraem, mas se digladiam.
Do amor espera-se o oposto. Amor é parceria, cumplicidade. Amor é família. Amor é gentileza. Amor para toda eternidade. É o que se deseja do amor. É o que desejamos. Nem mais, nem menos.
“Todo amor é uma espécie de suicídio” segundo a psicanálise. A entrega total, fundamental ao verdadeiro amor, causa o esvaziamento do ego no sentido narcísico. Quando correspondido, suicidam-se ambos para que ambos vivam, um se esvaziando para que o outro o ocupe por completo, na totalidade de cada um.
E daí surge a impossibilidade inicial do amor. Deste conflito entre o desejo romântico de cumplicidade e o instinto de sobrevivência. É no amor e só no amor que se pode matar sem que se esteja errado. Que se pode magoar sem que se seja culpado. Porque o amor pode acabar. E quando isso acontecer, alguém, invariavelmente vai sofrer. E essa entrega da felicidade a outrem traz muitos amores para o real: o amor romântico é uma luta, é esporte. É jogo de soma zero. Se não para todos, para a maioria. Há de manter-se no topo, há de ganhar a qualquer custo. A violência é moral. O alvo, o ego. Liga-se menos para quem se quer ligar mais. Trata-se pior a quem se quer melhor. Afasta-se a quem se quer mais próximo. É o jogo. É o conflito inicial. Só assim defende-se da mágoa, ou pensa defender-se. Só assim protege-se , ao custo de não se viver o amor em sua plenitude.
Só a abdicação de qualquer segurança e controle pode enterrar a impossibilidade inicial. Só a entrega irrestrita e total pode evitar o problema primordial. A completude, fundamental, depende da totalidade, que depende da entrega mútua, quase inocente. A generosidade é o alimento original do amor. O amor ideal é
sábado, 8 de março de 2014
terça-feira, 4 de março de 2014
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
domingo, 23 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
(Lei e Justiça)
Ucrânia em chamas. Setenta mortos em um único dia. Venezuela em chamas. Mortes e violência aumentando. A nova onda de protestos não é só brasileira. Apesar de todos os problemas recentes, ainda podemos dizer que temos um governo democrata no poder, especialmente se comparado a estes dois outros países.
Antes de continuar, queria deixar clara a minha opinião frente a todos estes protestos: sou favorável a tentativas populares de melhoria de qualquer situação social. Acredito que mudanças profundas não ocorrem sem estímulos externos aos do que no poder, sempre os conservadores.
Há pouco mais de 58 anos, na fria manhã de uma quinta-feira, primeiro dia de dezembro de 1955, Rosa Parks entrou num ônibus em Montgomery, Alabama. Mais passageiros iam entrando e, ao ser intimada a ceder seu assento a um passageiro branco, Rosa negou veementemente, em atitude que nos dias seguintes culminou no Boicote aos Ônibus de Montgomery. Por esta recusa, Rosa foi presa. E o boicote foi um dos passos mais importantes para a justiça social e racial dos EUA. Os Estados Unidos viviam a segregação racial. As leis eram claras em criar classes de pessoas baseadas em sua cor de pele. Por mais absurdo que isto nos pareça hoje, repito: estava na lei. Era o certo pela ótica legal. O único certo. Rosa foi presa por desobedecer. Rosa cometeu um crime porque, sendo negra, não cedeu seu lugar no ônibus a um branco.
A atitude de Rosa foi de desobediência civil. Rosa estava contra a lei, apesar de inquestionavelmente justa ser sua atitude. A lei nada mais é do que um arcabouço jurídico independente de justiça. Sempre foi assim e sempre será. Lei é lei. Justiça é justiça. Muitas leis são justas ou estimulam a justiça. Quanto mais evoluído socialmente um país, mas os dois se alinham. Mas se alinharem não os fazem os mesmos. No máximo, estão os mesmos.
O Brasil é um dos países com maior desigualdade de renda do planeta. Somos ainda uma Belíndia (mistura de Bélgica e Índia). Nossas leis foram feitas pelos que detinham e detém o poder. Muitas delas são justas, mas a injustiça ainda é um mal muito nosso. Seja por desrespeitos gritantes e constantes a muitas destas leis, seja por incapacidade social de cobrança dos direitos dos cidadãos.
Temos um péssimo sistema educacional, que colabora ativamente para a perpetuação da desigualdade social, contribuindo até para sua piora. As condições de nascença de nossos cidadãos é um dos maiores fatores de definição de seu destino econômico-social. Quem tiver a sorte de pais abastados estudará em escolas particulares, universidades públicas ou particulares e terá qualificações escassas e valorizadas no mercado de trabalho. Os que nascerem da maioria pobre, não terão as mesmas chances, a não ser que tenham talento excepcional para o futebol.
Temos um dos piores sistemas de transporte urbano do mundo. Baseado em ônibus e carros, mas sem pistas e autopistas adequadas. Lentos. Sem conforto. Em condições precárias. E caros, muito caros para a qualidade do serviço ofertado. Sistema de concessões no mínimo polêmicas, com questionamentos constantes e não esclarecidos feitos pelos Tribunais de Conta, que vão desde esquemas de corrupção para facilitação das concessões até questionamentos sobre os custos e as tarifas cobradas. Um sistema que mistura amadorismo de gestão, corrupção e descaso completo com o chamado passageiro, que na verdade deveria ser tratado como cliente.
Melhoramos muito nos últimos vinte anos. Somos mais institucionalizados, a renda aumentou, a classe média passou por um boom de tamanho. Mas ainda somos um país continental e de problemas extremamente graves.
Nesse contexto é que se dão os protestos populares, especialmente desta nova classe média. Novas demandas e desejos surgem de quem vai melhorando de vida. E são mais do que justas. O povo vai mudando e a classe política permanece a mesma, com as mesmas atitudes. Corrupta, personalista, populista. Precisamos de mudanças sociais e políticas relevantes. Precisamos de um novo contrato social. Precisamos adequar nosso país ao nosso novo povo. Precisamos sacudir o atual para criar o novo. Precisamos incomodar e desconcertar a classe política.
Sou terminantemente contra a violência. Sou contra um estado extremamente paternalista. Sou favorável ao equilíbrio financeiro dos governos.
Acredito que as demandas e cobranças podem e devem ser feitas de maneira pacífica. Mas devem ser feitas. E devem ser respeitadas. O que vemos no país desde o início de todos os protestos é uma atitude violenta e descabida da polícia. As máscaras surgiram nos protestos em primeiro lugar para proteger os manifestantes dos abusos policiais, especialmente os feitos com a utilização de armas de gases tóxicos. A polícia foi a primeira a atirar. A polícia matou, foi a primeira a matar. E isso tem que parar.
Os manifestantes tornaram-se mais aguerridos. Passaram a depredar, a se armar. Passaram a lutar de igual para a igual com a violência policial. As passeatas transmutaram-se em atos de quase guerra. Viraram confrontos abertos. E isso tem que parar. Mas o final não deveria ser o do fim dos protestos e sim dos combates. Os pleitos, mesmo que não se concorde com eles, são justos. Pleitear é justo, por mais que perturbe o status quo, por mais que moleste os conservadores.
Enquanto à discussão se ativer à legalidade ou não dos movimentos, não solucionaremos seus problemas. A polícia continuará atuando de maneira grotesca. A imprensa seguirá não entendendo e discriminando. Enquanto à questão legal e não a justiça for o centro do debate, não apaziguaremos os ânimos. Não cessarão os embates nem a violência. Mudança social profunda só se faz com desobediência civil, assim foi em toda a história da humanidade. Assim foi com Rosa Parks.