sábado, 16 de dezembro de 2023

Novo mundo

Sai de querer dominar 
O mundo
Sem limites geográficos
As línguas como chaves

Sai de querer explorar
Tudo
De uma vez
O infinito como fim

Sai de querer viver para sempre
Insaciável
Inalcançável
O todo em expansão

Pra querer guardar
O minimo
O milésimo de segundo
Do que está a crescer

Pra fazer da sala de casa
Limitada
O fundo repetido
Cada gesto de emoção

Pra ver tudo comprimido
Num pre big bang
Nos menos de 20 quilos
Que as duas ocupam


terça-feira, 19 de setembro de 2023

A primeira vez que eu vi neve foi em 1996. Tinha dezesseis anos e estudava por intercâmbio no interior da Carolina do Sul.

Estacionamos no Kmart e logo que saímos do carro, começou a nevar.

Abri os braços em uma alegria plena, feito criança, maravilhando-me com o novo. Neve é sempre lindo, mas neste dia foi a neve perfeita. Grandes mas leves flocos caiam lentamente, quase flutuando, até encontrarem algum objeto e se espatifarem em quase pó.

Aprendi depois que estes flocos são chamados dendritos e ocorrem em temperaturas não tão baixas, com certo grau de umidade.

Quando penso na vida diária da paternidade (dupla), esta é a lembrança que me ocorre. A cada gesto novo, cada palavra aprendida, cada uma das surpresas diárias da convivência explode em mim como dendritos de amor. Leves, lindos e muitos.


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

o gato persegue o pé da cadeira como se fosse um inseto qualquer. o rio corre mais alto pela chuva. o vento é pouco mas constante. faz frio como se saíssemos do inverno. o casal de tucanos se encontra na mesma árvore de todos os outros dias. a ilha da baleia na paisagem, mesmo invisível atrás do branco. os pássaros - saíras de sete cores, cambacicas, maritacas - conversam parecendo competir em uma sinfonia descoordenada mas harmônica. já passou da hora dos macacos-pregos, que hoje parecem não vir. o tempo passa com calma mas não devagar. a vida não precisa estar completa para ser boa.

sábado, 15 de junho de 2019

ele está no meio de nós

fecho o olho e volto
no que seria um dia
de semana
qualquer
numa manhã de sol
que se nublado
não mudaria em nada
deito no banco
até hoje no mesmo lugar
cinco anos inteiros
e ainda volto
nesta manhã qualquer
fecho os olhos
recrio o som que guardei
como se o escutasse
o tucano preto
peito laranja
suas asas abertas
até a árvore em frente
onde todo dia esperava
sua parceira
os tucanos são monogâmicos
ela me disse
o som chegando
com o tucano
sua asa aberta
contra o vento
cinco anos e ainda escuto o vento bater em sua asa aberta sobre mim
enquanto plana à sua matinal
espera

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

quanto mais
me tem em tão
alto altar
mais baixo desço
mais fundo cavo
não pra sumir
mas por não poder
ficar

se pra você
sou leblon, mon amour
é que não me conhece
de fato
sou a copacabana mais
suja de copos
e cacos
madrugada passada
de bar em bar
de lixo espalhado como
a esperar pelo
que não vem
do amor embaçado da puta
do Aldir entre os travecos
da duvivier
mon cherie
se me acha leblon
não sou pra você

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

always strive
for the best
make every last
even better
then relax
with the result
your only control
is of your effort
is in what you put in
as the outcome
depend in more than that
compromise
and in the long term
the process of try to thrive
should payoff
and put the other factor
aside

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

o silêncio que aplaca
é o mesmo
que devora

quando me igualo
é que sou pior
do que o pior
que há lá fora

sexta-feira, 25 de julho de 2014

a sua voz ainda ecoa
em mim
seu cheiro ainda sinto
na minha pele
seus cabelos ainda presos
em meus dedos
enquanto essa paz
que te ter me dá
me toma por completo

sábado, 12 de julho de 2014

percorro você
entre beijos
e afagos
entre cabelos puxados
e dedos entrelaçados
entre suspiros
e gemidos anunciados
mas sei mesmo
quem é você toda
no sorriso inevitável
que te escapa
quando deitada
em meu colo
enquanto em beijos
e carinhos
te passeava
sua timidez em seu embaraço antes do nosso beijo primeiro. sua pele na minha enquanto minha boca passeia por todo seu rosto, sentindo teu cheiro, buscando seu gosto em minutos que se durassem a eternidade me trariam o mesmo sentimento gostoso da descoberta do certo, do absolutamente certo.

terça-feira, 8 de julho de 2014

em segundos seus gestos oscilam entre a plena consciência e confiança e a hesitação quase juvenil. e você vai transbordando em emoções exacerbadas pelo álcool. junto minhas mãos em forma de cumbuca na tentativa vã de pegar tudo que derrama e me sinto tão pequeno diante de tudo que é você. só o que te sobra me seria o suficiente, mas minha ambição não me deixa contentar com medos do que você toda. e fico te olhando em todos os detalhes do seu gestual consciente e inconsciente, para ver se te guardo comigo, como se esse guardar você em lembrança fosse o melhor jeito de te ter. ou talvez o mais fácil.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

desde 2002
desde sempre
quase
você diferente
indiferente
você me gostando
eu não querendo
você fugindo
eu correndo
timing de merda
amor enorme
gosta
não posso
gosto
já era
descasar
urbanóide

hermético
fechado pra tudo
e todos

do xixi do cachorro
que escorre
sem entrar
à a água da chuva
que alaga
sem molhar

cidade fechada
lacrada
que não deixa entrar
nada líquido
ou água
tão pouco
sentimento
seja gostar
ou pesar

quarta-feira, 11 de junho de 2014

caixotes
em meio ao deserto
insolação
incerteza
vida
sequência 
quase infinita
mas finda
de senão

terça-feira, 10 de junho de 2014

você me trouxe
como antes
a temperança
mesmo que leve
e mais me deu de volta
hoje com você
sou todo amor
inundado transbordo
esperança

sexta-feira, 6 de junho de 2014

você fez meu tempo
que passava rápido
parar

eu parei pra ver
você no seu tempo
passar

terça-feira, 3 de junho de 2014

O voluntariado e a preeminência
(da desigualdade e da meritocracia)

“Quanto mais estruturalmente desigual uma sociedade, maior a participação da sorte em nosso destino.”

A questão não é filosófica, mas matemática. Quanto maior a diferença sociocultural em uma população, maior o salto necessário para superá-la. E maior a inércia econômica individual ou geracional.
Somos hoje, brasileiros, mais o que nascemos do que o que nos tornamos. Somos dos países mais desiguais do planeta, contando com um abismo entre os mais ricos e os mais pobres que vai além da distância econômica. Nosso sistema educacional disfuncional e carente aprofunda as diferenças iniciais ao invés de diminuí-las. A falta de estrutura ou ferramentas sociais cria um jogo onde o vencedor (no conceito amplamente aceito de sucesso, incluído o financeiro) é previamente conhecido. Onde a vitória é herdada. Um sistema tão evoluído (da pior maneira possível) de manutenção do status quo que pode ser comparado ao sistema indiano de castas.

Um dos professores mais importantes da minha vida me deu aula por apenas seis meses. Não era nem um pouco querido na faculdade (UFRJ), tido como tumultuador, questionador em excesso, marqueteiro e maluco. Sempre gostou da fama e fazia muito para aumentá-la, com brigas e arroubos em sala de aula, em assembleias de professores e onde mais achasse válido. Luis Eduardo Potsch é um cara a quem admiro, mesmo sem concordar com muito do que diz. Dentre as polêmicas frases e atitudes dele, duas me chamaram especial atenção: a primeira, que ele fazia com todas as turmas, era questionar o mérito de cada aluno que lá estava, alegando ser muito mais mérito dos pais na escolha de boas escolas do que do aluno ao passar; a segunda, de que o altruísmo sincero não existiria, sendo apenas egoísmo disfarçado. Ainda não tenho opinião formada sobre a segunda, mas o foco é a primeiro, esta que era especialmente dura para nós jovens recém entrados na faculdade cujo vestibular é dos mais concorridos do país. Era um golpe em nosso ego, à sensação de mérito próprio. O fato de que nem todos com a mesma chance que nós lá estava não invalida o argumento, ao contrário do que achávamos, já que estes todos tiveram também a mesma sorte. Invalidada estaria a tese se a maioria do que lá estudavam tivesse vindo de escolas públicas normais, descartadas as poucas que são consideradas centros de excelência como os Colégios de Aplicação da UERJ e UFRJ, os Pedro Segundo, Cefets e afins.

O questionamento à existência do mérito é também um questionamento ao conceito de meritocracia. Fato é que a meritocracia como a conhecemos ou como é amplamente aplicada tem três grandes defeitos: primeiro, a medição do resultado final, sem ajuste à situação inicial individual, é um contraditório suficiente para invalidar o conceito; segundo, o modelo usual de meritocracia não endereça a questão ética, ou a maneira como o objetivo é alcançado, igualando caminhos eticamente opostos que alcancem resultado único; e por fim, este modelo incentiva a busca por resultados de mais curto prazo, cujo componente sorte é muito mais importante para seu fim do que os de prazo mais longo (o resultado de um processo/sistema depende da combinação de sorte e habilidade/competência, apesar de geralmente considerarmos somente o segundo componente - talvez pelo primeiro ser menos controlável, menos mensurável).
Ao longo da minha experiência como voluntário e com voluntários, tive dos momentos mais sublimes. Na sorte do convívio com pessoas extraordinárias, cuja vontade, força, bondade, amor superaram o limite do imaginável, do possível, incluindo-se aí tanto os voluntários quanto as pessoas a quem os trabalhos se destinavam a ajudar. Na indescritível alegria de ver realizada a causa ou impacto pelo qual se trabalhava. No desejo sincero, amplo, irrestrito em ajudar por ajudar.

Mas vivenciei e presenciei também coisas não muito boas. E a pior de todas, a sensação de preeminência de quem lidava com alguém menos favorecido. Não evidenciada por descaso ou destrato, mas pelo olhar. Pelos pequenos gestos que transbordavam uma aura de superioridade, que exigiam em troca gratidão, gerando a sensação de uma dívida emocional. E nestes momentos me pegava pensando não se o trabalho voluntário vale a pena, porque isso é inquestionável, mas na motivação destas pessoas e na causa dessa sensação. E a cada minuto que passa, vejo na extrema desigualdade e na não compreensão dela e de seus efeitos por todos, a terra fértil onde prospera essa sensação.

(ao contrário do que pode parecer, este texto nasceu de duas fantásticas vivências recentes: à Dona Vera e ao Sonhar Acordado/Dia do Sonho, com muito carinho)
cada fio do seu cabelo
entrelaçado em minha mão
cada poro da sua pele
arrepiado em explosão
cada ida e volta do seu peito
em respiração
cada sua tremida de leve
nas batidas do seu coração
cada segundo da sua mente
sua constante reflexão
cada sorriso aberto
ah, a cada sorriso seu
me desfaço por ti
em arroubo
que louca paixão

segunda-feira, 2 de junho de 2014

o que tem
de curta
a vida
pode ter
de grande

a vida
que nos derrama
vê secura à volta
e clama
venham conosco
viver

viemos
de passado distante
vivemos
sem nós
claudicantes
hoje coletivo
meu
seu mais lindo sorriso
que se abre fácil
te entrega
toma todos
do santo ao ladrão
de assalto
bendito sorriso
quanta paixão

é vida
que transborda
é vida
saindo pelo ladrão
inunda todos à volta
em risos, choros
pura emoção
plenitude
tudo
menos senão

quinta-feira, 29 de maio de 2014

queria aqui publicamente registrar o dia em que me apaixonei por você: 28 de maio de 2014

sou dado a arroubos e paixões, que me tomam em séries cada vez mais espassadas. desde que te conheci que os trato como distrações ao amor definitivo que você me representa, mesmo quando distante, ausente. sei e não é de sonhar, tão pouco imaginar, o que o futuro, este que nos pertence, está a guardar. visualizo em detalhes como vidente, este crente na gente que sou. te sinto toda: das mãos mexendo em nervosismo ao abraço apertado que te acalma pela certeza do inevitável. sinto teu cheiro mesmo quando à léguas de mim. conheço teu gosto desde antes de sabê-lo só seu, prévio à qualquer conceito meu de paladar. escuto a música que é você mesmo quando no ambiente mais barulhento. nada é capaz de ofuscar sua presença em mim, entranhada que me está. temos a calma da certeza e da eternidade que nos espera e desde que paramos de nos perder, de nos fugir, temos também a urgência da vida, que nem um segundo queremos desperdiçar. eu, que era pântano de dúvidas e hesitações sou hoje bastião da certeza do nosso voar.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

quinta-feira, 22 de maio de 2014

não são mais épocas
dos quinze de fama
não
é tempo novo
do egoísmo
     da intolerância
            da infâmia
     
tempo sem razão
você me tira do sério
ao sorrir
sua simples presença
knock me off my feet

segunda-feira, 19 de maio de 2014

prana

energia universal
o texto bom
entre sorrisos
e choros
nas linhas e entre
linhas
águas a me refrigerar
uso muito
usarei sempre
sem parar
(uma homenagem aos livros e blogues que leio)

é como se os textos fossem a verdadeira revolução energética da humanidade: renováveis e inesgotáveis. como se o petróleo, nosso ou não, não fizesse mais sentido. para que veículos automotores se posso voar? se lendo-os, dou voltas ao mundo, vou do mais raso ao mais fundo. e as entrelinhas, estas benditas, fossem água gelada a me refrigerar. o impulso que me dá, dessa felicidade repentina, leve e inesgotável. basta começar a minguar que uma releitura a carrega por completo. uso mais que o recomendado, sem qualquer efeito colateral. uso pra sorrir e pra chorar. uso muito. usarei sempre, sem parar.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

segunda-feira, 5 de maio de 2014

baby
não confunda
gentileza
com submissão
se alguma coisa
faço melhor
que me abrir
é desaparecer
sem pistas
é sumir

sábado, 3 de maio de 2014

o tempo passa em meio a tantas informações rasas ou instáveis e penso em como gastamos tempo com as coisas menos importantes. o estágio atual da carreira, a faculdade que fizera. os sonhos profissionais e alguns materiais. tudo isso me atrai pouco e confesso às vezes perguntar em nome da burocracia romântica. em nome de te sentir sendo valorizada, alvo de interesse e curiosidade. mas a verdade é que não passa de atitude burocrática a minha. e desprendida de qualquer emoção real. das viagens suas, tenho real curiosidade. mas não pelo que viu ou onde passou e sim pelo que buscava e o que encontrou. pelas buscas pode-se conhecer alguém muito mais profundamente que pelas descobertas, estas frutos de externalidades incontroláveis. vamos e voltamos assuntos entre vinho e comida decente, num ambiente mais do que agradável e frio. não pela decoração, ao contrário, mas pela temperatura. Ouço neste frio sua história, mesmo que cuidadosamente recortada dada nossa falta de intimidade pelo nosso pouco tempo nosso. me interesso menos pelos fatos e mais por suas consequências em você. é o que vai me fazer sentir se seremos ou não uma dupla somada às nossas individualidades. a pele sua também me interessa. a sensação da minha mão na sua. seu gosto e seu beijo, muito me interessam e começam a me passar como será o resto, que antecipou mesmo antes de saber que foi. vou te entendendo e vejo sua necessidade de entrega, sua presença forte, densa. isso me atrai. disso gosto em você. isso diz-me muito sobre suas buscas. mas entre essas buscas, uma brusca parada. medo, seu medo que afasta o que mais gosta, o que mais procura. seu medo disfarçado de fastio. sua postura displicente, desconexa. seu disfarce tosco que vaza quando me beija. você pode tentar esconder-se o quanto quiser e conseguirá, desde que não me deixe te beijar. mas volto ao ponto que te observo e te vejo sem a menor ideia da minha real intenção, da minha grande atração: suas buscas, o que quero de você são suas buscas.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

quero chorar
raiva de mim
por te tratar
como princesa
pra depois
te ignorar
como única forma
de você me amar
quero chorar
porque só queria
te abraçar
te encher de carinho
de beijos
e todo eu
na minha completude
te amar
deixei de te
chamar
fingi não te
querer
te dei tchau
querendo te amar
te deixei
querendo ficar
só pra tentar
te fazer
se entregar

que pena

o céu completamente azul, numa cor só possível depois da chuva que caiu, recortado pela montanha coberta de verde, mais praquele escuro atlântico. o barulho das ondas do mar quebrando ao fundo (estou de costas para o mar, de frente para o sol). a leve embriaguez da vodka e da cerveja. o papo gostoso, íntimo e essencial como só se chega quando se ama (e neste caso, é amor infinito, incondicional, de família - um amor que tem um tamanho pra uma discussão só dele - e hoje eu quero discutir você). e a sua imagem me surge. na verdade primeiro me surgiu seu gosto, seu cheiro. senti pela memória sua pele na minha.  meu pé no seu pé, subindo minha coxa na sua, o resto de mim em você, até meus dedos, emaranhado em seus cabelos tão finos, tão lindos. nosso sono, tão real. nossa noite inusitada no que seria um dia banal. e nosso afastamento sem propósito, sem motivo. você se escorrendo pelas minhas mãos, líquida, turva. eu não fecho meus dedos e deixo-te ir no que talvez tenha sido a maior perda primária da minha vida. você escorreu de mim e se tornou o maior amor que eu não vivi.

choro sozinho
a chance perdida
de te amar
loucamente
como desimpedida
fosse você
minha linda
finda
minha musa
meu porquê

terça-feira, 29 de abril de 2014

a azia me rouba o sono que já era leve na sua presença. seu corpo respirando no meu. seu cheiro dominando-me todo, até meu canto mais íntimo. seu medo que não contém, de ser usada, virar refém. meu medo, escondo bem, de te ser pouco, por excesso de razão me impedir de ir além.

decepção crescente
buraco
minuendo
razão

cria
da expectativa
que cria

domingo, 27 de abril de 2014

limitless efforts
might not get you there
but whatever happens
in the end
they will free you
from any regrets

terça-feira, 22 de abril de 2014

sábado, 19 de abril de 2014

eu quando me vejo
vejo uma caricatura

a mãe da nina

nina tem quatro meses e meio e os olhinhos puxados da mãe. não puxados como uma oriental, mas bastante esticados para uma ocidental.
nina sorri, embaixo de uma cobertura plástica que a protege da chuva.
(chove muito hoje, uma chuva forte que veio de repente).
a mãe da nina atravessa a rua com ela, lutando contra buracos, poças e o desequilíbrio do guarda-chuva pesado, que toma uma mão que deveria estar ajudando a empurrar o carrinho. e mesmo com todas essas lutas, a mãe da nina ri. mas não é só pelo mundo: a mãe da nina ri para mim.
deixo-a passar e ela segue seu caminho em meio a obstáculos e dificuldades pelas calçadas que parecem feitas para alagar e dificultar, nunca para ajudar.
não resisto e me ofereço para segurar seu guarda-chuva. a mãe da nina, que não toma mais chuva, está feliz, um pouco encantada, mas principalmente aliviada pelo aumento de conforto da viagem da nina. se nina está bem, sua mãe está bem também.
ajudo-a até seu carro, que parte em direção ao humaitá, sem perguntar seu nome, sem pedir seu telefone.
a mãe da nina é a mais bonita das moças que apareceu na minha vida, entre um dia de shopping da gávea e uma chuva. é a mulher que eu queria para mim. mas deixo-a ir sem saber seu nome, sua rua ou qualquer coisa que o valha. tomara que o pai da nina valorize o tesouro que tem.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

são cinco
seis
todas de uma vez
nenhuma afasta
a saudade singular
minha vida
e sua
escassez

domingo, 13 de abril de 2014

a primeira vez que eu ouvi a história do palitinho foi da boca dela, aquele tipo de pessoa que tem tanta bondade que eu me pergunto logo o porque da sorte de tê-la como amiga. sorte maior só tê-la toda como tive. a história do palitinho: somos metade de palitos de picolé e nossa metade está por aí. e se encaixa perfeitamente. só uma metade pra cada palito, pra cada um de nós. e como o palito é de madeira, quanto a mais metades erradas tentarmos nos juntar, menor nossa chance de encontrarmos nossa verdadeira metade. a tentativa errada desgasta, amassa as arestas e passamos a não nos encaixar mais nem mesmo na metade perfeita pra nós. escutei essa história em 2001/2002. tinha então vinte e poucos anos e toda arrogância da juventude, pelo menos da minha. não concordava com a tese. me via mais como uma metade dura, inquebrável. e fui testando metade depois de metade. em minha defesa, posso dizer que acreditei piamente que cada uma delas era a metade. hoje vivo o conflito de me sentir finalmente pronto à outra metade,  porém só sendo o que sou pelas metades que não foram. se acreditar que sou palitinho de madeira, já perdi meu encaixe. acreditando no que acredito, não perdi o encaixe, mais ganhei um desgaste: como acreditar que um novo amor é o amor depois de tantos amores? e aí talvez eu compreenda a história: os desgastes, os sofrimentos podem nos fechar por completo se não nos esforçarmos muito a permanecermos abertos. se não formos resilientes ou crentes o suficiente. e talvez aí resida a verdade da história, mesmo que não aplicável a todos (ou pelo menos, a mim).

sexta-feira, 11 de abril de 2014

fico na dúvida
que me mata
de ansiedade

será que quer ser
por mim amada
com sinceridade

duvido e penso
em como faço
em amor por você
me desfaço

tive que aprender
questão de sobrevivência
a acalmar
dar tempo pro tempo
passar

tive que aprender
você me ensinou
a esperar
dar tempo pra tudo
recomeçar

tive que aprender
meio forçado
que amar
é se dar todo sem nada
resguardar

terça-feira, 8 de abril de 2014

a música doída
do nylon esgarçado
o samba em valsa
no sete cordas
dedilhado

domingo, 6 de abril de 2014

me torço, me espremo e não sai nada. estou seco, por completo. tenho saudades de ti e não consigo te chorar. conheço quem poderia me acompanhar e não sou capaz de me entregar. e não é porque tenho medo. é por essa secura, meu coração duro deste deserto que é a longa falta do amor. deliro em desespero. vejo oásis onde água não há. miragem do que sei é só o que pode novamente me encharcar. me debato neste calor, tento respirar. mas sou bicho d'água, estou seco e chuva pouca não pode ajudar. preciso de enchente, preciso nadar. estou seco e só o (a)mar pode me salvar.

emburaquei em mim e como de costume me tranco e quedo quieto. as idéias boas e ruins vão brotando, aos trancos e barrancos e a vontade exclusiva de solidão vai passando. só não sei até quando.

sábado, 5 de abril de 2014

é pólvora
que explode em cores
e brincadeiras
(espoleta)

é voz
que conta histórias mil
entre sorrisos
(vida)

é amor
que se esparrama
e te volta
(minha)
você me fez um ser
binário

domingo, 23 de março de 2014

espécie
não genérica
para gostos
específicos
manual para se recuperar de um fora
(execute na ordem abaixo)

1- saia e encha a cara
2- pratique sexo sem compromisso
3- tente substituir a figura amada por outra
4- encha mais a cara

se nada disso funcionar (dificilmente funcionará), relaxe, sofra e deixe o tempo passar.
cavo buraco fundo
onde vou te jogar
para ver se enterro de vez
meu imenso gostar

terça-feira, 18 de março de 2014

vou seguindo
em meio ao lodo
insalubre
dos meus demônios
de plantão
passos difíceis
pesados
dificultados
por minha loucura
minha total falta
de razão

te fiz uma declaração
de querer te amar

domingo, 16 de março de 2014

eu quero logo
que este dia acabe
abra alas ao amanhã
para que possa te ver
e levar o fardo
dessa saudade

eu te quis
pelo que queria ser
te convidei
por ser o que sempre amei
te beijei
pra me gostar
te larguei
pelo que tem
que tem em mim também

terça-feira, 11 de março de 2014

A impossibilidade inicial – primordial – do amor
(do desejo e do real)

“amor não é esporte
não é combate
amor é até a morte
gentileza
amor é consorte”

Esporte é jogo de soma zero. Só há vencedor havendo perdedor. Um ganha, outro perde. Simples assim. Esporte é combate, é conflito. Mesmo entre regras claras, esporte é disputa. Palmo a palmo. Milésimos de segundo. Ponto a ponto. Raça é coisa bonita no esporte – “queremos raça”. Garra também. Disputa-se espaço para vencer, vencer, vencer. No esporte o outro é adversário ou oponente. É oposto. E os opostos não se atraem, mas se digladiam.
Do amor espera-se o oposto. Amor é parceria, cumplicidade. Amor é família. Amor é gentileza. Amor para toda eternidade. É o que se deseja do amor. É o que desejamos. Nem mais, nem menos.

“Todo amor é uma espécie de suicídio” segundo a psicanálise. A entrega total, fundamental ao verdadeiro amor, causa o esvaziamento do ego no sentido narcísico. Quando correspondido, suicidam-se ambos para que ambos vivam, um se esvaziando para que o outro o ocupe por completo, na totalidade de cada um.

E daí surge a impossibilidade inicial do amor. Deste conflito entre o desejo romântico de cumplicidade e o instinto de sobrevivência. É no amor e só no amor que se pode matar sem que se esteja errado. Que se pode magoar sem que se seja culpado. Porque o amor pode acabar. E quando isso acontecer, alguém, invariavelmente vai sofrer. E essa entrega da felicidade a outrem traz muitos amores para o real: o amor romântico é uma luta, é esporte. É jogo de soma zero. Se não para todos, para a maioria. Há de manter-se no topo, há de ganhar a qualquer custo. A violência é moral. O alvo, o ego. Liga-se menos para quem se quer ligar mais. Trata-se pior a quem se quer melhor. Afasta-se a quem se quer mais próximo. É o jogo. É o conflito inicial. Só assim defende-se da mágoa, ou pensa defender-se. Só assim protege-se , ao custo de não se viver o amor em sua plenitude.

Só a abdicação de qualquer segurança e controle pode enterrar a impossibilidade inicial. Só a entrega irrestrita e total pode evitar o problema primordial. A completude, fundamental, depende da totalidade, que depende da entrega mútua, quase inocente. A generosidade é o alimento original do amor. O amor ideal é quase um ato de altruísmo e só na sua presença floresce.

sábado, 8 de março de 2014

tudo
todo dia
dia todo

não me peça o médio
não sou contido
te prometo extremos
amor maior
coração partido
poderia ser seu jeito
blasé
poderia ser seu rosto
quase angelical
mas o que é mesmo
é seu gosto
e seu cheiro
combinação que
caso seja mesmo o amor
uma espécie de suicídio
vai me ser fatal
eu penso 
e é como se eu tivesse te traindo
falo 
e como se você fosse se esvaindo
toco 
e é você se indo
amo é você,
mesmo você não sentindo

terça-feira, 4 de março de 2014

enquanto todos os pardos
enquanto todos os bêbados
enquanto todos os carnavais

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

domingo, 23 de fevereiro de 2014

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Os protestos e os direitos
(Lei e Justiça)

Ucrânia em chamas. Setenta mortos em um único dia. Venezuela em chamas. Mortes e violência aumentando. A nova onda de protestos não é só brasileira. Apesar de todos os problemas recentes, ainda podemos dizer que temos um governo democrata no poder, especialmente se comparado a estes dois outros países.
Antes de continuar, queria deixar clara a minha opinião frente a todos estes protestos: sou favorável a tentativas populares de melhoria de qualquer situação social. Acredito que mudanças profundas não ocorrem sem estímulos externos aos do que no poder, sempre os conservadores.
Há pouco mais de 58 anos, na fria manhã de uma quinta-feira, primeiro dia de dezembro de 1955, Rosa Parks entrou num ônibus em Montgomery, Alabama. Mais passageiros iam entrando e, ao ser intimada a ceder seu assento a um passageiro branco, Rosa negou veementemente, em atitude que nos dias seguintes culminou no Boicote aos Ônibus de Montgomery. Por esta recusa, Rosa foi presa. E o boicote foi um dos passos mais importantes para a justiça social e racial dos EUA. Os Estados Unidos viviam a segregação racial. As leis eram claras em criar classes de pessoas baseadas em sua cor de pele. Por mais absurdo que isto nos pareça hoje, repito: estava na lei. Era o certo pela ótica legal. O único certo. Rosa foi presa por desobedecer. Rosa cometeu um crime porque, sendo negra, não cedeu seu lugar no ônibus a um branco.
A atitude de Rosa foi de desobediência civil. Rosa estava contra a lei, apesar de inquestionavelmente justa ser sua atitude. A lei nada mais é do que um arcabouço jurídico independente de justiça. Sempre foi assim e sempre será. Lei é lei. Justiça é justiça. Muitas leis são justas ou estimulam a justiça. Quanto mais evoluído socialmente um país, mas os dois se alinham. Mas se alinharem não os fazem os mesmos. No máximo, estão os mesmos.
O Brasil é um dos países com maior desigualdade de renda do planeta. Somos ainda uma Belíndia (mistura de Bélgica e Índia). Nossas leis foram feitas pelos que detinham e detém o poder. Muitas delas são justas, mas a injustiça ainda é um mal muito nosso. Seja por desrespeitos gritantes e constantes a muitas destas leis, seja por incapacidade social de cobrança dos direitos dos cidadãos.
Temos um péssimo sistema educacional, que colabora ativamente para a perpetuação da desigualdade social, contribuindo até para sua piora. As condições de nascença de nossos cidadãos é um dos maiores fatores de definição de seu destino econômico-social. Quem tiver a sorte de pais abastados estudará em escolas particulares, universidades públicas ou particulares e terá qualificações escassas e valorizadas no mercado de trabalho. Os que nascerem da maioria pobre, não terão as mesmas chances, a não ser que tenham talento excepcional para o futebol.
Temos um dos piores sistemas de transporte urbano do mundo. Baseado em ônibus e carros, mas sem pistas e autopistas adequadas. Lentos. Sem conforto. Em condições precárias. E caros, muito caros para a qualidade do serviço ofertado. Sistema de concessões no mínimo polêmicas, com questionamentos constantes e não esclarecidos feitos pelos Tribunais de Conta, que vão desde esquemas de corrupção para facilitação das concessões até questionamentos sobre os custos e as tarifas cobradas. Um sistema que mistura amadorismo de gestão, corrupção e descaso completo com o chamado passageiro, que na verdade deveria ser tratado como cliente.
Melhoramos muito nos últimos vinte anos. Somos mais institucionalizados, a renda aumentou, a classe média passou por um boom de tamanho. Mas ainda somos um país continental e de problemas extremamente graves.
Nesse contexto é que se dão os protestos populares, especialmente desta nova classe média. Novas demandas e desejos surgem de quem vai melhorando de vida. E são mais do que justas. O povo vai mudando e a classe política permanece a mesma, com as mesmas atitudes. Corrupta, personalista, populista. Precisamos de mudanças sociais e políticas relevantes. Precisamos de um novo contrato social. Precisamos adequar nosso país ao nosso novo povo. Precisamos sacudir o atual para criar o novo. Precisamos incomodar e desconcertar a classe política.
Sou terminantemente contra a violência. Sou contra um estado extremamente paternalista. Sou favorável ao equilíbrio financeiro dos governos.
Acredito que as demandas e cobranças podem e devem ser feitas de maneira pacífica. Mas devem ser feitas. E devem ser respeitadas. O que vemos no país desde o início de todos os protestos é uma atitude violenta e descabida da polícia. As máscaras surgiram nos protestos em primeiro lugar para proteger os manifestantes dos abusos policiais, especialmente os feitos com a utilização de armas de gases tóxicos. A polícia foi a primeira a atirar. A polícia matou, foi a primeira a matar. E isso tem que parar.
Os manifestantes tornaram-se mais aguerridos. Passaram a depredar, a se armar. Passaram a lutar de igual para a igual com a violência policial. As passeatas transmutaram-se em atos de quase guerra. Viraram confrontos abertos. E isso tem que parar. Mas o final não deveria ser o do fim dos protestos e sim dos combates. Os pleitos, mesmo que não se concorde com eles, são justos. Pleitear é justo, por mais que perturbe o status quo, por mais que moleste os conservadores.
Enquanto à discussão se ativer à legalidade ou não dos movimentos, não solucionaremos seus problemas. A polícia continuará atuando de maneira grotesca. A imprensa seguirá não entendendo e discriminando. Enquanto à questão legal e não a justiça for o centro do debate, não apaziguaremos os ânimos. Não cessarão os embates nem a violência. Mudança social profunda só se faz com desobediência civil, assim foi em toda a história da humanidade. Assim foi com Rosa Parks.