segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Relato de uma Paris B

Tomo a linha 7 do metrô em Montparnasse, precisamente na Censier-Daubenton. Tenho exatamente 23 paradas até o meu destino: La Courneuve, ponto final.
Acostumado a ver o lado pobre do Rio de Janeiro, decidi montar um roteiro do lado B de Paris. O lado que turista nenhum costuma ver a não ser nos noticiários, quando alguma onda de protestos ou violência assola estas regiões.
La Courneuve é um destes lugares, subúrbio da Paris central.
Vindo de uns dias em Berlin, onde a imigração não salta aos olhos nem pelas características físicas nem pelos dialetos ou modos, Paris já se mostra mais heterogênea.
As ex-colônias africanas, antes exploradas pela exportação de Commodities, Metais Nobres e Pedras Preciosas, são hoje grandes exportadoras de imigrantes ilegais, todos em busca de melhoria de vida econômica ou em fuga de situações de risco de morte, como as tantas guerras civis que explodem por seus países. Tem no francês aprendido por imposição o motivo para a escolha do país.
O que encontram em Paris parece ser diferente do que deixam somente pelo modo: a violência física transforma-se em psicológica, civil, fruto do preconceito xenofóbico.
Relegados aos subúrbios pobres e violentos, os imigrantes de primeira ou segunda gerações se penduram no estado social, em sub-empregos ou em atividades ilegais.
A dita primeira impressão, de uma Paris diversa em Montparnasse, vai mudando quanto mais o metrô se afasta dos “arrondissements” centrais e segue em direção às regiões mais pobres.
Rostos tipicamente franceses, principalmente novos, praticamente desaparecem, substituído por poucos orientais e muitos africanos, brancos e negros.
O clima é cada vez mais pesado. Não pela presença dos imigrantes mas por suas posturas. É como se qualquer ato violento estivesse próximo de eclodir. A cada parada, maior é a quantidade de gente com essa postura, mesmo que rodeados de outros que, estando mais confortáveis no ambiente do que eu (talvez pelo costume), não emitem a mesma carga de violência.
Vivendo no Rio de Janeiro há mais de 20 anos, presenciei toda a gradual piora da situação da segurança na cidade até a chegada do ponto crítico social entre as favelas e o dito asfalto, que levou a população à importantes mudanças de hábito como sair menos a noite, evitar certos caminhos e até a blindagem de carros. Dominadas completamente por traficantes, as favelas, mesmo estando encrostadas pela cidade, foram sendo socialmente excluídas da vida dos que nelas não habitavam.
Subir uma favela era então um ato de risco. Era comum ver traficantes nos bares, com garrafas de cerveja ao lado de fuzis como o AK-47, o preferido deles. Era habitual pessoas não locais serem revistadas ou interrogadas por estes mesmos traficantes, que formavam um verdadeiro estado paralelo, auferindo total controle sobre estas áreas.
Após o invento das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), programa em andamento, extremamente bem sucedido na reocupação das favelas pelo Estado, se não exterminadas, a presença dos traficantes voltou à marginalidade, com o tráfico de drogas se dando somente às escondidas.
Ao subir uma favela hoje, como subo regularmente o Morro dos Tabajaras, onde dou aula de inglês como professor voluntário, mais do que maior sensação de segurança, me impressiona a mudança no clima. O que antes era um ar de terror, de guerra, hoje é muito mais leve. Muitos dos problemas ainda estão lá. A pobreza e a falta de infra estrutura básica como água, esgoto, transportes, ainda são gritantes. Mas é como se houvesse uma esperança de dias cada vez melhores no ar.
A desigualdade social no Brasil, uma das maiores do mundo, ainda faz o país quase um país de castas, mas isso não impede esta esperança, talvez fruto da combinação atual de quase pleno emprego, crescimento de renda e paz. E talvez essa esperança seja a principal causa da grande mudança do ambiente nestes lugares.
Nas ruas de La Courneuve, não se vê traficantes com armas. Também percebe-se uma estrutura urbana mais adequada, apesar de bem pior do que o lado rico da cidade. O que não se vê é a presença do Estado nas ruas. Muita sujeira, nenhum policiamento e uma quantidade grande de pessoas que, mesmo em dia útil, dedicam-se à circular pelas esquinas, sempre com ares suspeitos, incluindo-se aí traficantes que agem em plena rua, à luz do dia. A sensação de insegurança que senti me remeteu à última vez que subi em uma favela ocupada pelo tráfico.
Pela primeira vez na minha vida, tive medo de tirar a câmera fotográfica da mochila. Talvez temendo mais, ao fotografar as ruas, ser confundido com algum agente da lei, do que ter minha máquina roubada.
Paro para um café, em parte para poder observar a região me sentindo mais seguro do que na rua. Fico por algumas horas sentado de frente para um cruzamento muito movimentado, tentando entender o que se passa, reparando em minha volta.
Não consigo deixar a região sem antes escrever tudo que vi. No café, aproveitando-se de meu péssimo (ou inexistente) francês, recebo uma conta onde uma água mineral, amplamente sinalizada à 0,30 Euros, me foi cobrada como limonada à impressionantes 3,80 Euros. Não questiono o atendente pois quero guardar esta nota como parte da experiência.
Sem as fotos que pretendia tirar, minha tarde em Le Courneuve me atirou no peito o tamanho do problema francês. Pela experiência do meu Rio de Janeiro, sinto que deixar os subúrbios largados à própria sorte vai se tornar um problema cada vez maior à Paris central. O que se passa em Le Courneuve é grave e não parece estar sendo combatido. Talvez nem tenha sido assim identificado. O que falta à La Courneuve e sua gente é esperança.

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