quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

às vezes penso que vivo
meu próprio truman show
é engraçado
mesmo certo
do tamanho
da insanidade
sigo
indo na mesma
direção

de quando mais te amei

de todo o tanto que te amei, em sua totalidade entre a risada boba, o ciúme bravo e injustificado, o mau humor matinal, a briga proposital, de todo o tanto que te amei, te amei mais no momento único - mesmo que se repetido - em que deitava em meu peito, depois de nosso amor de tarde de sábado, e se entregava toda ao sono que te chegava e ia te derrubando até seu último beijo ou sua última respiração mais forte em meu pescoço. eu lendo e me mantendo acordado para que o momento não acabasse e você entregue. despreocupada na certeza do amor incondicional. de todo tanto que te amei, assim te amei ainda mais.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

são tantas as mãos
tantos
os berros
tanta tentação
cada um em seu inferno

são mãos ao alto
tentativas de atenção
enquanto olhos fechados
mãos pelas mãos

estrondosos
os berros
dos monologuistas de plantão
incapazes de ouvir
qualquer senão

não são mais épocas dos quinze
de fama não
é tempo novo
do egoísmo
     da intolerância
            da infâmia
      
tempo sem razão

volto ao meu primeiro lugar neste mundo. volto mais de vinte e cinco anos. volto a ser o gustavinho, não pela idade mas pelo carinho. volto mais do que à minha infância, volto à época da inocência, que se em mim já passou, por aqui é mais do que presente: é a regra. volto e me pego pensando se não é por aqui que quero ficar.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Da violência e da adaptabilidade
(do despreparo e da criminalidade)

Embora eu nunca tenha dado um tiro com uma arma de verdade, posso dizer que já tive muitas experiências visuais com as mesmas, como provavelmente todos que moram nas grandes cidades brasileiras, seja pela visão constante dos canos das metralhadoras para fora das viaturas policiais, seja pelos traficantes exibindo suas armas pelas favelas ou então nos revólveres e pistolas ostentados por seguranças à volta de nós, cidadãos desarmados.
Também já fui testemunha visual de um assassinato quando tinha quase dez anos de idade. Não estava tão perto da cena e, por me encontrar dentro de um carro com os vidros fechados, só me ficou a imagem do assassino jogando o futuro morto no chão para depois dar-lhe um tiro. O fogo cuspido pelo cano da arma no momento do disparo, imagem que me vem nítida mesmo após os quase vinte e cinco anos que já se passaram. Fiquei algumas noites sem dormir até que o medo passasse.
O que não tinha ainda experimentado é me ver presente em uma cena de real perigo de morte como ontem. Sentávamos eu e um amigo em uma mesa na calçada em frente ao Bar Rebouças, tradicional reduto comandado pelo português Seu Alberto e seu fiel escudeiro Jorginho, eleito melhor garçom do Rio pela Veja em 2011. Conversávamos entre cervejas e frituras quando um Tucson preto entra em alta velocidade pela contramão da Rua Maria Angélica, vindo em nossa direção. Apesar de nossa mesa estar perto da rua, escapamos do atropelo, salvos por um poste que impediu que os bandidos subissem à calçada em cima de nós. Meu amigo, que estava mais próximo à rua, levantou-se rapidamente da mesa num reflexo surpreendente. Eu dei um passo para trás e fiquei atônito olhando o carro seguir no sentido errado, quando atrás dele veio o primeiro carro de polícia, também na contramão. Os bandidos conseguiram seguir por mais uns dez metros de rua, até que o carro foi parado por uma árvore à frente e o tráfego normal de carros no sentido correto, à esquerda. Assim que os bandidos pararam os policiais também o fizeram, saltando rapidamente com suas metralhadoras automáticas em punho. Éramos, os clientes do bar, talvez umas quarenta ou cinquenta pessoas espalhados pela calçada onde a cena se passava, incluindo algumas poucas crianças. A correria começa. Ouço dois ou três barulhos secos de tiros disparados, aparentemente pela polícia, colocando não só as pessoas em um estado emocional ainda mais estressante como nossas vidas em risco, num evidente despreparo de quem deveria prezar, acima de tudo, por nossa segurança. A correria é grande e corro também, procurando abrigo quase forçando minha entrada na cozinha da lanchonete ao lado, pedindo e quase empurrando um segurança boa pessoa, mas que estava atordoado com a confusão. Consegui convencê-lo a deixar duas mães e seus dois filhos entrarem antes dele trancar a porta com medo de uma possível invasão pelos bandidos agora em fuga. Duas moças de rostos quase angelicais batem à porta, num desespero evidente. Por falta de espaço (ou por medo), o segurança não as deixa entrar. Elas se sentam em frente à porta, em um pranto contido por uma e liberado por outra. Estamos no corredor que antecede a cozinha da lanchonete e as crianças não param de chorar, em pânico. Seus olhos vermelhos e soluços se misturam aos confusos olhares de suas mães, que combinam o desespero pela situação e o alívio de ver seus filhos bem.
A situação lá fora se acalma e resolvo sair, à tempo de ver as pessoas como ficaram durante toda a confusão. Atrás do balcão da lanchonete, um grupo de quase dez desconhecidos entre si se amontoam quase uns sobre os outros. Gente de vinte, trinta e até setenta anos, todos deitados e igualmente apavorados. A sensação de insegurança e temor pela própria vida é evidente em todos e um sentimento inexplicável. Árido, ácido, angustiante. Grande.

Os poucos minutos em que tudo se passou pareceram muitos, quiçá uma hora cheia. E se foi feliz por não deixar mortos e feridos entre nós, cavou um buraco de inquietação em mim. E se o Rio oferece pores do sol espetaculares, paisagens sensacionais, também é capaz de propiciar um dos piores sentimentos que já tive, a impotência. Desde ontem, tenho menos vontade de viver por aqui.

ontem no samba
uma moça quis me comprar

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

eu não sei
se daí você está
a sorrir
enquanto eu aqui
sorrio
com vontade de chorar
pela esperança
do bem estar
pela temperança
alcançada
e pela eterna
extrema
saudade de ti

passeio
por você inteira
te vejo toda
nas pontas dos meus dedos
dos seus cabelos
às costas da sua coxa
indo e voltando
e te conhecendo mais
a cada sentido
nem se ficasse
assim, te passeando
por anos a fio
cansaria
ou pensaria
te conhecer 
toda

sábado, 1 de fevereiro de 2014

nada mais agudo
e estridente
que os gritos
dos meus demônios
espero sua chegada
que traz além do êxtase
o silêncio eminente
no silêncio
da solitude
a sinfonia
da natureza
ode à vida
e sua beleza

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

da nossa (im)possibilidade

sonhei que estávamos juntos, mas não só nós. éramos parte de um grupo maior. ainda não éramos o que somos. e no gramado, fazendo surpresa, você se vira em minha direção, abre seu sorriso mais lindo e grita: parabéns! demorei o tempo de sua vinda até mim para entender o que estava acontecendo: você me parabenizava pelo beijo que eu ia te dar. por te ter. te pego pela cintura, caímos deliciosamente pela grama e quando vou te beijar, percebo minha boca cheia como nunca antes, de algo que não sei o que é. e ficamos assim, rostos colados, mãos enroscadas aos corpos deitados, num quase que não tem fim.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

meu corpo em estado deplorável, numa quase exaustão, evidenciada pelo peso de minhas pálpebras, que insistem em fechar mesmo que contra toda a adrenalina que me corre. é na madrugada que mais me falta, que mais te quero aqui. tateando o passado que é só meu, lembrando das suas histórias do que é só seu, me pego tentando entender como dois caminhos quase opostos se encontraram. o tamanho da coincidência daquele encontro, quase acidental, que virou ao avesso tudo que pensávamos estarmos predestinados a ser e viver, individualmente. encontro fortuito, constrangedor, desconfortável pelo tamanho que desde o início soubemos ter. como se antes dele, antes de nós ser pronome adequado a cada um dos dois ou ao que hoje somos, já esperássemos. como se vislumbrando essa unicidade que nos tornamos, essa completude que nos damos. como se ali houvesse uma linha de chegada que marcasse o início e não o fim, por mais contraditório que soe. chegamos um ao outro depois de muitas voltas que, mais do que tiveram de bom e ruim, de melhor, foi nos trazerem até aqui. até estarmos prontos um para o outro. não me é indiferente que tenha sido eu a percorrer o caminho mais longo e errante: foi sempre melhor do que eu em tudo que há de importante para ser. melhor até em me querer. e hoje, se estou que não me caibo em felicidade, se te tenho e isso na vida me basta, pego-me mais ansioso do que nunca. tenho todos os motivos do mundo para ter o sono leve como dos bobos, dos apaixonados, dos completos. mas tudo isso, confesso, me dá um baita de um medo.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

médio
morno
intermediário
meio-termo
insípido
mo
   nó
      to
        no

tudo isso eu
     passo
com gosto
    e por
         necessidade

só me
conforta
frequento
habito
só me acalma
me afaga
me basta
  o demais
     o exagero
        o sem 
           limite
tem·pe·ran·ça

sábado, 18 de janeiro de 2014

à força puxo-me e me levanto
caio, puxo-me e me levanto
caio
puxo
levanto
se não posso evitar o tombo,
só a persistência de me puxar de volta vale

sou todo tombos
e persistência
Madri-Berlin-Paris-NY














segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Relato de uma Paris B

Tomo a linha 7 do metrô em Montparnasse, precisamente na Censier-Daubenton. Tenho exatamente 23 paradas até o meu destino: La Courneuve, ponto final.
Acostumado a ver o lado pobre do Rio de Janeiro, decidi montar um roteiro do lado B de Paris. O lado que turista nenhum costuma ver a não ser nos noticiários, quando alguma onda de protestos ou violência assola estas regiões.
La Courneuve é um destes lugares, subúrbio da Paris central.
Vindo de uns dias em Berlin, onde a imigração não salta aos olhos nem pelas características físicas nem pelos dialetos ou modos, Paris já se mostra mais heterogênea.
As ex-colônias africanas, antes exploradas pela exportação de Commodities, Metais Nobres e Pedras Preciosas, são hoje grandes exportadoras de imigrantes ilegais, todos em busca de melhoria de vida econômica ou em fuga de situações de risco de morte, como as tantas guerras civis que explodem por seus países. Tem no francês aprendido por imposição o motivo para a escolha do país.
O que encontram em Paris parece ser diferente do que deixam somente pelo modo: a violência física transforma-se em psicológica, civil, fruto do preconceito xenofóbico.
Relegados aos subúrbios pobres e violentos, os imigrantes de primeira ou segunda gerações se penduram no estado social, em sub-empregos ou em atividades ilegais.
A dita primeira impressão, de uma Paris diversa em Montparnasse, vai mudando quanto mais o metrô se afasta dos “arrondissements” centrais e segue em direção às regiões mais pobres.
Rostos tipicamente franceses, principalmente novos, praticamente desaparecem, substituído por poucos orientais e muitos africanos, brancos e negros.
O clima é cada vez mais pesado. Não pela presença dos imigrantes mas por suas posturas. É como se qualquer ato violento estivesse próximo de eclodir. A cada parada, maior é a quantidade de gente com essa postura, mesmo que rodeados de outros que, estando mais confortáveis no ambiente do que eu (talvez pelo costume), não emitem a mesma carga de violência.
Vivendo no Rio de Janeiro há mais de 20 anos, presenciei toda a gradual piora da situação da segurança na cidade até a chegada do ponto crítico social entre as favelas e o dito asfalto, que levou a população à importantes mudanças de hábito como sair menos a noite, evitar certos caminhos e até a blindagem de carros. Dominadas completamente por traficantes, as favelas, mesmo estando encrostadas pela cidade, foram sendo socialmente excluídas da vida dos que nelas não habitavam.
Subir uma favela era então um ato de risco. Era comum ver traficantes nos bares, com garrafas de cerveja ao lado de fuzis como o AK-47, o preferido deles. Era habitual pessoas não locais serem revistadas ou interrogadas por estes mesmos traficantes, que formavam um verdadeiro estado paralelo, auferindo total controle sobre estas áreas.
Após o invento das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), programa em andamento, extremamente bem sucedido na reocupação das favelas pelo Estado, se não exterminadas, a presença dos traficantes voltou à marginalidade, com o tráfico de drogas se dando somente às escondidas.
Ao subir uma favela hoje, como subo regularmente o Morro dos Tabajaras, onde dou aula de inglês como professor voluntário, mais do que maior sensação de segurança, me impressiona a mudança no clima. O que antes era um ar de terror, de guerra, hoje é muito mais leve. Muitos dos problemas ainda estão lá. A pobreza e a falta de infra estrutura básica como água, esgoto, transportes, ainda são gritantes. Mas é como se houvesse uma esperança de dias cada vez melhores no ar.
A desigualdade social no Brasil, uma das maiores do mundo, ainda faz o país quase um país de castas, mas isso não impede esta esperança, talvez fruto da combinação atual de quase pleno emprego, crescimento de renda e paz. E talvez essa esperança seja a principal causa da grande mudança do ambiente nestes lugares.
Nas ruas de La Courneuve, não se vê traficantes com armas. Também percebe-se uma estrutura urbana mais adequada, apesar de bem pior do que o lado rico da cidade. O que não se vê é a presença do Estado nas ruas. Muita sujeira, nenhum policiamento e uma quantidade grande de pessoas que, mesmo em dia útil, dedicam-se à circular pelas esquinas, sempre com ares suspeitos, incluindo-se aí traficantes que agem em plena rua, à luz do dia. A sensação de insegurança que senti me remeteu à última vez que subi em uma favela ocupada pelo tráfico.
Pela primeira vez na minha vida, tive medo de tirar a câmera fotográfica da mochila. Talvez temendo mais, ao fotografar as ruas, ser confundido com algum agente da lei, do que ter minha máquina roubada.
Paro para um café, em parte para poder observar a região me sentindo mais seguro do que na rua. Fico por algumas horas sentado de frente para um cruzamento muito movimentado, tentando entender o que se passa, reparando em minha volta.
Não consigo deixar a região sem antes escrever tudo que vi. No café, aproveitando-se de meu péssimo (ou inexistente) francês, recebo uma conta onde uma água mineral, amplamente sinalizada à 0,30 Euros, me foi cobrada como limonada à impressionantes 3,80 Euros. Não questiono o atendente pois quero guardar esta nota como parte da experiência.
Sem as fotos que pretendia tirar, minha tarde em Le Courneuve me atirou no peito o tamanho do problema francês. Pela experiência do meu Rio de Janeiro, sinto que deixar os subúrbios largados à própria sorte vai se tornar um problema cada vez maior à Paris central. O que se passa em Le Courneuve é grave e não parece estar sendo combatido. Talvez nem tenha sido assim identificado. O que falta à La Courneuve e sua gente é esperança.

domingo, 22 de dezembro de 2013

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

vou seguindo a voz dela de volta à minha adolescência e quando vejo sou um camundongo, tremendo de medo num canto de um enorme labirinto. acima, uma constelação de olhos brilhando com a luz me acompanham. entre risadas e gritos, todos tendo no deboche a interseção, tremo, num misto de raiva e medo. tremo numa angústia sem fim.
as luzes se acendem e vejo um a um os rostos a me olharem. e vou guardando os nomes (e sobrenomes) todos em minha mente. e vou associando as vozes às pessoas. e me quedo raivoso a ponto de jurar vingança.
sinto então um dedo às costas que parece só servir para me lembrar de meu tamanho: um dedo dela é todo meu dorso.
não sei dizer o que fiz para estar ali, tão culpado quanto kafka em o processo. tão angustiado quanto.
marionete coletiva. ou pior, nem isso. somente um camundongo amedrontado. posto e largado à sua insignificância.

domingo, 15 de dezembro de 2013

1. be nice to people
2. go back to #1
só, entre tantos
pelos assuntos
pelas pessoas
pelo que seja
estou só
mesmo
entretantos
mordo minha pele para ver se ainda sinto. se ainda doo.
o inglês britânico é o idioma do rude operário, o americano do pragmatismo. o francês o idioma do delicado. o chinês do estressado. o espanhol do amor da paixão. e a nossa portuguesa é a língua da melancolia. até a alma.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê você cadê você cadê você

que desistiu, cadê você?

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

o inglês britânico é o idioma do rude operário, o americano do pragmatismo. o francês o idioma do delicado. o chinês do estressado. o espanhol do amor. e a nossa portuguesa é a língua da melancolia. até a alma.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

somos todos poços fundos
de inseguranças
e problemas sem solução
somos covas
não das rasas
escavadas em nossas almas
um pouco mais a cada dia
que passamos em solidão

estou no taxi e o motorista assovia uma musica qualquer, que toma de mim meus pensamentos, mais pela sua falta de harmonia do que pela qualidade, a ponto de que se a tentativa não fosse de acompanhar o que toca no rádio, eu não saberia do que se tratava o barulho. e penso em como, nos últimos tempos, assovios desprovidos de talento têm sido produzidos à minha volta e o quanto somos (sou) invadidos em nosso espaço pela falta de limite alheio, em melodias, risos e movimentos que, se não nos atentarmos, nos empurram para o canto de tudo, até que só nos sobrem subsolos em nosso próprio mundo, já sem os barulhos e movimentos. pergunto-me o quanto nosso espaço é nosso de direito ou se ele só existe se quem a nossa volta o perceber também, nos obrigando a nos mantermos sempre em posição de combate, buscando nada mais que o pouco que cremos merecer. e, como o isolamento não é alternativa viável, passamos nossos dias em doídas lutas pelo que deveria ser nosso de direito, mas que sem a briga, já estaria perdido.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

estou no taxi e o motorista assovia uma musica qualquer, que toma de mim meus pensamentos mais pela sua falta de harmonia do que pela qualidade, a ponto de que se a tentativa não fosse de acompanhar o que toca no rádio, eu não saberia do que se tratava o barulho. e penso como, nos últimos tempos, assovios desprovidos de talento têm sido produzidos à minha volta e o quanto somos (sou) invadidos em nosso espaço pela falta de limite alheio, em melodias, risos e movimentos que, se não nos atentarmos, nos empurram para o canto de tudo, até que só nos sobrem subsolos em nosso próprio mundo, já sem os barulhos e movimentos. pergunto-me o quanto nosso espaço é nosso de direito ou se ele só existe se quem a nossa volta o perceber também, nos obrigando a nos mantermos sempre em posição de combate, buscando nada mais que o pouco que cremos merecer e, como o isolamento não é alternativa viável, passamos nossos dias em combates doídos, lutando por nosso espaço que deveria ser nosso de direito, mas que sem a briga, já estaria perdido.

sábado, 14 de setembro de 2013

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

the world is moving forward... how about you?

carrying some weight

altogether

even when things are not clear

classy steps

or sporty ones

on hills to be higher

or lower ones to be safer

on wheels to be faster

on flops as if not caring

in front or behind

together again

the best possible way

outdated

trendy 

awry

hipster

preppies

quinta-feira, 20 de junho de 2013

me afundo no sofá
que já foi branco
encosto a cabeça
e fecho os olhos
nada mais importa
nada mais
digno de nota
ou tempo

segunda-feira, 17 de junho de 2013

meu olho cheio de lágrimas
pelo que não vai acontecer
pelo que a sua partida evitou
impossibilitou
por seu rosto cada dia mais vivido
seus conselhos mais sabidos
seus netos, de inexistentes
a crescidos
sua cabeça branca
(sinal de que não era hora -
às vezes me pego pensando -
seus cabelos ainda negros)

sábado, 15 de junho de 2013

não é que eu não tenha opção. é que te escolho novamente e sempre, mesmo entre infinitas opções.
seus beijos
obra de arte
sua pele branca
seus lábios pintados
escarlate

tenho sentido sua falta, muito mais que o usual. sem motivo aparente. só hoje percebi que ontem marcou o quinto mês de sua partida e quase o sexto sem ouvir sua voz, sua risada, sua tosse. e penso como o mundo é menor na sua ausência.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

sua risada ecoa na sala e de repente te vejo sentado em frente a tv, pernas cruzadas, como costumava ficar. me aproximo, sento ao seu lado e tento conversar. mexo minha boca mas estou afônico. como se a diferença de nosso tempo me impedisse de falar.
abdico das paixões uma a uma, como quem arranca espinhos de uma flor, como cravos espremidos. abdico como se pudesse só para vê-las voltarem, ainda mais intensas.
uma descarga de adrenalina invade meu sangue e traz consigo a ansiedade. é madrugada. de cima abaixo meus músculos enrijecem. acordo. são três e quarenta e dois da manhã. minha noite de sono acaba de terminar. sei que o sono não vem mais de forma natural, mas só intermitentemente e por extenuação total. desta vez acordei sem nenhum problema específico em mente. penso então em cada um dos que creio podem ter me trazido até aqui e vou resolvendo-os um a um em minha cabeça, criando uma lista de afazeres para assim que o dia raiar. a adrenalina diminui, a angústia é mais suportável, mas o sono profundo, este só voltará amanhã pela noite (e será pesado pelo cansaço acumulado, pelo menos até o meio da próxima madrugada). é a quarta vez na semana que acordo antes de precisar e o cansaço já se acumula e transparece em olheiras e bocejos ao longo do dia. o nível de concentração possível já é muito baixo e somado a ansiedade torna impossível qualquer leitura mais elaborada. os livros abandonados na cabeceira, parados, pela angústia tamanha. como tudo. como eu.

terça-feira, 11 de junho de 2013

um passo de cada vez
te levei para passear
um dia de cada vez
só nós dois e o velho mar

um passo de cada vez
te puxei pra perto
um dia de cada vez
pra poder te amar

e te amei
com tudo
um dia de cada vez
pro fim desse amor
nunca chegar
eu não sei sambar, mas me mexo... não sei dançar a dois, mas engano... não sei cantar, mas me empolgo... só sei amar e não reclamo.
(20 de nov de 2006)

sábado, 8 de junho de 2013

a aeronave manobra em solo e parte de uma cabeceira em direção à outra, acelerando. olhando pela janela, vê-se a velocidade pela paisagem lateral, agora um imenso borrão verde escuro. o avião desgruda do solo e se põe a voar (meu medo de aviões vem do simples fato de o aço ser mais pesado que o ar e enquanto as leis da física explicam, o instinto não aceita). a cidade se apequena aos meus pés. todo nosso cotidiano cabe na palma da minha mão. nossas casas, nossos trabalhos, nossas semelhanças e diferenças. tudo está lá embaixo e diminui a cada minuto. estamos a dez mil pés, você ao meu lado é maior do que toda nossa vida. o voo ajusta minhas perspectivas (e espero, as suas). a porta do avião aberta, paraquedas às costas. só nos resta pular (afinal, para isso viemos até aqui). o plano: eu pulo antes e você vem em seguida. eu te espero no ar para nos encontrarmos ainda com o paraquedas fechado e aproveitarmos juntos e ao máximo a queda livre. puxamos juntos a corda de abertura e vamos lado a lado até o local do nosso pouso, até terra firme. pulo e olho para cima. você está na porta. te espero diminuindo ao máximo minha velocidade. te olho e fica a dúvida (só minha): será que vai se jogar? penso isso e te vejo já no ar, em queda livre, embicada em minha direção. estamos a quase duzentos quilômetros por hora, rostos esticados (deformados) pelo vento a bater. já estamos perto um do outro, braços se buscando e o vento insistindo em dificultar. mantemos a calma (já pulamos antes e sabemos que sem ela não conseguiremos), mas sem parar. estamos cada vez mais perto. já vejo sua mão pequena em detalhes, até que nos encontramos (pela velocidade, quase nos empurramos). minha mão esquerda na sua direita. mais um pouco e nossas quatro mãos se juntam e assim descemos até a hora de abrir o paraquedas: juntos, a mais de duzentos por hora.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

seu sorriso ecoa em mim como uma lembrança gostosa dos dias que eram só nossos. esse ecoar que traz junto seu cheiro, e me vem então sua nuca nua enquanto seus cabelos presos à minha mão e o gosto da sua orelha mordida depois do passeio da minha boca pela sua, pela nuca nua. e eu que sempre me senti tão perdido no mundo, num não pertencimento quase agudo, me achei em nós, no que somos, no que fomos e mais ainda no que seremos. não preciso de mapas, crenças ou magia. me bastam (me completam) você (nós), bons textos e poesia.

quinta-feira, 30 de maio de 2013


Paraty, Bourbon, Céu
agora é a hora
vamos lá e pã
que Paraty vai proporcionar
sacanagem ou amor
é com você
só ousar
que vai acontecer

(brincadeira torta com a maneira Chacal de escrever)
você passou por mim.
rápido que nem vi,
simples assim.

passou ou deixei-te passar,
é o que me pergunto.
ainda não sei.
(será que conseguiria te amar?)

deixou de rastro,
confusa esperança,
de louca paixão.
(e temperança?)

de fato, agora,
só me sobra minha pouca memória,
e desilusão.
(não sentida paixão)



Jogo dos 5 erros

roda de gente que só se atura
casais que se odeiam
lugar sofisticado
vinho caro
papo chato

terça-feira, 28 de maio de 2013

a culpa é da cultura, do ambiente onde fomos criados. competitividade, em diferentes quantidades, mas vista sempre como qualidade. persistência, talvez a maior característica dos que conhecemos por bem sucedidos, de sucesso. permanência como objetivo, condição sine qua non da felicidade estereotipada. consequência de tudo: quantidade enorme de gente mal casada (mal amada).

pelo rio da ponte
beirando a água
mais de cem albatrozes
errantes
em revoada

na ponte do rio
cruzando a estrada
em minutos eternos
você
se aproximava

da ponte, no rio
nós de mãos dadas
refletíamos juntos
e eu
me apaixonava

quinta-feira, 23 de maio de 2013

as much as i feel
that i don't belong
i´m still moving forward
through a path that is wrong

terça-feira, 21 de maio de 2013

não entendo tudo que diz, mas sei ver beleza onde a beleza está. e te vejo linda a cada letra que te escorre, a cada rio que te vaza. seu delta, cheio de ilhas, onde cada rio seu encontra o mar. fico de longe, mas quero mesmo em todos os seus rios nadar.

domingo, 19 de maio de 2013

é nos detalhes que o amor se faz e nos detalhes que se mostra: no bom dia carinhoso da rotina, na troca de olhares que perguntam se está tudo bem, na esticada do cobertor para cobrir o restinho do pescoço dela, na mão que tira um fio branco preso na roupa preta. e é simples assim: se não tem detalhes, não é amor.

quinta-feira, 16 de maio de 2013


Drummond dos nossos dias (paródia minha)

Nova Quadrilha

João amava Teresa, que fingia que não, mas amava Raimundo
que não admitia mas amava Maria
que nunca respondia mas amava Joaquim
que não reconhecia que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história mas não se escondia.

sábado, 4 de maio de 2013

domingo, 28 de abril de 2013

é de você que tenho
fome
por você que viro noites
insone
sonhando acordado
com seu gosto
seu cheiro suado
gemido abafado
seu beijo,
equatorial,
quente molhado

fogo
que nem chuva tropical
apaga
que noite nenhuma
amarga

sigo então meu caminho
para longe de você
flor, que mais que flor
vive de espinho
eu deveria ficar feliz
por você me querer
por sentir saudades
por me procurar
por tentar me ter

mas fico triste
quando vejo o que fazes
se protegendo do temido dessabor,
é capaz de matar de inanição
o que poderia ser mais puro amor

quinta-feira, 25 de abril de 2013

transbordo palavras
vazo como sou
conexo
dialetico
desestruturado
palavras
como vapor cuspidas
[exaladas]
palavras suficientes
para seguir
[sem explodir]

quarta-feira, 17 de abril de 2013

se
felicidade = realidade - expectativa

se
ambição = expectativa - realidade

ambição > 0 ==> felicidade < 0

logo,
para ser feliz
muda-se a ambição
ou a equação

segunda-feira, 15 de abril de 2013

explodo em choro
pensando em você
e no que não fomos

saudades
de nossas não tardes
de nossas mãos separadas
(não dadas)
saudades de não te ver

sinto falta
e por isso me faço choro
sinto falta de não te ter

sexta-feira, 12 de abril de 2013

a primeira vez que vi você nua, quase chorei. fui menos ateu nesse dia. há de existir um deus para ter criado você, pensei. é muita perfeição, muito detalhe, muita curva para ser coisa do acaso. nada disso te falei assim, para não parecer clichê, mas é verdade quando digo que quase chorei. me senti o dono do mundo, esse mundo que é você. não precisava de nada que não estava ali, à minha mão. esse foi também o dia do nosso primeiro banho juntos e eu lembro de invejar a sorte de cada gota que escorria  no seu corpo. suas curvas marcadas por leitos de água que alternavam volume e velocidade. seu gosto molhada que não esqueço. você acanhada, quase indefesa, talvez por ver o desejo que beirava loucura no meu olhar. eu, um vulcão na mais plena erupção sentimental, tonto de desejo, insano. apaixonado, te amando. era toda a vida ao mesmo tempo. era tudo agora.
como se pode gostar de alguém que gosta de você se nem você o faz? é como se fosse (a menina) a pecadora original. ela mordendo a maçã que levam os dois do paraíso celestial ao amor carnal. ela mordendo por amor a você, quando nem você arrisca se amar. quando se está mais seco e amarrotado do que uva passa. quando tudo menos essa secura, passa. quando nada dá. que esperança louca é essa que o amor traz? que inconsequente se torna para achar que dá? como se atreve a moça a ignorar a secura que a pele transpira, mesmo quando tudo que a pele quer é a pele sua (dela) tocar? como se controlar se o que se quer é total e completamente se entregar? como não se controlar se o mundo já ensinou que para apanhar, basta a guarda baixar. porque, de onde queres assim? a quem, porque foi escutar? moça, me escuta que eu sei das coisas do coração: foge daqui moça. se salva que a mim nada vai salvar.

sexta-feira, 29 de março de 2013


eu cor
to
eu cur
to
eu su
mo
eu a
mo
e como
você

eu corto
eu curto
eu sumo
eu como
e como
eu amo
você

esse é um poema
rasgado
de corte fundo
destruído
poema acabado
sem graça
fraco
finito
como meu eu
desde que mantenho
meus sentimentos todos
escondidos
às sete chaves
trancados

me peguei fugindo
desesperadamente
de você
não fugia do frio
da dor
ou do que
de ruim
no fim
sei
vai acontecer
fujo de ti
pelo durante
por todos os carinhos
cumplicidade
fujo da felicidade
da completude
fujo como louco
do nosso amor
evito na fuga
a inebriante paixão
que sei
estamos fadados
a viver

desde que atrás
de um certo ar blasé
me escondo
que protejo
por preguiça
medo
ou falta de
genuíno desejo
meu coração
de arroubos
desde que fujo
de todas as paixões
iniciais
potenciais
desde que não me rasgo
não me mordo
nem me viro do avesso
sofro ou amo
com todo
com tudo
desde que desisti
não me iludo
não tento e me afundo
num preto lodo
e vou secando
secando
secando

terça-feira, 19 de março de 2013


sou uma fraude
tão falsa
que mais indefinida
que o artigo
que a precede
tão rasa
que qualquer um
que me vê
já percebe

sou todo fraude
quando finjo
não te querer
sou fraude maior
quando te amo
até não mais caber

você era o motivo
que eu precisava
pra todo dia
voltar cedo
pra casa

quarta-feira, 13 de março de 2013

pequenos e rasos
cortes
me infestam
me ardem
e se não sangram
me provam viver
como se para saber-se
vivo
bastasse doer
se por fora rio
se é isso que vês
não vês o frio
que está a fazer

se por fora rio
se estou feliz para você
me perdes o trio
fundos cortes,
aguda dor,
eu, a esmorecer

domingo, 24 de fevereiro de 2013

infeliz, era assim que estava. e me deixava claro em palavras comparadas. comparações sempre: com ele era mais calmo. ele era mais alto. sempre foi mais valente. com ele, era uma vida de casa própria. uma vida de casa própria. foi essa a comparação que me fez ir embora e nunca mais voltar. beleza, valentia, traços qualquer de personalidade, condições de sucesso, nada me marcou tanto quanto uma vida de casa própria. sonhei que te larguei porque o que mais você sentia falta nele era a segurança de não ter que pagar aluguel todo mês. achei pouco.
confesso
o desânimo
com todo o
processo

réu kafkiano
julgamento
além de público,
leviano

sábado, 16 de fevereiro de 2013

toma a rédea
da tua vida
antes que seja tarde
demais

toma a rédea
escolhe o caminho
que só o caminho importa
quando a morte
é o que o futuro
nos traz
não quero seu passado
o que ficou
quero seu presente
e seu porvir

não quero o pronto
mesmo reboco
quero o nem começado
que você nem imaginou

te quero
daqui pra diante
até que o passado
sem nós
seja passado distante
vira lata

os olhos tristes
apesar de bonito,
cabisbaixo
com auto estima
carregando gerações
de humilhação
prefiro prata
a ouro
modéstia, mesmo que falsa
à auto afirmação
exposição
à proteção

prefiro amor
à paixão

a presença
converte-se em
ausência
todos
longe de todos
com os todos
de longe

confundem
a passagem do tempo
com a vida
quando para viver
é fundamental estar
presente

um velho poeta
conhecedor das estrelas
foi quem me ensinou
que amor
não tem idade
nem validade
que amor de verdade
é o que persiste
que insiste, sobretudo
mas que reconhece
se defronte um muro
que amor só pula
a dois
que o maior amor do mundo
sozinho
é pequeno
que não é na luta
que se ganha no amor
mas na entrega
amor não é esporte
não é combate
amor é até a morte
gentileza
amor é consorte
oração

se estás nas plantas
que tanto gostava
comigo estarás

se estás nas palavras
que tanto procurava
comigo estarás

se estás nos valores
que tanto pregava
comigo estarás

se eras amor
como demonstrava
comigo sempre estarás

o vento constante que não dá trégua e traz um quê de inóspito às lindas paisagens. as linhas infinitas de areia, esculpidas pelo incansável vento leste e pelo mar. paisagens móveis. casas enterradas, barcos suspensos. as coisas por vezes nos lugares que não são seus. permanência fluida. aridez, mesmo com um mundo de água à frente. bichos quase esqueléticos e consternados. vê-se a consternação na cara dos jegues, das vacas e dos cachorros que perambulam e pastam soltos. o ritmo lento da vida, onde urgência é um conceito desconhecido. rostos repousados na janela como as namoradeiras de barro. por todos os lados e em todas as casas, redes, sempre cheias. simpatia autêntica. vaidade. nas roupas engomadas, no ajeitar dos cabelos para as fotos. nas poses. uma vaidade tão pura que não narcísica, como se tivesse por propósito único ao outro agradar. nordeste que pouco conheço mas sei que hei de muitas outras vezes voltar.










sábado, 26 de janeiro de 2013


noites mal dormidas
por angústias
quero-as todas
as suas
e também as boas
não só de dia
com verdadeiras
ou nem tanto
alegrias
mas também
por toda noite
dividir a cama
e os demônios
que te habitam

domingo, 13 de janeiro de 2013


esses dias divididos
entre a espera
e a lamentação
sem espaço
para qualquer
outra sensação
a dor
insuportável
pelo tempo
ou tamanho
sem ceder
paralisa
sem nada
a sedar
tentativas
de interrupção
em vão
vão de imprimir
culpa
a perder a razão
e nada funciona
nada diminui
essa solidão

sábado, 12 de janeiro de 2013

A mais evidente presença sua que me restou foi a estranha mania de só dormir em metade da cama. Mesmo depois de não a dividirmos mais, eu a dividia sozinho. Religiosamente. Tanto que passei a usar a sua metade como outra mesa de cabeceira, deixando nela livros, cadernos e o pijama. Demorei a associar a mania a você. Demorei quase seis meses até perceber. E precisei de pouco mais de um ano para começar a ver a mania se dissipando lentamente, como se te empurrasse a cada dia mais para fora dela, mas sem querer interromper seu sono. O dia que eu acordei com ela toda revirada, totalmente ocupada por mim, foi o primeiro que realmente te deixei ir, que me senti livre para prosseguir. Foi como se minha vida toda estivesse até então dividida, tudo pela metade. Foi esse dia que soube poder novamente amar.

Tenho tido um sonho recorrente de que dividimos a mesma casa, por pura coincidência. Nos conhecemos de vista de antes. Nos vemos raríssimas vezes. Não nos falamos nunca além de um eventual e burocrático bom dia. Mas são encontros tensos, como se quiséssemos nos falar e não conseguíssimos ou não pudéssemos.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

talvez a pior coisa que sobre aos próximos de um suicida seja a mistura da sensação de falta de amor suficiente e o medo, trazido e aumentado pela completa incapacidade de mudar a vontade alheia. nos que um suicida deixa para trás, a sensação de falta de amor é latente. o amor, que deveria ser capaz de salvar qualquer vida de si mesmo simplesmente falhou. o que sobra aos próximos de um suicida, mesmo antes deste os deixar para trás, é o medo intenso. medo da incapacidade. é impossível evitar que alguém aja contra si mesmo, isso é tudo que não se quer e daí vem o medo. vive-se um medo constante do esperado e indesejado. vive-se escravo.

o choque de descobrir velho e cada vez mais frágil quem se ama é tão forte quanto o tamanho do amor. entender a finitude da vida, evidenciada em um osso quebrado num tombo bobo, em uma gripe qualquer que evolui à pneumonia, em idas mais frequentes a hospitais e numa vida onde internação é quase rotina. é a morte desfilando seu poder e proximidade.


às vezes somos marcados sem perceber e só alguma recorrência da dor nos mostra onde e porque dessas marcas.

nem só de bruscas mortes é feito o suicídio. ele pode se revelar de maneira lenta, quase crônica. é a desistência da vida. um suicídio fundado na abdicacao de viver a vida. um suicídio vagaroso e crescente. é desse suicídio que me desespera mais ser testemunha. é esse que me tira o sono, que me enche de raiva, que me arrebata. é esse que me faz vazio, incapaz, inábil. como conviver com um suicida crônico entre os que mais se ama? tentando-se evitar o suicídio? tentando compreendê-lo, aceitá-lo? tentando esquecê-lo, pelo menos enquanto ele não se faz lembrar, quando não pula na cara em algum surto de doença? como falar disso com todos em volta? como?

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

enquanto meus amigos vão enfileirando gata depois de gata, eu só penso em enfileirar data depois de data com você. não é a nossa primeira vez que eu busco mas sim a possibilidade de empurrar a última a cada dia mais para adiante, para que nunca chegue. não me basta ter-te, te quero por toda vida que me resta.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Um amor findo deve ser tratado como uma espinha inflamada. Deve-se espreme-lo todo. Quando doer, esprema mais. Ate que o pus acabe e so sobre sangue. Deixe sangrar. Deixe sangrar bem, porque so assim para este amor não voltar.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Estar apaixonado é mandar alguma coisa engraçada para ela só para imaginá-la sorrindo ao ler

quarta-feira, 7 de novembro de 2012



com folhas de outono em plena primavera
é assim que me recebe a jabuticabeira da sala
todas as noites em que volto


quando me perguntaram pela primeira vê se eu sonhava em preto e branco ou em cores eu não entendi. meus sonhos sempre foram tao reais que não conseguia imaginar não te-las nunca, as cores, nos sonhos. lamentei por quem perguntou, pela perda de possibilidade e prazer do sonho bem sonhado. lembrei dessa historia estes últimos dias, quando sonhei com você. tinha sido uma noite boa, divertida, entre amigos. dormi pesado, com a leveza do sono bom. e ai veio você, invadindo tudo. chegou devagar, em meio a tantos e a todos foi expulsando, para terminar somente nos dois. me impregnou com seu cheiro, mais forte pelo cabelo ainda molhado, como te gosto mais, e com seu gosto, que me tira os dois pés do chão, sempre. foi a primeira vez que sonhei com cheiros e gostos, que de tao reais, deixaram rastro em minha cama. senti seu cheiro em meu travesseiro por dias seguidos, tao presente que ainda fico na duvida se foi do sonho ou se você que deixou-o aqui.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

mais de quinhentos quilômetros deviam nos separar. cá estava eu, ao som de ondas a bater, na forte brisa do mar. distraído de você pelo mar e pela música. talvez pela distância. principalmente pela impossibilidade. foi quando o mar passou a soprar seu cheiro de saída do banho. cabelo molhado e solto. pele úmida. gosto só seu, toda. e foi tão real, tão seu o cheiro que só eu sentia que me senti num conto de ggm. mais: que voltei a acreditar no amor.

a primeira paixao depois da ultima é libertadora. vitória do sentimento sobre a desconfiança da impossibilidade.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012


a sua na minha
a minha no seu
a minha na sua
a sua no meu

a sua, minha
a minha no seu
a minha, sua
a sua no meu