domingo, 27 de abril de 2014

limitless efforts
might not get you there
but whatever happens
in the end
they will free you
from any regrets

terça-feira, 22 de abril de 2014

sábado, 19 de abril de 2014

eu quando me vejo
vejo uma caricatura

a mãe da nina

nina tem quatro meses e meio e os olhinhos puxados da mãe. não puxados como uma oriental, mas bastante esticados para uma ocidental.
nina sorri, embaixo de uma cobertura plástica que a protege da chuva.
(chove muito hoje, uma chuva forte que veio de repente).
a mãe da nina atravessa a rua com ela, lutando contra buracos, poças e o desequilíbrio do guarda-chuva pesado, que toma uma mão que deveria estar ajudando a empurrar o carrinho. e mesmo com todas essas lutas, a mãe da nina ri. mas não é só pelo mundo: a mãe da nina ri para mim.
deixo-a passar e ela segue seu caminho em meio a obstáculos e dificuldades pelas calçadas que parecem feitas para alagar e dificultar, nunca para ajudar.
não resisto e me ofereço para segurar seu guarda-chuva. a mãe da nina, que não toma mais chuva, está feliz, um pouco encantada, mas principalmente aliviada pelo aumento de conforto da viagem da nina. se nina está bem, sua mãe está bem também.
ajudo-a até seu carro, que parte em direção ao humaitá, sem perguntar seu nome, sem pedir seu telefone.
a mãe da nina é a mais bonita das moças que apareceu na minha vida, entre um dia de shopping da gávea e uma chuva. é a mulher que eu queria para mim. mas deixo-a ir sem saber seu nome, sua rua ou qualquer coisa que o valha. tomara que o pai da nina valorize o tesouro que tem.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

são cinco
seis
todas de uma vez
nenhuma afasta
a saudade singular
minha vida
e sua
escassez

domingo, 13 de abril de 2014

a primeira vez que eu ouvi a história do palitinho foi da boca dela, aquele tipo de pessoa que tem tanta bondade que eu me pergunto logo o porque da sorte de tê-la como amiga. sorte maior só tê-la toda como tive. a história do palitinho: somos metade de palitos de picolé e nossa metade está por aí. e se encaixa perfeitamente. só uma metade pra cada palito, pra cada um de nós. e como o palito é de madeira, quanto a mais metades erradas tentarmos nos juntar, menor nossa chance de encontrarmos nossa verdadeira metade. a tentativa errada desgasta, amassa as arestas e passamos a não nos encaixar mais nem mesmo na metade perfeita pra nós. escutei essa história em 2001/2002. tinha então vinte e poucos anos e toda arrogância da juventude, pelo menos da minha. não concordava com a tese. me via mais como uma metade dura, inquebrável. e fui testando metade depois de metade. em minha defesa, posso dizer que acreditei piamente que cada uma delas era a metade. hoje vivo o conflito de me sentir finalmente pronto à outra metade,  porém só sendo o que sou pelas metades que não foram. se acreditar que sou palitinho de madeira, já perdi meu encaixe. acreditando no que acredito, não perdi o encaixe, mais ganhei um desgaste: como acreditar que um novo amor é o amor depois de tantos amores? e aí talvez eu compreenda a história: os desgastes, os sofrimentos podem nos fechar por completo se não nos esforçarmos muito a permanecermos abertos. se não formos resilientes ou crentes o suficiente. e talvez aí resida a verdade da história, mesmo que não aplicável a todos (ou pelo menos, a mim).

sexta-feira, 11 de abril de 2014

fico na dúvida
que me mata
de ansiedade

será que quer ser
por mim amada
com sinceridade

duvido e penso
em como faço
em amor por você
me desfaço

tive que aprender
questão de sobrevivência
a acalmar
dar tempo pro tempo
passar

tive que aprender
você me ensinou
a esperar
dar tempo pra tudo
recomeçar

tive que aprender
meio forçado
que amar
é se dar todo sem nada
resguardar

terça-feira, 8 de abril de 2014

a música doída
do nylon esgarçado
o samba em valsa
no sete cordas
dedilhado

domingo, 6 de abril de 2014

me torço, me espremo e não sai nada. estou seco, por completo. tenho saudades de ti e não consigo te chorar. conheço quem poderia me acompanhar e não sou capaz de me entregar. e não é porque tenho medo. é por essa secura, meu coração duro deste deserto que é a longa falta do amor. deliro em desespero. vejo oásis onde água não há. miragem do que sei é só o que pode novamente me encharcar. me debato neste calor, tento respirar. mas sou bicho d'água, estou seco e chuva pouca não pode ajudar. preciso de enchente, preciso nadar. estou seco e só o (a)mar pode me salvar.

emburaquei em mim e como de costume me tranco e quedo quieto. as idéias boas e ruins vão brotando, aos trancos e barrancos e a vontade exclusiva de solidão vai passando. só não sei até quando.

sábado, 5 de abril de 2014

é pólvora
que explode em cores
e brincadeiras
(espoleta)

é voz
que conta histórias mil
entre sorrisos
(vida)

é amor
que se esparrama
e te volta
(minha)
você me fez um ser
binário

domingo, 23 de março de 2014

espécie
não genérica
para gostos
específicos
manual para se recuperar de um fora
(execute na ordem abaixo)

1- saia e encha a cara
2- pratique sexo sem compromisso
3- tente substituir a figura amada por outra
4- encha mais a cara

se nada disso funcionar (dificilmente funcionará), relaxe, sofra e deixe o tempo passar.
cavo buraco fundo
onde vou te jogar
para ver se enterro de vez
meu imenso gostar

terça-feira, 18 de março de 2014

vou seguindo
em meio ao lodo
insalubre
dos meus demônios
de plantão
passos difíceis
pesados
dificultados
por minha loucura
minha total falta
de razão

te fiz uma declaração
de querer te amar

domingo, 16 de março de 2014

eu quero logo
que este dia acabe
abra alas ao amanhã
para que possa te ver
e levar o fardo
dessa saudade

eu te quis
pelo que queria ser
te convidei
por ser o que sempre amei
te beijei
pra me gostar
te larguei
pelo que tem
que tem em mim também

terça-feira, 11 de março de 2014

A impossibilidade inicial – primordial – do amor
(do desejo e do real)

“amor não é esporte
não é combate
amor é até a morte
gentileza
amor é consorte”

Esporte é jogo de soma zero. Só há vencedor havendo perdedor. Um ganha, outro perde. Simples assim. Esporte é combate, é conflito. Mesmo entre regras claras, esporte é disputa. Palmo a palmo. Milésimos de segundo. Ponto a ponto. Raça é coisa bonita no esporte – “queremos raça”. Garra também. Disputa-se espaço para vencer, vencer, vencer. No esporte o outro é adversário ou oponente. É oposto. E os opostos não se atraem, mas se digladiam.
Do amor espera-se o oposto. Amor é parceria, cumplicidade. Amor é família. Amor é gentileza. Amor para toda eternidade. É o que se deseja do amor. É o que desejamos. Nem mais, nem menos.

“Todo amor é uma espécie de suicídio” segundo a psicanálise. A entrega total, fundamental ao verdadeiro amor, causa o esvaziamento do ego no sentido narcísico. Quando correspondido, suicidam-se ambos para que ambos vivam, um se esvaziando para que o outro o ocupe por completo, na totalidade de cada um.

E daí surge a impossibilidade inicial do amor. Deste conflito entre o desejo romântico de cumplicidade e o instinto de sobrevivência. É no amor e só no amor que se pode matar sem que se esteja errado. Que se pode magoar sem que se seja culpado. Porque o amor pode acabar. E quando isso acontecer, alguém, invariavelmente vai sofrer. E essa entrega da felicidade a outrem traz muitos amores para o real: o amor romântico é uma luta, é esporte. É jogo de soma zero. Se não para todos, para a maioria. Há de manter-se no topo, há de ganhar a qualquer custo. A violência é moral. O alvo, o ego. Liga-se menos para quem se quer ligar mais. Trata-se pior a quem se quer melhor. Afasta-se a quem se quer mais próximo. É o jogo. É o conflito inicial. Só assim defende-se da mágoa, ou pensa defender-se. Só assim protege-se , ao custo de não se viver o amor em sua plenitude.

Só a abdicação de qualquer segurança e controle pode enterrar a impossibilidade inicial. Só a entrega irrestrita e total pode evitar o problema primordial. A completude, fundamental, depende da totalidade, que depende da entrega mútua, quase inocente. A generosidade é o alimento original do amor. O amor ideal é quase um ato de altruísmo e só na sua presença floresce.

sábado, 8 de março de 2014

tudo
todo dia
dia todo

não me peça o médio
não sou contido
te prometo extremos
amor maior
coração partido
poderia ser seu jeito
blasé
poderia ser seu rosto
quase angelical
mas o que é mesmo
é seu gosto
e seu cheiro
combinação que
caso seja mesmo o amor
uma espécie de suicídio
vai me ser fatal
eu penso 
e é como se eu tivesse te traindo
falo 
e como se você fosse se esvaindo
toco 
e é você se indo
amo é você,
mesmo você não sentindo

terça-feira, 4 de março de 2014

enquanto todos os pardos
enquanto todos os bêbados
enquanto todos os carnavais

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

domingo, 23 de fevereiro de 2014

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Os protestos e os direitos
(Lei e Justiça)

Ucrânia em chamas. Setenta mortos em um único dia. Venezuela em chamas. Mortes e violência aumentando. A nova onda de protestos não é só brasileira. Apesar de todos os problemas recentes, ainda podemos dizer que temos um governo democrata no poder, especialmente se comparado a estes dois outros países.
Antes de continuar, queria deixar clara a minha opinião frente a todos estes protestos: sou favorável a tentativas populares de melhoria de qualquer situação social. Acredito que mudanças profundas não ocorrem sem estímulos externos aos do que no poder, sempre os conservadores.
Há pouco mais de 58 anos, na fria manhã de uma quinta-feira, primeiro dia de dezembro de 1955, Rosa Parks entrou num ônibus em Montgomery, Alabama. Mais passageiros iam entrando e, ao ser intimada a ceder seu assento a um passageiro branco, Rosa negou veementemente, em atitude que nos dias seguintes culminou no Boicote aos Ônibus de Montgomery. Por esta recusa, Rosa foi presa. E o boicote foi um dos passos mais importantes para a justiça social e racial dos EUA. Os Estados Unidos viviam a segregação racial. As leis eram claras em criar classes de pessoas baseadas em sua cor de pele. Por mais absurdo que isto nos pareça hoje, repito: estava na lei. Era o certo pela ótica legal. O único certo. Rosa foi presa por desobedecer. Rosa cometeu um crime porque, sendo negra, não cedeu seu lugar no ônibus a um branco.
A atitude de Rosa foi de desobediência civil. Rosa estava contra a lei, apesar de inquestionavelmente justa ser sua atitude. A lei nada mais é do que um arcabouço jurídico independente de justiça. Sempre foi assim e sempre será. Lei é lei. Justiça é justiça. Muitas leis são justas ou estimulam a justiça. Quanto mais evoluído socialmente um país, mas os dois se alinham. Mas se alinharem não os fazem os mesmos. No máximo, estão os mesmos.
O Brasil é um dos países com maior desigualdade de renda do planeta. Somos ainda uma Belíndia (mistura de Bélgica e Índia). Nossas leis foram feitas pelos que detinham e detém o poder. Muitas delas são justas, mas a injustiça ainda é um mal muito nosso. Seja por desrespeitos gritantes e constantes a muitas destas leis, seja por incapacidade social de cobrança dos direitos dos cidadãos.
Temos um péssimo sistema educacional, que colabora ativamente para a perpetuação da desigualdade social, contribuindo até para sua piora. As condições de nascença de nossos cidadãos é um dos maiores fatores de definição de seu destino econômico-social. Quem tiver a sorte de pais abastados estudará em escolas particulares, universidades públicas ou particulares e terá qualificações escassas e valorizadas no mercado de trabalho. Os que nascerem da maioria pobre, não terão as mesmas chances, a não ser que tenham talento excepcional para o futebol.
Temos um dos piores sistemas de transporte urbano do mundo. Baseado em ônibus e carros, mas sem pistas e autopistas adequadas. Lentos. Sem conforto. Em condições precárias. E caros, muito caros para a qualidade do serviço ofertado. Sistema de concessões no mínimo polêmicas, com questionamentos constantes e não esclarecidos feitos pelos Tribunais de Conta, que vão desde esquemas de corrupção para facilitação das concessões até questionamentos sobre os custos e as tarifas cobradas. Um sistema que mistura amadorismo de gestão, corrupção e descaso completo com o chamado passageiro, que na verdade deveria ser tratado como cliente.
Melhoramos muito nos últimos vinte anos. Somos mais institucionalizados, a renda aumentou, a classe média passou por um boom de tamanho. Mas ainda somos um país continental e de problemas extremamente graves.
Nesse contexto é que se dão os protestos populares, especialmente desta nova classe média. Novas demandas e desejos surgem de quem vai melhorando de vida. E são mais do que justas. O povo vai mudando e a classe política permanece a mesma, com as mesmas atitudes. Corrupta, personalista, populista. Precisamos de mudanças sociais e políticas relevantes. Precisamos de um novo contrato social. Precisamos adequar nosso país ao nosso novo povo. Precisamos sacudir o atual para criar o novo. Precisamos incomodar e desconcertar a classe política.
Sou terminantemente contra a violência. Sou contra um estado extremamente paternalista. Sou favorável ao equilíbrio financeiro dos governos.
Acredito que as demandas e cobranças podem e devem ser feitas de maneira pacífica. Mas devem ser feitas. E devem ser respeitadas. O que vemos no país desde o início de todos os protestos é uma atitude violenta e descabida da polícia. As máscaras surgiram nos protestos em primeiro lugar para proteger os manifestantes dos abusos policiais, especialmente os feitos com a utilização de armas de gases tóxicos. A polícia foi a primeira a atirar. A polícia matou, foi a primeira a matar. E isso tem que parar.
Os manifestantes tornaram-se mais aguerridos. Passaram a depredar, a se armar. Passaram a lutar de igual para a igual com a violência policial. As passeatas transmutaram-se em atos de quase guerra. Viraram confrontos abertos. E isso tem que parar. Mas o final não deveria ser o do fim dos protestos e sim dos combates. Os pleitos, mesmo que não se concorde com eles, são justos. Pleitear é justo, por mais que perturbe o status quo, por mais que moleste os conservadores.
Enquanto à discussão se ativer à legalidade ou não dos movimentos, não solucionaremos seus problemas. A polícia continuará atuando de maneira grotesca. A imprensa seguirá não entendendo e discriminando. Enquanto à questão legal e não a justiça for o centro do debate, não apaziguaremos os ânimos. Não cessarão os embates nem a violência. Mudança social profunda só se faz com desobediência civil, assim foi em toda a história da humanidade. Assim foi com Rosa Parks.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

e desde que não nos conjugamos mais na primeira pessoa do plural que te busco em cada uma que conheço. e na falta da completude sua, da totalidade sua que tanto amei, enfilero detalhes seus divididos entre uma sequência errante de relacionamentos. seus olhos na primeira. sua cor na segunda. sua sensibilidade na terceira. e assim vou tentando te substituir, me completar. mas seu sorriso. ah, seu sorriso puro e lindo. igual a ele acho que nunca nenhum vou achar.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

a sensação é que tem medo do risco errado. se fecha, se protege, deixa de amar para não sofrer, quando a dor maior é completamente vazia permanecer.
se rasga
que eu gosto
se mostra
que eu gamo
se entrega sem medo
que eu te amo
às vezes penso que vivo
meu próprio truman show
é engraçado
mesmo certo
do tamanho
da insanidade
sigo
indo na mesma
direção

de quando mais te amei

de todo o tanto que te amei, em sua totalidade entre a risada boba, o ciúme bravo e injustificado, o mau humor matinal, a briga proposital, de todo o tanto que te amei, te amei mais no momento único - mesmo que se repetido - em que deitava em meu peito, depois de nosso amor de tarde de sábado, e se entregava toda ao sono que te chegava e ia te derrubando até seu último beijo ou sua última respiração mais forte em meu pescoço. eu lendo e me mantendo acordado para que o momento não acabasse e você entregue. despreocupada na certeza do amor incondicional. de todo tanto que te amei, assim te amei ainda mais.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

são tantas as mãos
tantos
os berros
tanta tentação
cada um em seu inferno

são mãos ao alto
tentativas de atenção
enquanto olhos fechados
mãos pelas mãos

estrondosos
os berros
dos monologuistas de plantão
incapazes de ouvir
qualquer senão

não são mais épocas dos quinze
de fama não
é tempo novo
do egoísmo
     da intolerância
            da infâmia
      
tempo sem razão

volto ao meu primeiro lugar neste mundo. volto mais de vinte e cinco anos. volto a ser o gustavinho, não pela idade mas pelo carinho. volto mais do que à minha infância, volto à época da inocência, que se em mim já passou, por aqui é mais do que presente: é a regra. volto e me pego pensando se não é por aqui que quero ficar.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Da violência e da adaptabilidade
(do despreparo e da criminalidade)

Embora eu nunca tenha dado um tiro com uma arma de verdade, posso dizer que já tive muitas experiências visuais com as mesmas, como provavelmente todos que moram nas grandes cidades brasileiras, seja pela visão constante dos canos das metralhadoras para fora das viaturas policiais, seja pelos traficantes exibindo suas armas pelas favelas ou então nos revólveres e pistolas ostentados por seguranças à volta de nós, cidadãos desarmados.
Também já fui testemunha visual de um assassinato quando tinha quase dez anos de idade. Não estava tão perto da cena e, por me encontrar dentro de um carro com os vidros fechados, só me ficou a imagem do assassino jogando o futuro morto no chão para depois dar-lhe um tiro. O fogo cuspido pelo cano da arma no momento do disparo, imagem que me vem nítida mesmo após os quase vinte e cinco anos que já se passaram. Fiquei algumas noites sem dormir até que o medo passasse.
O que não tinha ainda experimentado é me ver presente em uma cena de real perigo de morte como ontem. Sentávamos eu e um amigo em uma mesa na calçada em frente ao Bar Rebouças, tradicional reduto comandado pelo português Seu Alberto e seu fiel escudeiro Jorginho, eleito melhor garçom do Rio pela Veja em 2011. Conversávamos entre cervejas e frituras quando um Tucson preto entra em alta velocidade pela contramão da Rua Maria Angélica, vindo em nossa direção. Apesar de nossa mesa estar perto da rua, escapamos do atropelo, salvos por um poste que impediu que os bandidos subissem à calçada em cima de nós. Meu amigo, que estava mais próximo à rua, levantou-se rapidamente da mesa num reflexo surpreendente. Eu dei um passo para trás e fiquei atônito olhando o carro seguir no sentido errado, quando atrás dele veio o primeiro carro de polícia, também na contramão. Os bandidos conseguiram seguir por mais uns dez metros de rua, até que o carro foi parado por uma árvore à frente e o tráfego normal de carros no sentido correto, à esquerda. Assim que os bandidos pararam os policiais também o fizeram, saltando rapidamente com suas metralhadoras automáticas em punho. Éramos, os clientes do bar, talvez umas quarenta ou cinquenta pessoas espalhados pela calçada onde a cena se passava, incluindo algumas poucas crianças. A correria começa. Ouço dois ou três barulhos secos de tiros disparados, aparentemente pela polícia, colocando não só as pessoas em um estado emocional ainda mais estressante como nossas vidas em risco, num evidente despreparo de quem deveria prezar, acima de tudo, por nossa segurança. A correria é grande e corro também, procurando abrigo quase forçando minha entrada na cozinha da lanchonete ao lado, pedindo e quase empurrando um segurança boa pessoa, mas que estava atordoado com a confusão. Consegui convencê-lo a deixar duas mães e seus dois filhos entrarem antes dele trancar a porta com medo de uma possível invasão pelos bandidos agora em fuga. Duas moças de rostos quase angelicais batem à porta, num desespero evidente. Por falta de espaço (ou por medo), o segurança não as deixa entrar. Elas se sentam em frente à porta, em um pranto contido por uma e liberado por outra. Estamos no corredor que antecede a cozinha da lanchonete e as crianças não param de chorar, em pânico. Seus olhos vermelhos e soluços se misturam aos confusos olhares de suas mães, que combinam o desespero pela situação e o alívio de ver seus filhos bem.
A situação lá fora se acalma e resolvo sair, à tempo de ver as pessoas como ficaram durante toda a confusão. Atrás do balcão da lanchonete, um grupo de quase dez desconhecidos entre si se amontoam quase uns sobre os outros. Gente de vinte, trinta e até setenta anos, todos deitados e igualmente apavorados. A sensação de insegurança e temor pela própria vida é evidente em todos e um sentimento inexplicável. Árido, ácido, angustiante. Grande.

Os poucos minutos em que tudo se passou pareceram muitos, quiçá uma hora cheia. E se foi feliz por não deixar mortos e feridos entre nós, cavou um buraco de inquietação em mim. E se o Rio oferece pores do sol espetaculares, paisagens sensacionais, também é capaz de propiciar um dos piores sentimentos que já tive, a impotência. Desde ontem, tenho menos vontade de viver por aqui.

ontem no samba
uma moça quis me comprar

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

eu não sei
se daí você está
a sorrir
enquanto eu aqui
sorrio
com vontade de chorar
pela esperança
do bem estar
pela temperança
alcançada
e pela eterna
extrema
saudade de ti

passeio
por você inteira
te vejo toda
nas pontas dos meus dedos
dos seus cabelos
às costas da sua coxa
indo e voltando
e te conhecendo mais
a cada sentido
nem se ficasse
assim, te passeando
por anos a fio
cansaria
ou pensaria
te conhecer 
toda

sábado, 1 de fevereiro de 2014

nada mais agudo
e estridente
que os gritos
dos meus demônios
espero sua chegada
que traz além do êxtase
o silêncio eminente
no silêncio
da solitude
a sinfonia
da natureza
ode à vida
e sua beleza

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

da nossa (im)possibilidade

sonhei que estávamos juntos, mas não só nós. éramos parte de um grupo maior. ainda não éramos o que somos. e no gramado, fazendo surpresa, você se vira em minha direção, abre seu sorriso mais lindo e grita: parabéns! demorei o tempo de sua vinda até mim para entender o que estava acontecendo: você me parabenizava pelo beijo que eu ia te dar. por te ter. te pego pela cintura, caímos deliciosamente pela grama e quando vou te beijar, percebo minha boca cheia como nunca antes, de algo que não sei o que é. e ficamos assim, rostos colados, mãos enroscadas aos corpos deitados, num quase que não tem fim.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

meu corpo em estado deplorável, numa quase exaustão, evidenciada pelo peso de minhas pálpebras, que insistem em fechar mesmo que contra toda a adrenalina que me corre. é na madrugada que mais me falta, que mais te quero aqui. tateando o passado que é só meu, lembrando das suas histórias do que é só seu, me pego tentando entender como dois caminhos quase opostos se encontraram. o tamanho da coincidência daquele encontro, quase acidental, que virou ao avesso tudo que pensávamos estarmos predestinados a ser e viver, individualmente. encontro fortuito, constrangedor, desconfortável pelo tamanho que desde o início soubemos ter. como se antes dele, antes de nós ser pronome adequado a cada um dos dois ou ao que hoje somos, já esperássemos. como se vislumbrando essa unicidade que nos tornamos, essa completude que nos damos. como se ali houvesse uma linha de chegada que marcasse o início e não o fim, por mais contraditório que soe. chegamos um ao outro depois de muitas voltas que, mais do que tiveram de bom e ruim, de melhor, foi nos trazerem até aqui. até estarmos prontos um para o outro. não me é indiferente que tenha sido eu a percorrer o caminho mais longo e errante: foi sempre melhor do que eu em tudo que há de importante para ser. melhor até em me querer. e hoje, se estou que não me caibo em felicidade, se te tenho e isso na vida me basta, pego-me mais ansioso do que nunca. tenho todos os motivos do mundo para ter o sono leve como dos bobos, dos apaixonados, dos completos. mas tudo isso, confesso, me dá um baita de um medo.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

médio
morno
intermediário
meio-termo
insípido
mo
   nó
      to
        no

tudo isso eu
     passo
com gosto
    e por
         necessidade

só me
conforta
frequento
habito
só me acalma
me afaga
me basta
  o demais
     o exagero
        o sem 
           limite
tem·pe·ran·ça

sábado, 18 de janeiro de 2014

à força puxo-me e me levanto
caio, puxo-me e me levanto
caio
puxo
levanto
se não posso evitar o tombo,
só a persistência de me puxar de volta vale

sou todo tombos
e persistência
Madri-Berlin-Paris-NY














segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Relato de uma Paris B

Tomo a linha 7 do metrô em Montparnasse, precisamente na Censier-Daubenton. Tenho exatamente 23 paradas até o meu destino: La Courneuve, ponto final.
Acostumado a ver o lado pobre do Rio de Janeiro, decidi montar um roteiro do lado B de Paris. O lado que turista nenhum costuma ver a não ser nos noticiários, quando alguma onda de protestos ou violência assola estas regiões.
La Courneuve é um destes lugares, subúrbio da Paris central.
Vindo de uns dias em Berlin, onde a imigração não salta aos olhos nem pelas características físicas nem pelos dialetos ou modos, Paris já se mostra mais heterogênea.
As ex-colônias africanas, antes exploradas pela exportação de Commodities, Metais Nobres e Pedras Preciosas, são hoje grandes exportadoras de imigrantes ilegais, todos em busca de melhoria de vida econômica ou em fuga de situações de risco de morte, como as tantas guerras civis que explodem por seus países. Tem no francês aprendido por imposição o motivo para a escolha do país.
O que encontram em Paris parece ser diferente do que deixam somente pelo modo: a violência física transforma-se em psicológica, civil, fruto do preconceito xenofóbico.
Relegados aos subúrbios pobres e violentos, os imigrantes de primeira ou segunda gerações se penduram no estado social, em sub-empregos ou em atividades ilegais.
A dita primeira impressão, de uma Paris diversa em Montparnasse, vai mudando quanto mais o metrô se afasta dos “arrondissements” centrais e segue em direção às regiões mais pobres.
Rostos tipicamente franceses, principalmente novos, praticamente desaparecem, substituído por poucos orientais e muitos africanos, brancos e negros.
O clima é cada vez mais pesado. Não pela presença dos imigrantes mas por suas posturas. É como se qualquer ato violento estivesse próximo de eclodir. A cada parada, maior é a quantidade de gente com essa postura, mesmo que rodeados de outros que, estando mais confortáveis no ambiente do que eu (talvez pelo costume), não emitem a mesma carga de violência.
Vivendo no Rio de Janeiro há mais de 20 anos, presenciei toda a gradual piora da situação da segurança na cidade até a chegada do ponto crítico social entre as favelas e o dito asfalto, que levou a população à importantes mudanças de hábito como sair menos a noite, evitar certos caminhos e até a blindagem de carros. Dominadas completamente por traficantes, as favelas, mesmo estando encrostadas pela cidade, foram sendo socialmente excluídas da vida dos que nelas não habitavam.
Subir uma favela era então um ato de risco. Era comum ver traficantes nos bares, com garrafas de cerveja ao lado de fuzis como o AK-47, o preferido deles. Era habitual pessoas não locais serem revistadas ou interrogadas por estes mesmos traficantes, que formavam um verdadeiro estado paralelo, auferindo total controle sobre estas áreas.
Após o invento das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), programa em andamento, extremamente bem sucedido na reocupação das favelas pelo Estado, se não exterminadas, a presença dos traficantes voltou à marginalidade, com o tráfico de drogas se dando somente às escondidas.
Ao subir uma favela hoje, como subo regularmente o Morro dos Tabajaras, onde dou aula de inglês como professor voluntário, mais do que maior sensação de segurança, me impressiona a mudança no clima. O que antes era um ar de terror, de guerra, hoje é muito mais leve. Muitos dos problemas ainda estão lá. A pobreza e a falta de infra estrutura básica como água, esgoto, transportes, ainda são gritantes. Mas é como se houvesse uma esperança de dias cada vez melhores no ar.
A desigualdade social no Brasil, uma das maiores do mundo, ainda faz o país quase um país de castas, mas isso não impede esta esperança, talvez fruto da combinação atual de quase pleno emprego, crescimento de renda e paz. E talvez essa esperança seja a principal causa da grande mudança do ambiente nestes lugares.
Nas ruas de La Courneuve, não se vê traficantes com armas. Também percebe-se uma estrutura urbana mais adequada, apesar de bem pior do que o lado rico da cidade. O que não se vê é a presença do Estado nas ruas. Muita sujeira, nenhum policiamento e uma quantidade grande de pessoas que, mesmo em dia útil, dedicam-se à circular pelas esquinas, sempre com ares suspeitos, incluindo-se aí traficantes que agem em plena rua, à luz do dia. A sensação de insegurança que senti me remeteu à última vez que subi em uma favela ocupada pelo tráfico.
Pela primeira vez na minha vida, tive medo de tirar a câmera fotográfica da mochila. Talvez temendo mais, ao fotografar as ruas, ser confundido com algum agente da lei, do que ter minha máquina roubada.
Paro para um café, em parte para poder observar a região me sentindo mais seguro do que na rua. Fico por algumas horas sentado de frente para um cruzamento muito movimentado, tentando entender o que se passa, reparando em minha volta.
Não consigo deixar a região sem antes escrever tudo que vi. No café, aproveitando-se de meu péssimo (ou inexistente) francês, recebo uma conta onde uma água mineral, amplamente sinalizada à 0,30 Euros, me foi cobrada como limonada à impressionantes 3,80 Euros. Não questiono o atendente pois quero guardar esta nota como parte da experiência.
Sem as fotos que pretendia tirar, minha tarde em Le Courneuve me atirou no peito o tamanho do problema francês. Pela experiência do meu Rio de Janeiro, sinto que deixar os subúrbios largados à própria sorte vai se tornar um problema cada vez maior à Paris central. O que se passa em Le Courneuve é grave e não parece estar sendo combatido. Talvez nem tenha sido assim identificado. O que falta à La Courneuve e sua gente é esperança.

domingo, 22 de dezembro de 2013

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

vou seguindo a voz dela de volta à minha adolescência e quando vejo sou um camundongo, tremendo de medo num canto de um enorme labirinto. acima, uma constelação de olhos brilhando com a luz me acompanham. entre risadas e gritos, todos tendo no deboche a interseção, tremo, num misto de raiva e medo. tremo numa angústia sem fim.
as luzes se acendem e vejo um a um os rostos a me olharem. e vou guardando os nomes (e sobrenomes) todos em minha mente. e vou associando as vozes às pessoas. e me quedo raivoso a ponto de jurar vingança.
sinto então um dedo às costas que parece só servir para me lembrar de meu tamanho: um dedo dela é todo meu dorso.
não sei dizer o que fiz para estar ali, tão culpado quanto kafka em o processo. tão angustiado quanto.
marionete coletiva. ou pior, nem isso. somente um camundongo amedrontado. posto e largado à sua insignificância.

domingo, 15 de dezembro de 2013

1. be nice to people
2. go back to #1
só, entre tantos
pelos assuntos
pelas pessoas
pelo que seja
estou só
mesmo
entretantos
mordo minha pele para ver se ainda sinto. se ainda doo.
o inglês britânico é o idioma do rude operário, o americano do pragmatismo. o francês o idioma do delicado. o chinês do estressado. o espanhol do amor da paixão. e a nossa portuguesa é a língua da melancolia. até a alma.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê você cadê você cadê você

que desistiu, cadê você?

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

o inglês britânico é o idioma do rude operário, o americano do pragmatismo. o francês o idioma do delicado. o chinês do estressado. o espanhol do amor. e a nossa portuguesa é a língua da melancolia. até a alma.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

somos todos poços fundos
de inseguranças
e problemas sem solução
somos covas
não das rasas
escavadas em nossas almas
um pouco mais a cada dia
que passamos em solidão

estou no taxi e o motorista assovia uma musica qualquer, que toma de mim meus pensamentos, mais pela sua falta de harmonia do que pela qualidade, a ponto de que se a tentativa não fosse de acompanhar o que toca no rádio, eu não saberia do que se tratava o barulho. e penso em como, nos últimos tempos, assovios desprovidos de talento têm sido produzidos à minha volta e o quanto somos (sou) invadidos em nosso espaço pela falta de limite alheio, em melodias, risos e movimentos que, se não nos atentarmos, nos empurram para o canto de tudo, até que só nos sobrem subsolos em nosso próprio mundo, já sem os barulhos e movimentos. pergunto-me o quanto nosso espaço é nosso de direito ou se ele só existe se quem a nossa volta o perceber também, nos obrigando a nos mantermos sempre em posição de combate, buscando nada mais que o pouco que cremos merecer. e, como o isolamento não é alternativa viável, passamos nossos dias em doídas lutas pelo que deveria ser nosso de direito, mas que sem a briga, já estaria perdido.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

estou no taxi e o motorista assovia uma musica qualquer, que toma de mim meus pensamentos mais pela sua falta de harmonia do que pela qualidade, a ponto de que se a tentativa não fosse de acompanhar o que toca no rádio, eu não saberia do que se tratava o barulho. e penso como, nos últimos tempos, assovios desprovidos de talento têm sido produzidos à minha volta e o quanto somos (sou) invadidos em nosso espaço pela falta de limite alheio, em melodias, risos e movimentos que, se não nos atentarmos, nos empurram para o canto de tudo, até que só nos sobrem subsolos em nosso próprio mundo, já sem os barulhos e movimentos. pergunto-me o quanto nosso espaço é nosso de direito ou se ele só existe se quem a nossa volta o perceber também, nos obrigando a nos mantermos sempre em posição de combate, buscando nada mais que o pouco que cremos merecer e, como o isolamento não é alternativa viável, passamos nossos dias em combates doídos, lutando por nosso espaço que deveria ser nosso de direito, mas que sem a briga, já estaria perdido.

sábado, 14 de setembro de 2013

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

the world is moving forward... how about you?

carrying some weight

altogether

even when things are not clear

classy steps

or sporty ones

on hills to be higher

or lower ones to be safer

on wheels to be faster

on flops as if not caring

in front or behind

together again

the best possible way

outdated

trendy 

awry

hipster

preppies

quinta-feira, 20 de junho de 2013

me afundo no sofá
que já foi branco
encosto a cabeça
e fecho os olhos
nada mais importa
nada mais
digno de nota
ou tempo

segunda-feira, 17 de junho de 2013

meu olho cheio de lágrimas
pelo que não vai acontecer
pelo que a sua partida evitou
impossibilitou
por seu rosto cada dia mais vivido
seus conselhos mais sabidos
seus netos, de inexistentes
a crescidos
sua cabeça branca
(sinal de que não era hora -
às vezes me pego pensando -
seus cabelos ainda negros)

sábado, 15 de junho de 2013

não é que eu não tenha opção. é que te escolho novamente e sempre, mesmo entre infinitas opções.
seus beijos
obra de arte
sua pele branca
seus lábios pintados
escarlate

tenho sentido sua falta, muito mais que o usual. sem motivo aparente. só hoje percebi que ontem marcou o quinto mês de sua partida e quase o sexto sem ouvir sua voz, sua risada, sua tosse. e penso como o mundo é menor na sua ausência.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

sua risada ecoa na sala e de repente te vejo sentado em frente a tv, pernas cruzadas, como costumava ficar. me aproximo, sento ao seu lado e tento conversar. mexo minha boca mas estou afônico. como se a diferença de nosso tempo me impedisse de falar.
abdico das paixões uma a uma, como quem arranca espinhos de uma flor, como cravos espremidos. abdico como se pudesse só para vê-las voltarem, ainda mais intensas.
uma descarga de adrenalina invade meu sangue e traz consigo a ansiedade. é madrugada. de cima abaixo meus músculos enrijecem. acordo. são três e quarenta e dois da manhã. minha noite de sono acaba de terminar. sei que o sono não vem mais de forma natural, mas só intermitentemente e por extenuação total. desta vez acordei sem nenhum problema específico em mente. penso então em cada um dos que creio podem ter me trazido até aqui e vou resolvendo-os um a um em minha cabeça, criando uma lista de afazeres para assim que o dia raiar. a adrenalina diminui, a angústia é mais suportável, mas o sono profundo, este só voltará amanhã pela noite (e será pesado pelo cansaço acumulado, pelo menos até o meio da próxima madrugada). é a quarta vez na semana que acordo antes de precisar e o cansaço já se acumula e transparece em olheiras e bocejos ao longo do dia. o nível de concentração possível já é muito baixo e somado a ansiedade torna impossível qualquer leitura mais elaborada. os livros abandonados na cabeceira, parados, pela angústia tamanha. como tudo. como eu.

terça-feira, 11 de junho de 2013

um passo de cada vez
te levei para passear
um dia de cada vez
só nós dois e o velho mar

um passo de cada vez
te puxei pra perto
um dia de cada vez
pra poder te amar

e te amei
com tudo
um dia de cada vez
pro fim desse amor
nunca chegar
eu não sei sambar, mas me mexo... não sei dançar a dois, mas engano... não sei cantar, mas me empolgo... só sei amar e não reclamo.
(20 de nov de 2006)

sábado, 8 de junho de 2013

a aeronave manobra em solo e parte de uma cabeceira em direção à outra, acelerando. olhando pela janela, vê-se a velocidade pela paisagem lateral, agora um imenso borrão verde escuro. o avião desgruda do solo e se põe a voar (meu medo de aviões vem do simples fato de o aço ser mais pesado que o ar e enquanto as leis da física explicam, o instinto não aceita). a cidade se apequena aos meus pés. todo nosso cotidiano cabe na palma da minha mão. nossas casas, nossos trabalhos, nossas semelhanças e diferenças. tudo está lá embaixo e diminui a cada minuto. estamos a dez mil pés, você ao meu lado é maior do que toda nossa vida. o voo ajusta minhas perspectivas (e espero, as suas). a porta do avião aberta, paraquedas às costas. só nos resta pular (afinal, para isso viemos até aqui). o plano: eu pulo antes e você vem em seguida. eu te espero no ar para nos encontrarmos ainda com o paraquedas fechado e aproveitarmos juntos e ao máximo a queda livre. puxamos juntos a corda de abertura e vamos lado a lado até o local do nosso pouso, até terra firme. pulo e olho para cima. você está na porta. te espero diminuindo ao máximo minha velocidade. te olho e fica a dúvida (só minha): será que vai se jogar? penso isso e te vejo já no ar, em queda livre, embicada em minha direção. estamos a quase duzentos quilômetros por hora, rostos esticados (deformados) pelo vento a bater. já estamos perto um do outro, braços se buscando e o vento insistindo em dificultar. mantemos a calma (já pulamos antes e sabemos que sem ela não conseguiremos), mas sem parar. estamos cada vez mais perto. já vejo sua mão pequena em detalhes, até que nos encontramos (pela velocidade, quase nos empurramos). minha mão esquerda na sua direita. mais um pouco e nossas quatro mãos se juntam e assim descemos até a hora de abrir o paraquedas: juntos, a mais de duzentos por hora.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

seu sorriso ecoa em mim como uma lembrança gostosa dos dias que eram só nossos. esse ecoar que traz junto seu cheiro, e me vem então sua nuca nua enquanto seus cabelos presos à minha mão e o gosto da sua orelha mordida depois do passeio da minha boca pela sua, pela nuca nua. e eu que sempre me senti tão perdido no mundo, num não pertencimento quase agudo, me achei em nós, no que somos, no que fomos e mais ainda no que seremos. não preciso de mapas, crenças ou magia. me bastam (me completam) você (nós), bons textos e poesia.

quinta-feira, 30 de maio de 2013


Paraty, Bourbon, Céu
agora é a hora
vamos lá e pã
que Paraty vai proporcionar
sacanagem ou amor
é com você
só ousar
que vai acontecer

(brincadeira torta com a maneira Chacal de escrever)
você passou por mim.
rápido que nem vi,
simples assim.

passou ou deixei-te passar,
é o que me pergunto.
ainda não sei.
(será que conseguiria te amar?)

deixou de rastro,
confusa esperança,
de louca paixão.
(e temperança?)

de fato, agora,
só me sobra minha pouca memória,
e desilusão.
(não sentida paixão)



Jogo dos 5 erros

roda de gente que só se atura
casais que se odeiam
lugar sofisticado
vinho caro
papo chato

terça-feira, 28 de maio de 2013

a culpa é da cultura, do ambiente onde fomos criados. competitividade, em diferentes quantidades, mas vista sempre como qualidade. persistência, talvez a maior característica dos que conhecemos por bem sucedidos, de sucesso. permanência como objetivo, condição sine qua non da felicidade estereotipada. consequência de tudo: quantidade enorme de gente mal casada (mal amada).

pelo rio da ponte
beirando a água
mais de cem albatrozes
errantes
em revoada

na ponte do rio
cruzando a estrada
em minutos eternos
você
se aproximava

da ponte, no rio
nós de mãos dadas
refletíamos juntos
e eu
me apaixonava

quinta-feira, 23 de maio de 2013

as much as i feel
that i don't belong
i´m still moving forward
through a path that is wrong

terça-feira, 21 de maio de 2013

não entendo tudo que diz, mas sei ver beleza onde a beleza está. e te vejo linda a cada letra que te escorre, a cada rio que te vaza. seu delta, cheio de ilhas, onde cada rio seu encontra o mar. fico de longe, mas quero mesmo em todos os seus rios nadar.

domingo, 19 de maio de 2013

é nos detalhes que o amor se faz e nos detalhes que se mostra: no bom dia carinhoso da rotina, na troca de olhares que perguntam se está tudo bem, na esticada do cobertor para cobrir o restinho do pescoço dela, na mão que tira um fio branco preso na roupa preta. e é simples assim: se não tem detalhes, não é amor.

quinta-feira, 16 de maio de 2013


Drummond dos nossos dias (paródia minha)

Nova Quadrilha

João amava Teresa, que fingia que não, mas amava Raimundo
que não admitia mas amava Maria
que nunca respondia mas amava Joaquim
que não reconhecia que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história mas não se escondia.

sábado, 4 de maio de 2013

domingo, 28 de abril de 2013

é de você que tenho
fome
por você que viro noites
insone
sonhando acordado
com seu gosto
seu cheiro suado
gemido abafado
seu beijo,
equatorial,
quente molhado

fogo
que nem chuva tropical
apaga
que noite nenhuma
amarga

sigo então meu caminho
para longe de você
flor, que mais que flor
vive de espinho
eu deveria ficar feliz
por você me querer
por sentir saudades
por me procurar
por tentar me ter

mas fico triste
quando vejo o que fazes
se protegendo do temido dessabor,
é capaz de matar de inanição
o que poderia ser mais puro amor

quinta-feira, 25 de abril de 2013

transbordo palavras
vazo como sou
conexo
dialetico
desestruturado
palavras
como vapor cuspidas
[exaladas]
palavras suficientes
para seguir
[sem explodir]