segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

domingo, 23 de fevereiro de 2014

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Os protestos e os direitos
(Lei e Justiça)

Ucrânia em chamas. Setenta mortos em um único dia. Venezuela em chamas. Mortes e violência aumentando. A nova onda de protestos não é só brasileira. Apesar de todos os problemas recentes, ainda podemos dizer que temos um governo democrata no poder, especialmente se comparado a estes dois outros países.
Antes de continuar, queria deixar clara a minha opinião frente a todos estes protestos: sou favorável a tentativas populares de melhoria de qualquer situação social. Acredito que mudanças profundas não ocorrem sem estímulos externos aos do que no poder, sempre os conservadores.
Há pouco mais de 58 anos, na fria manhã de uma quinta-feira, primeiro dia de dezembro de 1955, Rosa Parks entrou num ônibus em Montgomery, Alabama. Mais passageiros iam entrando e, ao ser intimada a ceder seu assento a um passageiro branco, Rosa negou veementemente, em atitude que nos dias seguintes culminou no Boicote aos Ônibus de Montgomery. Por esta recusa, Rosa foi presa. E o boicote foi um dos passos mais importantes para a justiça social e racial dos EUA. Os Estados Unidos viviam a segregação racial. As leis eram claras em criar classes de pessoas baseadas em sua cor de pele. Por mais absurdo que isto nos pareça hoje, repito: estava na lei. Era o certo pela ótica legal. O único certo. Rosa foi presa por desobedecer. Rosa cometeu um crime porque, sendo negra, não cedeu seu lugar no ônibus a um branco.
A atitude de Rosa foi de desobediência civil. Rosa estava contra a lei, apesar de inquestionavelmente justa ser sua atitude. A lei nada mais é do que um arcabouço jurídico independente de justiça. Sempre foi assim e sempre será. Lei é lei. Justiça é justiça. Muitas leis são justas ou estimulam a justiça. Quanto mais evoluído socialmente um país, mas os dois se alinham. Mas se alinharem não os fazem os mesmos. No máximo, estão os mesmos.
O Brasil é um dos países com maior desigualdade de renda do planeta. Somos ainda uma Belíndia (mistura de Bélgica e Índia). Nossas leis foram feitas pelos que detinham e detém o poder. Muitas delas são justas, mas a injustiça ainda é um mal muito nosso. Seja por desrespeitos gritantes e constantes a muitas destas leis, seja por incapacidade social de cobrança dos direitos dos cidadãos.
Temos um péssimo sistema educacional, que colabora ativamente para a perpetuação da desigualdade social, contribuindo até para sua piora. As condições de nascença de nossos cidadãos é um dos maiores fatores de definição de seu destino econômico-social. Quem tiver a sorte de pais abastados estudará em escolas particulares, universidades públicas ou particulares e terá qualificações escassas e valorizadas no mercado de trabalho. Os que nascerem da maioria pobre, não terão as mesmas chances, a não ser que tenham talento excepcional para o futebol.
Temos um dos piores sistemas de transporte urbano do mundo. Baseado em ônibus e carros, mas sem pistas e autopistas adequadas. Lentos. Sem conforto. Em condições precárias. E caros, muito caros para a qualidade do serviço ofertado. Sistema de concessões no mínimo polêmicas, com questionamentos constantes e não esclarecidos feitos pelos Tribunais de Conta, que vão desde esquemas de corrupção para facilitação das concessões até questionamentos sobre os custos e as tarifas cobradas. Um sistema que mistura amadorismo de gestão, corrupção e descaso completo com o chamado passageiro, que na verdade deveria ser tratado como cliente.
Melhoramos muito nos últimos vinte anos. Somos mais institucionalizados, a renda aumentou, a classe média passou por um boom de tamanho. Mas ainda somos um país continental e de problemas extremamente graves.
Nesse contexto é que se dão os protestos populares, especialmente desta nova classe média. Novas demandas e desejos surgem de quem vai melhorando de vida. E são mais do que justas. O povo vai mudando e a classe política permanece a mesma, com as mesmas atitudes. Corrupta, personalista, populista. Precisamos de mudanças sociais e políticas relevantes. Precisamos de um novo contrato social. Precisamos adequar nosso país ao nosso novo povo. Precisamos sacudir o atual para criar o novo. Precisamos incomodar e desconcertar a classe política.
Sou terminantemente contra a violência. Sou contra um estado extremamente paternalista. Sou favorável ao equilíbrio financeiro dos governos.
Acredito que as demandas e cobranças podem e devem ser feitas de maneira pacífica. Mas devem ser feitas. E devem ser respeitadas. O que vemos no país desde o início de todos os protestos é uma atitude violenta e descabida da polícia. As máscaras surgiram nos protestos em primeiro lugar para proteger os manifestantes dos abusos policiais, especialmente os feitos com a utilização de armas de gases tóxicos. A polícia foi a primeira a atirar. A polícia matou, foi a primeira a matar. E isso tem que parar.
Os manifestantes tornaram-se mais aguerridos. Passaram a depredar, a se armar. Passaram a lutar de igual para a igual com a violência policial. As passeatas transmutaram-se em atos de quase guerra. Viraram confrontos abertos. E isso tem que parar. Mas o final não deveria ser o do fim dos protestos e sim dos combates. Os pleitos, mesmo que não se concorde com eles, são justos. Pleitear é justo, por mais que perturbe o status quo, por mais que moleste os conservadores.
Enquanto à discussão se ativer à legalidade ou não dos movimentos, não solucionaremos seus problemas. A polícia continuará atuando de maneira grotesca. A imprensa seguirá não entendendo e discriminando. Enquanto à questão legal e não a justiça for o centro do debate, não apaziguaremos os ânimos. Não cessarão os embates nem a violência. Mudança social profunda só se faz com desobediência civil, assim foi em toda a história da humanidade. Assim foi com Rosa Parks.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

e desde que não nos conjugamos mais na primeira pessoa do plural que te busco em cada uma que conheço. e na falta da completude sua, da totalidade sua que tanto amei, enfilero detalhes seus divididos entre uma sequência errante de relacionamentos. seus olhos na primeira. sua cor na segunda. sua sensibilidade na terceira. e assim vou tentando te substituir, me completar. mas seu sorriso. ah, seu sorriso puro e lindo. igual a ele acho que nunca nenhum vou achar.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

a sensação é que tem medo do risco errado. se fecha, se protege, deixa de amar para não sofrer, quando a dor maior é completamente vazia permanecer.
se rasga
que eu gosto
se mostra
que eu gamo
se entrega sem medo
que eu te amo
às vezes penso que vivo
meu próprio truman show
é engraçado
mesmo certo
do tamanho
da insanidade
sigo
indo na mesma
direção

de quando mais te amei

de todo o tanto que te amei, em sua totalidade entre a risada boba, o ciúme bravo e injustificado, o mau humor matinal, a briga proposital, de todo o tanto que te amei, te amei mais no momento único - mesmo que se repetido - em que deitava em meu peito, depois de nosso amor de tarde de sábado, e se entregava toda ao sono que te chegava e ia te derrubando até seu último beijo ou sua última respiração mais forte em meu pescoço. eu lendo e me mantendo acordado para que o momento não acabasse e você entregue. despreocupada na certeza do amor incondicional. de todo tanto que te amei, assim te amei ainda mais.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

são tantas as mãos
tantos
os berros
tanta tentação
cada um em seu inferno

são mãos ao alto
tentativas de atenção
enquanto olhos fechados
mãos pelas mãos

estrondosos
os berros
dos monologuistas de plantão
incapazes de ouvir
qualquer senão

não são mais épocas dos quinze
de fama não
é tempo novo
do egoísmo
     da intolerância
            da infâmia
      
tempo sem razão

volto ao meu primeiro lugar neste mundo. volto mais de vinte e cinco anos. volto a ser o gustavinho, não pela idade mas pelo carinho. volto mais do que à minha infância, volto à época da inocência, que se em mim já passou, por aqui é mais do que presente: é a regra. volto e me pego pensando se não é por aqui que quero ficar.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Da violência e da adaptabilidade
(do despreparo e da criminalidade)

Embora eu nunca tenha dado um tiro com uma arma de verdade, posso dizer que já tive muitas experiências visuais com as mesmas, como provavelmente todos que moram nas grandes cidades brasileiras, seja pela visão constante dos canos das metralhadoras para fora das viaturas policiais, seja pelos traficantes exibindo suas armas pelas favelas ou então nos revólveres e pistolas ostentados por seguranças à volta de nós, cidadãos desarmados.
Também já fui testemunha visual de um assassinato quando tinha quase dez anos de idade. Não estava tão perto da cena e, por me encontrar dentro de um carro com os vidros fechados, só me ficou a imagem do assassino jogando o futuro morto no chão para depois dar-lhe um tiro. O fogo cuspido pelo cano da arma no momento do disparo, imagem que me vem nítida mesmo após os quase vinte e cinco anos que já se passaram. Fiquei algumas noites sem dormir até que o medo passasse.
O que não tinha ainda experimentado é me ver presente em uma cena de real perigo de morte como ontem. Sentávamos eu e um amigo em uma mesa na calçada em frente ao Bar Rebouças, tradicional reduto comandado pelo português Seu Alberto e seu fiel escudeiro Jorginho, eleito melhor garçom do Rio pela Veja em 2011. Conversávamos entre cervejas e frituras quando um Tucson preto entra em alta velocidade pela contramão da Rua Maria Angélica, vindo em nossa direção. Apesar de nossa mesa estar perto da rua, escapamos do atropelo, salvos por um poste que impediu que os bandidos subissem à calçada em cima de nós. Meu amigo, que estava mais próximo à rua, levantou-se rapidamente da mesa num reflexo surpreendente. Eu dei um passo para trás e fiquei atônito olhando o carro seguir no sentido errado, quando atrás dele veio o primeiro carro de polícia, também na contramão. Os bandidos conseguiram seguir por mais uns dez metros de rua, até que o carro foi parado por uma árvore à frente e o tráfego normal de carros no sentido correto, à esquerda. Assim que os bandidos pararam os policiais também o fizeram, saltando rapidamente com suas metralhadoras automáticas em punho. Éramos, os clientes do bar, talvez umas quarenta ou cinquenta pessoas espalhados pela calçada onde a cena se passava, incluindo algumas poucas crianças. A correria começa. Ouço dois ou três barulhos secos de tiros disparados, aparentemente pela polícia, colocando não só as pessoas em um estado emocional ainda mais estressante como nossas vidas em risco, num evidente despreparo de quem deveria prezar, acima de tudo, por nossa segurança. A correria é grande e corro também, procurando abrigo quase forçando minha entrada na cozinha da lanchonete ao lado, pedindo e quase empurrando um segurança boa pessoa, mas que estava atordoado com a confusão. Consegui convencê-lo a deixar duas mães e seus dois filhos entrarem antes dele trancar a porta com medo de uma possível invasão pelos bandidos agora em fuga. Duas moças de rostos quase angelicais batem à porta, num desespero evidente. Por falta de espaço (ou por medo), o segurança não as deixa entrar. Elas se sentam em frente à porta, em um pranto contido por uma e liberado por outra. Estamos no corredor que antecede a cozinha da lanchonete e as crianças não param de chorar, em pânico. Seus olhos vermelhos e soluços se misturam aos confusos olhares de suas mães, que combinam o desespero pela situação e o alívio de ver seus filhos bem.
A situação lá fora se acalma e resolvo sair, à tempo de ver as pessoas como ficaram durante toda a confusão. Atrás do balcão da lanchonete, um grupo de quase dez desconhecidos entre si se amontoam quase uns sobre os outros. Gente de vinte, trinta e até setenta anos, todos deitados e igualmente apavorados. A sensação de insegurança e temor pela própria vida é evidente em todos e um sentimento inexplicável. Árido, ácido, angustiante. Grande.

Os poucos minutos em que tudo se passou pareceram muitos, quiçá uma hora cheia. E se foi feliz por não deixar mortos e feridos entre nós, cavou um buraco de inquietação em mim. E se o Rio oferece pores do sol espetaculares, paisagens sensacionais, também é capaz de propiciar um dos piores sentimentos que já tive, a impotência. Desde ontem, tenho menos vontade de viver por aqui.

ontem no samba
uma moça quis me comprar

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

eu não sei
se daí você está
a sorrir
enquanto eu aqui
sorrio
com vontade de chorar
pela esperança
do bem estar
pela temperança
alcançada
e pela eterna
extrema
saudade de ti

passeio
por você inteira
te vejo toda
nas pontas dos meus dedos
dos seus cabelos
às costas da sua coxa
indo e voltando
e te conhecendo mais
a cada sentido
nem se ficasse
assim, te passeando
por anos a fio
cansaria
ou pensaria
te conhecer 
toda

sábado, 1 de fevereiro de 2014

nada mais agudo
e estridente
que os gritos
dos meus demônios
espero sua chegada
que traz além do êxtase
o silêncio eminente
no silêncio
da solitude
a sinfonia
da natureza
ode à vida
e sua beleza