sábado, 3 de dezembro de 2011

É quando acordo a noite que mais me sinto só. Não sei se causa ou efeito da insônia às avessas - um quase desmaio cedo da noite seguido pelo despertar em plena madrugada, invariavelmente as 4:30 da manhã - essa sensação de solidão nada tem a ver com meu estado de espírito ou físico; posso estar com quem mais gosto ao meu lado ou vivendo a felicidade plena que me sinto ermo. Talvez seja tudo - às vezes realmente acho que é - culpa da urgência louca pela vida, pelos livros ou pelos sonhos. A expectativa é mãe legítima e única da frustração, e esse imediatismo insano por tudo aqui e agora é que esvazia meu peito. a imensidão vazia, o buraco negro que só deixa para trás a ansiedade, revigorada. E com o mundo dormindo, em plena útil madrugada, interrompo os sonhos e busco a leitura, que estava parada.

sábado, 19 de novembro de 2011

  um                      bu
     ra                   co
       fo                ii
         ss           oq
           ue       me
             re     st
                ou
sonhei um daqueles sonhos raros
você me escrevia um bilhete de amor
se dizia com saudades
se declarava apaixonada
me pedia para esperar
me dava data até
falava para eu me acalmar

acordei num daqueles pulos
tentando esquecer minhas lamúrias
me convencendo da inverdade
de que ainda me amavas
me levo a desistir
me encho de motivos
para definitivamente
de você partir

terça-feira, 15 de novembro de 2011

a cor desbotada
de seus cabelos
o verde gasto
de seus olhos
suas primorosas
desproporções
seu sorriso alegre
que não escondia
um que de tristeza
que atestava
sua perfeição
supero a sua ausência
como quem anda em gelo fino
num imenso lago, em dia de sol
passo a passo, o risco do gelo partir
e na água gelada cair
hipotermia

supero sua ausência
como o alcoólatra
um dia a cada dia

mas basta um passo em falso
um dia de desconcentração,
para o chão vazar
para a contagem
de todos os dias
do zero recomeçar

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

ela me acorda
de madrugada
a acidez de seu hálito
não muda o inevitável
acordo
mas não é amor o que quer
ela só me quer pensando
so me quer acordado
para que eu viva
para me extenuar
em mais horas
de profunda dor

sábado, 5 de novembro de 2011

Toda nobreza cabe na dedicação.

A dor que sempre me invade ao fim é também proporcional ao quanto me gostou cada um dos melhores livros que li. É a dor da perda, a impossibilidade de replicar o prazer da primeira leitura, dos textos virgens a mim. É como a consumação de uma paixão platônica que me acompanhava há anos e que se finda quando consumada. Se prosseguida, o será de outra maneira. A liberdade platônica é morta e com ela, todas as possibilidades de idealizações infinitas, possíveis por não reais. A cada bom livro que leio, morro um pouco por dentro. Choro sempre ao fim, mesmo que ele, o do livro, se proponha feliz. E para a dicotomia entre manter vivas as vésperas pela não leitura e o prazer infinito de consumar a morte do livro como novo, encontro saída na compulsiva procura por novidades, sabendo do risco que corro de nunca mais sentir o que já senti, de não mais encontrar em nova leitura o prazer vivido no passado. E está aí a grande lição que a literatura poderia me dar. Há que viver, há que arriscar transformar todas as vésperas em hoje. E há que seguir criando-se sonhos e expectativas. Ser feliz, afinal, é matar um a um seus sonhos, desde que outros se sonhe.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Completude
Pleno
Perfeito amiúde
confio no meu instinto
de olhos fechados
e digo-te
em benefício próprio
ou num dizer arriscado

há que se seguir
o mais cru sentimento
aquele que vem a noite
num quarto vazio
de olhos vendados

há que seguí-lo:
se certo, juntos
se errado, separados
eu e a magrela
em volta
o mato
atlantico
diante
o mar
lindo
distante

terça-feira, 25 de outubro de 2011

se a diferença
entre amor de amigo
e de amante
é o tesão
então
amoT
ou, se preferir,
Tamo

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

no auge o sintoma
claro e de hipermetropia
os amantes apaixonados
nao enxergando imperfeicao
alguma, so olhando longe,
adiante, em sonhos comuns
num futuro distante
entao vem a decadencia
e com ela a miopia
os antes enamorados
nao vendo agora condicao
alguma, so veem defeitos
adiante, sem sonho nenhum
num presente frustrante
fim
a saudade e
uma jiboia
que vem a noite
e se enrosca no
peito
apertando forte,
esmagando qualquer
traco de felicidade
que exista no
leito
Voce pode me dar
Uma esperanca
Pra eu me apegar
Um telefone que eu possa
Chamar
Um sorriso
Pra eu lembrar
Ou até
Um nome
Pra que eu possa
Sonhar

domingo, 16 de outubro de 2011

O sentimento e um so, embora os nomes se confundam em seus comecos ou finais. Talvez seja o alcool em excesso. Nas camas (o que define a cama sao os que nela estao e portanto, uma cama se faz multipla na multiplicidade de estados e corpos) cheiros e gozos se misturam no que poderia ser considerado mau gosto. Outro dia li uma historia de um apaixonado que recortava do lencol as marcas de seu amor consumado com a amada e pendurava na parede, como uma obra viva, uma homenagem a musa, todos estes recortes. Ao mesmo tempo que nao imagino-me recortando lencol, entendo a ode ao amor marcado em pano. Me orgulho das marcas permanentes ou temporarias que ajudei a espalhar. E enquanto a vida vai passando la fora, aqui na cama tudo se faz estatico em meio ao entrelace dinamico de corpos e bocas. Amores passados encontram o presente, atuais amores procuram futuro e potenciais amores se desfazem. O tempo existe de outra forma e ao tempo resistem as marcas disformes.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Prometo deixar nascer
sobre os rasgos
somente pele fina
em cicatrizes
das feridas fechadas
fazendo sempre intensas
as dores e alegrias
atuais e as já passadas

domingo, 9 de outubro de 2011

Na pele alva
da menina de cabelos negros
veem-se lindos desenhos
tatuagens abstratas
que cortam seu corpo
em alto relevo
cada vitoria marcada
em novas figuras
transformam seu corpo
de linhas suaves
em livro aberto
escrito em braile
so podendo ser lido
pelas caricias do amor

domingo, 11 de setembro de 2011

Confesso aqui em publico
O que pra mim sempre escondi  

Confesso o medo da dureza
A falta de cultura
E a dificuldade da clareza  

O brio pelo sucesso monetario
Confesso
Me tira do caminho hereditario  

Confesso a inseguranca constante
Auto estima baixa
Timidez claudicante  

Confesso nao saber fazer conta
Contando com meu futuro incerto
Pao duro comigo, generoso com o resto  

Confesso-me mau amigo
Com frequencia relevante
Gosto muito, mas sou ator errante  

Confesso sonhos largados
Pela crenca em excesso
Da minha falta de talento, confesso  

Torcedor costumaz da genialidade
Talento sobre o esforco
Confesso que me faco o oposto

Confesso-me nem sempre feliz
Com o caminho que escolhi