quinta-feira, 22 de maio de 2014
segunda-feira, 19 de maio de 2014
é como se os textos fossem a verdadeira revolução energética da humanidade: renováveis e inesgotáveis. como se o petróleo, nosso ou não, não fizesse mais sentido. para que veículos automotores se posso voar? se lendo-os, dou voltas ao mundo, vou do mais raso ao mais fundo. e as entrelinhas, estas benditas, fossem água gelada a me refrigerar. o impulso que me dá, dessa felicidade repentina, leve e inesgotável. basta começar a minguar que uma releitura a carrega por completo. uso mais que o recomendado, sem qualquer efeito colateral. uso pra sorrir e pra chorar. uso muito. usarei sempre, sem parar.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
sábado, 3 de maio de 2014
sexta-feira, 2 de maio de 2014
o céu completamente azul, numa cor só possível depois da chuva que caiu, recortado pela montanha coberta de verde, mais praquele escuro atlântico. o barulho das ondas do mar quebrando ao fundo (estou de costas para o mar, de frente para o sol). a leve embriaguez da vodka e da cerveja. o papo gostoso, íntimo e essencial como só se chega quando se ama (e neste caso, é amor infinito, incondicional, de família - um amor que tem um tamanho pra uma discussão só dele - e hoje eu quero discutir você). e a sua imagem me surge. na verdade primeiro me surgiu seu gosto, seu cheiro. senti pela memória sua pele na minha. meu pé no seu pé, subindo minha coxa na sua, o resto de mim em você, até meus dedos, emaranhado em seus cabelos tão finos, tão lindos. nosso sono, tão real. nossa noite inusitada no que seria um dia banal. e nosso afastamento sem propósito, sem motivo. você se escorrendo pelas minhas mãos, líquida, turva. eu não fecho meus dedos e deixo-te ir no que talvez tenha sido a maior perda primária da minha vida. você escorreu de mim e se tornou o maior amor que eu não vivi.
terça-feira, 29 de abril de 2014
domingo, 27 de abril de 2014
terça-feira, 22 de abril de 2014
sábado, 19 de abril de 2014
nina tem quatro meses e meio e os olhinhos puxados da mãe. não puxados como uma oriental, mas bastante esticados para uma ocidental.
nina sorri, embaixo de uma cobertura plástica que a protege da chuva.
(chove muito hoje, uma chuva forte que veio de repente).
a mãe da nina atravessa a rua com ela, lutando contra buracos, poças e o desequilíbrio do guarda-chuva pesado, que toma uma mão que deveria estar ajudando a empurrar o carrinho. e mesmo com todas essas lutas, a mãe da nina ri. mas não é só pelo mundo: a mãe da nina ri para mim.
deixo-a passar e ela segue seu caminho em meio a obstáculos e dificuldades pelas calçadas que parecem feitas para alagar e dificultar, nunca para ajudar.
não resisto e me ofereço para segurar seu guarda-chuva. a mãe da nina, que não toma mais chuva, está feliz, um pouco encantada, mas principalmente aliviada pelo aumento de conforto da viagem da nina. se nina está bem, sua mãe está bem também.
ajudo-a até seu carro, que parte em direção ao humaitá, sem perguntar seu nome, sem pedir seu telefone.
a mãe da nina é a mais bonita das moças que apareceu na minha vida, entre um dia de shopping da gávea e uma chuva. é a mulher que eu queria para mim. mas deixo-a ir sem saber seu nome, sua rua ou qualquer coisa que o valha. tomara que o pai da nina valorize o tesouro que tem.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
domingo, 13 de abril de 2014
sexta-feira, 11 de abril de 2014
terça-feira, 8 de abril de 2014
domingo, 6 de abril de 2014
sábado, 5 de abril de 2014
domingo, 23 de março de 2014
terça-feira, 18 de março de 2014
domingo, 16 de março de 2014
sexta-feira, 14 de março de 2014
terça-feira, 11 de março de 2014
(do desejo e do real)
“amor não é esporte
não é combate
amor é até a morte
gentileza
amor é consorte”
Esporte é jogo de soma zero. Só há vencedor havendo perdedor. Um ganha, outro perde. Simples assim. Esporte é combate, é conflito. Mesmo entre regras claras, esporte é disputa. Palmo a palmo. Milésimos de segundo. Ponto a ponto. Raça é coisa bonita no esporte – “queremos raça”. Garra também. Disputa-se espaço para vencer, vencer, vencer. No esporte o outro é adversário ou oponente. É oposto. E os opostos não se atraem, mas se digladiam.
Do amor espera-se o oposto. Amor é parceria, cumplicidade. Amor é família. Amor é gentileza. Amor para toda eternidade. É o que se deseja do amor. É o que desejamos. Nem mais, nem menos.
“Todo amor é uma espécie de suicídio” segundo a psicanálise. A entrega total, fundamental ao verdadeiro amor, causa o esvaziamento do ego no sentido narcísico. Quando correspondido, suicidam-se ambos para que ambos vivam, um se esvaziando para que o outro o ocupe por completo, na totalidade de cada um.
E daí surge a impossibilidade inicial do amor. Deste conflito entre o desejo romântico de cumplicidade e o instinto de sobrevivência. É no amor e só no amor que se pode matar sem que se esteja errado. Que se pode magoar sem que se seja culpado. Porque o amor pode acabar. E quando isso acontecer, alguém, invariavelmente vai sofrer. E essa entrega da felicidade a outrem traz muitos amores para o real: o amor romântico é uma luta, é esporte. É jogo de soma zero. Se não para todos, para a maioria. Há de manter-se no topo, há de ganhar a qualquer custo. A violência é moral. O alvo, o ego. Liga-se menos para quem se quer ligar mais. Trata-se pior a quem se quer melhor. Afasta-se a quem se quer mais próximo. É o jogo. É o conflito inicial. Só assim defende-se da mágoa, ou pensa defender-se. Só assim protege-se , ao custo de não se viver o amor em sua plenitude.
Só a abdicação de qualquer segurança e controle pode enterrar a impossibilidade inicial. Só a entrega irrestrita e total pode evitar o problema primordial. A completude, fundamental, depende da totalidade, que depende da entrega mútua, quase inocente. A generosidade é o alimento original do amor. O amor ideal é
sábado, 8 de março de 2014
terça-feira, 4 de março de 2014
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
domingo, 23 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
(Lei e Justiça)
Ucrânia em chamas. Setenta mortos em um único dia. Venezuela em chamas. Mortes e violência aumentando. A nova onda de protestos não é só brasileira. Apesar de todos os problemas recentes, ainda podemos dizer que temos um governo democrata no poder, especialmente se comparado a estes dois outros países.
Antes de continuar, queria deixar clara a minha opinião frente a todos estes protestos: sou favorável a tentativas populares de melhoria de qualquer situação social. Acredito que mudanças profundas não ocorrem sem estímulos externos aos do que no poder, sempre os conservadores.
Há pouco mais de 58 anos, na fria manhã de uma quinta-feira, primeiro dia de dezembro de 1955, Rosa Parks entrou num ônibus em Montgomery, Alabama. Mais passageiros iam entrando e, ao ser intimada a ceder seu assento a um passageiro branco, Rosa negou veementemente, em atitude que nos dias seguintes culminou no Boicote aos Ônibus de Montgomery. Por esta recusa, Rosa foi presa. E o boicote foi um dos passos mais importantes para a justiça social e racial dos EUA. Os Estados Unidos viviam a segregação racial. As leis eram claras em criar classes de pessoas baseadas em sua cor de pele. Por mais absurdo que isto nos pareça hoje, repito: estava na lei. Era o certo pela ótica legal. O único certo. Rosa foi presa por desobedecer. Rosa cometeu um crime porque, sendo negra, não cedeu seu lugar no ônibus a um branco.
A atitude de Rosa foi de desobediência civil. Rosa estava contra a lei, apesar de inquestionavelmente justa ser sua atitude. A lei nada mais é do que um arcabouço jurídico independente de justiça. Sempre foi assim e sempre será. Lei é lei. Justiça é justiça. Muitas leis são justas ou estimulam a justiça. Quanto mais evoluído socialmente um país, mas os dois se alinham. Mas se alinharem não os fazem os mesmos. No máximo, estão os mesmos.
O Brasil é um dos países com maior desigualdade de renda do planeta. Somos ainda uma Belíndia (mistura de Bélgica e Índia). Nossas leis foram feitas pelos que detinham e detém o poder. Muitas delas são justas, mas a injustiça ainda é um mal muito nosso. Seja por desrespeitos gritantes e constantes a muitas destas leis, seja por incapacidade social de cobrança dos direitos dos cidadãos.
Temos um péssimo sistema educacional, que colabora ativamente para a perpetuação da desigualdade social, contribuindo até para sua piora. As condições de nascença de nossos cidadãos é um dos maiores fatores de definição de seu destino econômico-social. Quem tiver a sorte de pais abastados estudará em escolas particulares, universidades públicas ou particulares e terá qualificações escassas e valorizadas no mercado de trabalho. Os que nascerem da maioria pobre, não terão as mesmas chances, a não ser que tenham talento excepcional para o futebol.
Temos um dos piores sistemas de transporte urbano do mundo. Baseado em ônibus e carros, mas sem pistas e autopistas adequadas. Lentos. Sem conforto. Em condições precárias. E caros, muito caros para a qualidade do serviço ofertado. Sistema de concessões no mínimo polêmicas, com questionamentos constantes e não esclarecidos feitos pelos Tribunais de Conta, que vão desde esquemas de corrupção para facilitação das concessões até questionamentos sobre os custos e as tarifas cobradas. Um sistema que mistura amadorismo de gestão, corrupção e descaso completo com o chamado passageiro, que na verdade deveria ser tratado como cliente.
Melhoramos muito nos últimos vinte anos. Somos mais institucionalizados, a renda aumentou, a classe média passou por um boom de tamanho. Mas ainda somos um país continental e de problemas extremamente graves.
Nesse contexto é que se dão os protestos populares, especialmente desta nova classe média. Novas demandas e desejos surgem de quem vai melhorando de vida. E são mais do que justas. O povo vai mudando e a classe política permanece a mesma, com as mesmas atitudes. Corrupta, personalista, populista. Precisamos de mudanças sociais e políticas relevantes. Precisamos de um novo contrato social. Precisamos adequar nosso país ao nosso novo povo. Precisamos sacudir o atual para criar o novo. Precisamos incomodar e desconcertar a classe política.
Sou terminantemente contra a violência. Sou contra um estado extremamente paternalista. Sou favorável ao equilíbrio financeiro dos governos.
Acredito que as demandas e cobranças podem e devem ser feitas de maneira pacífica. Mas devem ser feitas. E devem ser respeitadas. O que vemos no país desde o início de todos os protestos é uma atitude violenta e descabida da polícia. As máscaras surgiram nos protestos em primeiro lugar para proteger os manifestantes dos abusos policiais, especialmente os feitos com a utilização de armas de gases tóxicos. A polícia foi a primeira a atirar. A polícia matou, foi a primeira a matar. E isso tem que parar.
Os manifestantes tornaram-se mais aguerridos. Passaram a depredar, a se armar. Passaram a lutar de igual para a igual com a violência policial. As passeatas transmutaram-se em atos de quase guerra. Viraram confrontos abertos. E isso tem que parar. Mas o final não deveria ser o do fim dos protestos e sim dos combates. Os pleitos, mesmo que não se concorde com eles, são justos. Pleitear é justo, por mais que perturbe o status quo, por mais que moleste os conservadores.
Enquanto à discussão se ativer à legalidade ou não dos movimentos, não solucionaremos seus problemas. A polícia continuará atuando de maneira grotesca. A imprensa seguirá não entendendo e discriminando. Enquanto à questão legal e não a justiça for o centro do debate, não apaziguaremos os ânimos. Não cessarão os embates nem a violência. Mudança social profunda só se faz com desobediência civil, assim foi em toda a história da humanidade. Assim foi com Rosa Parks.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
e desde que não nos conjugamos mais na primeira pessoa do plural que te busco em cada uma que conheço. e na falta da completude sua, da totalidade sua que tanto amei, enfilero detalhes seus divididos entre uma sequência errante de relacionamentos. seus olhos na primeira. sua cor na segunda. sua sensibilidade na terceira. e assim vou tentando te substituir, me completar. mas seu sorriso. ah, seu sorriso puro e lindo. igual a ele acho que nunca nenhum vou achar.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
de quando mais te amei
de todo o tanto que te amei, em sua totalidade entre a risada boba, o ciúme bravo e injustificado, o mau humor matinal, a briga proposital, de todo o tanto que te amei, te amei mais no momento único - mesmo que se repetido - em que deitava em meu peito, depois de nosso amor de tarde de sábado, e se entregava toda ao sono que te chegava e ia te derrubando até seu último beijo ou sua última respiração mais forte em meu pescoço. eu lendo e me mantendo acordado para que o momento não acabasse e você entregue. despreocupada na certeza do amor incondicional. de todo tanto que te amei, assim te amei ainda mais.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
tantos
os berros
tanta tentação
cada um em seu inferno
tentativas de atenção
enquanto olhos fechados
mãos pelas mãos
os berros
dos monologuistas de plantão
incapazes de ouvir
qualquer senão
de fama não
é tempo novo
do egoísmo
da intolerância
da infâmia
volto ao meu primeiro lugar neste mundo. volto mais de vinte e cinco anos. volto a ser o gustavinho, não pela idade mas pelo carinho. volto mais do que à minha infância, volto à época da inocência, que se em mim já passou, por aqui é mais do que presente: é a regra. volto e me pego pensando se não é por aqui que quero ficar.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
sábado, 1 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
da nossa (im)possibilidade
sonhei que estávamos juntos, mas não só nós. éramos parte de um grupo maior. ainda não éramos o que somos. e no gramado, fazendo surpresa, você se vira em minha direção, abre seu sorriso mais lindo e grita: parabéns! demorei o tempo de sua vinda até mim para entender o que estava acontecendo: você me parabenizava pelo beijo que eu ia te dar. por te ter. te pego pela cintura, caímos deliciosamente pela grama e quando vou te beijar, percebo minha boca cheia como nunca antes, de algo que não sei o que é. e ficamos assim, rostos colados, mãos enroscadas aos corpos deitados, num quase que não tem fim.
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
meu corpo em estado deplorável, numa quase exaustão, evidenciada pelo peso de minhas pálpebras, que insistem em fechar mesmo que contra toda a adrenalina que me corre. é na madrugada que mais me falta, que mais te quero aqui. tateando o passado que é só meu, lembrando das suas histórias do que é só seu, me pego tentando entender como dois caminhos quase opostos se encontraram. o tamanho da coincidência daquele encontro, quase acidental, que virou ao avesso tudo que pensávamos estarmos predestinados a ser e viver, individualmente. encontro fortuito, constrangedor, desconfortável pelo tamanho que desde o início soubemos ter. como se antes dele, antes de nós ser pronome adequado a cada um dos dois ou ao que hoje somos, já esperássemos. como se vislumbrando essa unicidade que nos tornamos, essa completude que nos damos. como se ali houvesse uma linha de chegada que marcasse o início e não o fim, por mais contraditório que soe. chegamos um ao outro depois de muitas voltas que, mais do que tiveram de bom e ruim, de melhor, foi nos trazerem até aqui. até estarmos prontos um para o outro. não me é indiferente que tenha sido eu a percorrer o caminho mais longo e errante: foi sempre melhor do que eu em tudo que há de importante para ser. melhor até em me querer. e hoje, se estou que não me caibo em felicidade, se te tenho e isso na vida me basta, pego-me mais ansioso do que nunca. tenho todos os motivos do mundo para ter o sono leve como dos bobos, dos apaixonados, dos completos. mas tudo isso, confesso, me dá um baita de um medo.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
sábado, 18 de janeiro de 2014
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Tomo a linha 7 do metrô em Montparnasse, precisamente na Censier-Daubenton. Tenho exatamente 23 paradas até o meu destino: La Courneuve, ponto final.
Acostumado a ver o lado pobre do Rio de Janeiro, decidi montar um roteiro do lado B de Paris. O lado que turista nenhum costuma ver a não ser nos noticiários, quando alguma onda de protestos ou violência assola estas regiões.
La Courneuve é um destes lugares, subúrbio da Paris central.
Vindo de uns dias em Berlin, onde a imigração não salta aos olhos nem pelas características físicas nem pelos dialetos ou modos, Paris já se mostra mais heterogênea.
As ex-colônias africanas, antes exploradas pela exportação de Commodities, Metais Nobres e Pedras Preciosas, são hoje grandes exportadoras de imigrantes ilegais, todos em busca de melhoria de vida econômica ou em fuga de situações de risco de morte, como as tantas guerras civis que explodem por seus países. Tem no francês aprendido por imposição o motivo para a escolha do país.
O que encontram em Paris parece ser diferente do que deixam somente pelo modo: a violência física transforma-se em psicológica, civil, fruto do preconceito xenofóbico.
Relegados aos subúrbios pobres e violentos, os imigrantes de primeira ou segunda gerações se penduram no estado social, em sub-empregos ou em atividades ilegais.
A dita primeira impressão, de uma Paris diversa em Montparnasse, vai mudando quanto mais o metrô se afasta dos “arrondissements” centrais e segue em direção às regiões mais pobres.
Rostos tipicamente franceses, principalmente novos, praticamente desaparecem, substituído por poucos orientais e muitos africanos, brancos e negros.
O clima é cada vez mais pesado. Não pela presença dos imigrantes mas por suas posturas. É como se qualquer ato violento estivesse próximo de eclodir. A cada parada, maior é a quantidade de gente com essa postura, mesmo que rodeados de outros que, estando mais confortáveis no ambiente do que eu (talvez pelo costume), não emitem a mesma carga de violência.
Vivendo no Rio de Janeiro há mais de 20 anos, presenciei toda a gradual piora da situação da segurança na cidade até a chegada do ponto crítico social entre as favelas e o dito asfalto, que levou a população à importantes mudanças de hábito como sair menos a noite, evitar certos caminhos e até a blindagem de carros. Dominadas completamente por traficantes, as favelas, mesmo estando encrostadas pela cidade, foram sendo socialmente excluídas da vida dos que nelas não habitavam.
Subir uma favela era então um ato de risco. Era comum ver traficantes nos bares, com garrafas de cerveja ao lado de fuzis como o AK-47, o preferido deles. Era habitual pessoas não locais serem revistadas ou interrogadas por estes mesmos traficantes, que formavam um verdadeiro estado paralelo, auferindo total controle sobre estas áreas.
Após o invento das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), programa em andamento, extremamente bem sucedido na reocupação das favelas pelo Estado, se não exterminadas, a presença dos traficantes voltou à marginalidade, com o tráfico de drogas se dando somente às escondidas.
Ao subir uma favela hoje, como subo regularmente o Morro dos Tabajaras, onde dou aula de inglês como professor voluntário, mais do que maior sensação de segurança, me impressiona a mudança no clima. O que antes era um ar de terror, de guerra, hoje é muito mais leve. Muitos dos problemas ainda estão lá. A pobreza e a falta de infra estrutura básica como água, esgoto, transportes, ainda são gritantes. Mas é como se houvesse uma esperança de dias cada vez melhores no ar.
A desigualdade social no Brasil, uma das maiores do mundo, ainda faz o país quase um país de castas, mas isso não impede esta esperança, talvez fruto da combinação atual de quase pleno emprego, crescimento de renda e paz. E talvez essa esperança seja a principal causa da grande mudança do ambiente nestes lugares.
Nas ruas de La Courneuve, não se vê traficantes com armas. Também percebe-se uma estrutura urbana mais adequada, apesar de bem pior do que o lado rico da cidade. O que não se vê é a presença do Estado nas ruas. Muita sujeira, nenhum policiamento e uma quantidade grande de pessoas que, mesmo em dia útil, dedicam-se à circular pelas esquinas, sempre com ares suspeitos, incluindo-se aí traficantes que agem em plena rua, à luz do dia. A sensação de insegurança que senti me remeteu à última vez que subi em uma favela ocupada pelo tráfico.
Pela primeira vez na minha vida, tive medo de tirar a câmera fotográfica da mochila. Talvez temendo mais, ao fotografar as ruas, ser confundido com algum agente da lei, do que ter minha máquina roubada.
Paro para um café, em parte para poder observar a região me sentindo mais seguro do que na rua. Fico por algumas horas sentado de frente para um cruzamento muito movimentado, tentando entender o que se passa, reparando em minha volta.
Não consigo deixar a região sem antes escrever tudo que vi. No café, aproveitando-se de meu péssimo (ou inexistente) francês, recebo uma conta onde uma água mineral, amplamente sinalizada à 0,30 Euros, me foi cobrada como limonada à impressionantes 3,80 Euros. Não questiono o atendente pois quero guardar esta nota como parte da experiência.
Sem as fotos que pretendia tirar, minha tarde em Le Courneuve me atirou no peito o tamanho do problema francês. Pela experiência do meu Rio de Janeiro, sinto que deixar os subúrbios largados à própria sorte vai se tornar um problema cada vez maior à Paris central. O que se passa em Le Courneuve é grave e não parece estar sendo combatido. Talvez nem tenha sido assim identificado. O que falta à La Courneuve e sua gente é esperança.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
as luzes se acendem e vejo um a um os rostos a me olharem. e vou guardando os nomes (e sobrenomes) todos em minha mente. e vou associando as vozes às pessoas. e me quedo raivoso a ponto de jurar vingança.
sinto então um dedo às costas que parece só servir para me lembrar de meu tamanho: um dedo dela é todo meu dorso.
não sei dizer o que fiz para estar ali, tão culpado quanto kafka em o processo. tão angustiado quanto.
marionete coletiva. ou pior, nem isso. somente um camundongo amedrontado. posto e largado à sua insignificância.
domingo, 15 de dezembro de 2013
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
que desistiu, cadê você?



























