Da violência e da adaptabilidade
(do
despreparo e da criminalidade)
Embora eu
nunca tenha dado um tiro com uma arma de verdade, posso dizer que já tive
muitas experiências visuais com as mesmas, como provavelmente todos que moram
nas grandes cidades brasileiras, seja pela visão constante dos canos das metralhadoras
para fora das viaturas policiais, seja pelos traficantes exibindo suas armas
pelas favelas ou então nos revólveres e pistolas ostentados por seguranças à
volta de nós, cidadãos desarmados.
Também já fui
testemunha visual de um assassinato quando tinha quase dez anos de idade. Não estava
tão perto da cena e, por me encontrar dentro de um carro com os vidros
fechados, só me ficou a imagem do assassino jogando o futuro morto no chão para
depois dar-lhe um tiro. O fogo cuspido pelo cano da arma no momento do disparo,
imagem que me vem nítida mesmo após os quase vinte e cinco anos que já se
passaram. Fiquei algumas noites sem dormir até que o medo passasse.
O que não tinha
ainda experimentado é me ver presente em uma cena de real perigo de morte como
ontem. Sentávamos eu e um amigo em uma mesa na calçada em frente ao Bar
Rebouças, tradicional reduto comandado pelo português Seu Alberto e seu fiel
escudeiro Jorginho, eleito melhor garçom do Rio pela Veja em 2011. Conversávamos
entre cervejas e frituras quando um Tucson preto entra em alta velocidade pela contramão
da Rua Maria Angélica, vindo em nossa direção. Apesar de nossa mesa estar perto
da rua, escapamos do atropelo, salvos por um poste que impediu que os bandidos
subissem à calçada em cima de nós. Meu amigo, que estava mais próximo à rua,
levantou-se rapidamente da mesa num reflexo surpreendente. Eu dei um passo para
trás e fiquei atônito olhando o carro seguir no sentido errado, quando atrás
dele veio o primeiro carro de polícia, também na contramão. Os bandidos
conseguiram seguir por mais uns dez metros de rua, até que o carro foi parado
por uma árvore à frente e o tráfego normal de carros no sentido correto, à
esquerda. Assim que os bandidos pararam os policiais também o fizeram, saltando
rapidamente com suas metralhadoras automáticas em punho. Éramos, os clientes do
bar, talvez umas quarenta ou cinquenta pessoas espalhados pela calçada onde a cena
se passava, incluindo algumas poucas crianças. A correria começa. Ouço dois ou
três barulhos secos de tiros disparados, aparentemente pela polícia, colocando não
só as pessoas em um estado emocional ainda mais estressante como nossas vidas
em risco, num evidente despreparo de quem deveria prezar, acima de tudo, por
nossa segurança. A correria é grande e corro também, procurando abrigo quase
forçando minha entrada na cozinha da lanchonete ao lado, pedindo e quase
empurrando um segurança boa pessoa, mas que estava atordoado com a confusão.
Consegui convencê-lo a deixar duas mães e seus dois filhos entrarem antes dele
trancar a porta com medo de uma possível invasão pelos bandidos agora em fuga.
Duas moças de rostos quase angelicais batem à porta, num desespero evidente. Por
falta de espaço (ou por medo), o segurança não as deixa entrar. Elas se sentam
em frente à porta, em um pranto contido por uma e liberado por outra. Estamos
no corredor que antecede a cozinha da lanchonete e as crianças não param de
chorar, em pânico. Seus olhos vermelhos e soluços se misturam aos confusos
olhares de suas mães, que combinam o desespero pela situação e o alívio de ver
seus filhos bem.
A situação
lá fora se acalma e resolvo sair, à tempo de ver as pessoas como ficaram
durante toda a confusão. Atrás do balcão da lanchonete, um grupo de quase dez
desconhecidos entre si se amontoam quase uns sobre os outros. Gente de vinte,
trinta e até setenta anos, todos deitados e igualmente apavorados. A sensação
de insegurança e temor pela própria vida é evidente em todos e um sentimento inexplicável.
Árido, ácido, angustiante. Grande.
Os poucos
minutos em que tudo se passou pareceram muitos, quiçá uma hora cheia. E se foi
feliz por não deixar mortos e feridos entre nós, cavou um buraco de inquietação
em mim. E se o Rio oferece pores do sol espetaculares, paisagens sensacionais,
também é capaz de propiciar um dos piores sentimentos que já tive, a
impotência. Desde ontem, tenho menos vontade de viver por aqui.
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