quarta-feira, 11 de junho de 2014

caixotes
em meio ao deserto
insolação
incerteza
vida
sequência 
quase infinita
mas finda
de senão

terça-feira, 10 de junho de 2014

você me trouxe
como antes
a temperança
mesmo que leve
e mais me deu de volta
hoje com você
sou todo amor
inundado transbordo
esperança

sexta-feira, 6 de junho de 2014

você fez meu tempo
que passava rápido
parar

eu parei pra ver
você no seu tempo
passar

terça-feira, 3 de junho de 2014

O voluntariado e a preeminência
(da desigualdade e da meritocracia)

“Quanto mais estruturalmente desigual uma sociedade, maior a participação da sorte em nosso destino.”

A questão não é filosófica, mas matemática. Quanto maior a diferença sociocultural em uma população, maior o salto necessário para superá-la. E maior a inércia econômica individual ou geracional.
Somos hoje, brasileiros, mais o que nascemos do que o que nos tornamos. Somos dos países mais desiguais do planeta, contando com um abismo entre os mais ricos e os mais pobres que vai além da distância econômica. Nosso sistema educacional disfuncional e carente aprofunda as diferenças iniciais ao invés de diminuí-las. A falta de estrutura ou ferramentas sociais cria um jogo onde o vencedor (no conceito amplamente aceito de sucesso, incluído o financeiro) é previamente conhecido. Onde a vitória é herdada. Um sistema tão evoluído (da pior maneira possível) de manutenção do status quo que pode ser comparado ao sistema indiano de castas.

Um dos professores mais importantes da minha vida me deu aula por apenas seis meses. Não era nem um pouco querido na faculdade (UFRJ), tido como tumultuador, questionador em excesso, marqueteiro e maluco. Sempre gostou da fama e fazia muito para aumentá-la, com brigas e arroubos em sala de aula, em assembleias de professores e onde mais achasse válido. Luis Eduardo Potsch é um cara a quem admiro, mesmo sem concordar com muito do que diz. Dentre as polêmicas frases e atitudes dele, duas me chamaram especial atenção: a primeira, que ele fazia com todas as turmas, era questionar o mérito de cada aluno que lá estava, alegando ser muito mais mérito dos pais na escolha de boas escolas do que do aluno ao passar; a segunda, de que o altruísmo sincero não existiria, sendo apenas egoísmo disfarçado. Ainda não tenho opinião formada sobre a segunda, mas o foco é a primeiro, esta que era especialmente dura para nós jovens recém entrados na faculdade cujo vestibular é dos mais concorridos do país. Era um golpe em nosso ego, à sensação de mérito próprio. O fato de que nem todos com a mesma chance que nós lá estava não invalida o argumento, ao contrário do que achávamos, já que estes todos tiveram também a mesma sorte. Invalidada estaria a tese se a maioria do que lá estudavam tivesse vindo de escolas públicas normais, descartadas as poucas que são consideradas centros de excelência como os Colégios de Aplicação da UERJ e UFRJ, os Pedro Segundo, Cefets e afins.

O questionamento à existência do mérito é também um questionamento ao conceito de meritocracia. Fato é que a meritocracia como a conhecemos ou como é amplamente aplicada tem três grandes defeitos: primeiro, a medição do resultado final, sem ajuste à situação inicial individual, é um contraditório suficiente para invalidar o conceito; segundo, o modelo usual de meritocracia não endereça a questão ética, ou a maneira como o objetivo é alcançado, igualando caminhos eticamente opostos que alcancem resultado único; e por fim, este modelo incentiva a busca por resultados de mais curto prazo, cujo componente sorte é muito mais importante para seu fim do que os de prazo mais longo (o resultado de um processo/sistema depende da combinação de sorte e habilidade/competência, apesar de geralmente considerarmos somente o segundo componente - talvez pelo primeiro ser menos controlável, menos mensurável).
Ao longo da minha experiência como voluntário e com voluntários, tive dos momentos mais sublimes. Na sorte do convívio com pessoas extraordinárias, cuja vontade, força, bondade, amor superaram o limite do imaginável, do possível, incluindo-se aí tanto os voluntários quanto as pessoas a quem os trabalhos se destinavam a ajudar. Na indescritível alegria de ver realizada a causa ou impacto pelo qual se trabalhava. No desejo sincero, amplo, irrestrito em ajudar por ajudar.

Mas vivenciei e presenciei também coisas não muito boas. E a pior de todas, a sensação de preeminência de quem lidava com alguém menos favorecido. Não evidenciada por descaso ou destrato, mas pelo olhar. Pelos pequenos gestos que transbordavam uma aura de superioridade, que exigiam em troca gratidão, gerando a sensação de uma dívida emocional. E nestes momentos me pegava pensando não se o trabalho voluntário vale a pena, porque isso é inquestionável, mas na motivação destas pessoas e na causa dessa sensação. E a cada minuto que passa, vejo na extrema desigualdade e na não compreensão dela e de seus efeitos por todos, a terra fértil onde prospera essa sensação.

(ao contrário do que pode parecer, este texto nasceu de duas fantásticas vivências recentes: à Dona Vera e ao Sonhar Acordado/Dia do Sonho, com muito carinho)
cada fio do seu cabelo
entrelaçado em minha mão
cada poro da sua pele
arrepiado em explosão
cada ida e volta do seu peito
em respiração
cada sua tremida de leve
nas batidas do seu coração
cada segundo da sua mente
sua constante reflexão
cada sorriso aberto
ah, a cada sorriso seu
me desfaço por ti
em arroubo
que louca paixão

segunda-feira, 2 de junho de 2014

o que tem
de curta
a vida
pode ter
de grande

a vida
que nos derrama
vê secura à volta
e clama
venham conosco
viver

viemos
de passado distante
vivemos
sem nós
claudicantes
hoje coletivo
meu
seu mais lindo sorriso
que se abre fácil
te entrega
toma todos
do santo ao ladrão
de assalto
bendito sorriso
quanta paixão

é vida
que transborda
é vida
saindo pelo ladrão
inunda todos à volta
em risos, choros
pura emoção
plenitude
tudo
menos senão

quinta-feira, 29 de maio de 2014

queria aqui publicamente registrar o dia em que me apaixonei por você: 28 de maio de 2014

sou dado a arroubos e paixões, que me tomam em séries cada vez mais espassadas. desde que te conheci que os trato como distrações ao amor definitivo que você me representa, mesmo quando distante, ausente. sei e não é de sonhar, tão pouco imaginar, o que o futuro, este que nos pertence, está a guardar. visualizo em detalhes como vidente, este crente na gente que sou. te sinto toda: das mãos mexendo em nervosismo ao abraço apertado que te acalma pela certeza do inevitável. sinto teu cheiro mesmo quando à léguas de mim. conheço teu gosto desde antes de sabê-lo só seu, prévio à qualquer conceito meu de paladar. escuto a música que é você mesmo quando no ambiente mais barulhento. nada é capaz de ofuscar sua presença em mim, entranhada que me está. temos a calma da certeza e da eternidade que nos espera e desde que paramos de nos perder, de nos fugir, temos também a urgência da vida, que nem um segundo queremos desperdiçar. eu, que era pântano de dúvidas e hesitações sou hoje bastião da certeza do nosso voar.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

quinta-feira, 22 de maio de 2014

não são mais épocas
dos quinze de fama
não
é tempo novo
do egoísmo
     da intolerância
            da infâmia
     
tempo sem razão
você me tira do sério
ao sorrir
sua simples presença
knock me off my feet

segunda-feira, 19 de maio de 2014

prana

energia universal
o texto bom
entre sorrisos
e choros
nas linhas e entre
linhas
águas a me refrigerar
uso muito
usarei sempre
sem parar
(uma homenagem aos livros e blogues que leio)

é como se os textos fossem a verdadeira revolução energética da humanidade: renováveis e inesgotáveis. como se o petróleo, nosso ou não, não fizesse mais sentido. para que veículos automotores se posso voar? se lendo-os, dou voltas ao mundo, vou do mais raso ao mais fundo. e as entrelinhas, estas benditas, fossem água gelada a me refrigerar. o impulso que me dá, dessa felicidade repentina, leve e inesgotável. basta começar a minguar que uma releitura a carrega por completo. uso mais que o recomendado, sem qualquer efeito colateral. uso pra sorrir e pra chorar. uso muito. usarei sempre, sem parar.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

segunda-feira, 5 de maio de 2014

baby
não confunda
gentileza
com submissão
se alguma coisa
faço melhor
que me abrir
é desaparecer
sem pistas
é sumir

sábado, 3 de maio de 2014

o tempo passa em meio a tantas informações rasas ou instáveis e penso em como gastamos tempo com as coisas menos importantes. o estágio atual da carreira, a faculdade que fizera. os sonhos profissionais e alguns materiais. tudo isso me atrai pouco e confesso às vezes perguntar em nome da burocracia romântica. em nome de te sentir sendo valorizada, alvo de interesse e curiosidade. mas a verdade é que não passa de atitude burocrática a minha. e desprendida de qualquer emoção real. das viagens suas, tenho real curiosidade. mas não pelo que viu ou onde passou e sim pelo que buscava e o que encontrou. pelas buscas pode-se conhecer alguém muito mais profundamente que pelas descobertas, estas frutos de externalidades incontroláveis. vamos e voltamos assuntos entre vinho e comida decente, num ambiente mais do que agradável e frio. não pela decoração, ao contrário, mas pela temperatura. Ouço neste frio sua história, mesmo que cuidadosamente recortada dada nossa falta de intimidade pelo nosso pouco tempo nosso. me interesso menos pelos fatos e mais por suas consequências em você. é o que vai me fazer sentir se seremos ou não uma dupla somada às nossas individualidades. a pele sua também me interessa. a sensação da minha mão na sua. seu gosto e seu beijo, muito me interessam e começam a me passar como será o resto, que antecipou mesmo antes de saber que foi. vou te entendendo e vejo sua necessidade de entrega, sua presença forte, densa. isso me atrai. disso gosto em você. isso diz-me muito sobre suas buscas. mas entre essas buscas, uma brusca parada. medo, seu medo que afasta o que mais gosta, o que mais procura. seu medo disfarçado de fastio. sua postura displicente, desconexa. seu disfarce tosco que vaza quando me beija. você pode tentar esconder-se o quanto quiser e conseguirá, desde que não me deixe te beijar. mas volto ao ponto que te observo e te vejo sem a menor ideia da minha real intenção, da minha grande atração: suas buscas, o que quero de você são suas buscas.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

quero chorar
raiva de mim
por te tratar
como princesa
pra depois
te ignorar
como única forma
de você me amar
quero chorar
porque só queria
te abraçar
te encher de carinho
de beijos
e todo eu
na minha completude
te amar
deixei de te
chamar
fingi não te
querer
te dei tchau
querendo te amar
te deixei
querendo ficar
só pra tentar
te fazer
se entregar

que pena

o céu completamente azul, numa cor só possível depois da chuva que caiu, recortado pela montanha coberta de verde, mais praquele escuro atlântico. o barulho das ondas do mar quebrando ao fundo (estou de costas para o mar, de frente para o sol). a leve embriaguez da vodka e da cerveja. o papo gostoso, íntimo e essencial como só se chega quando se ama (e neste caso, é amor infinito, incondicional, de família - um amor que tem um tamanho pra uma discussão só dele - e hoje eu quero discutir você). e a sua imagem me surge. na verdade primeiro me surgiu seu gosto, seu cheiro. senti pela memória sua pele na minha.  meu pé no seu pé, subindo minha coxa na sua, o resto de mim em você, até meus dedos, emaranhado em seus cabelos tão finos, tão lindos. nosso sono, tão real. nossa noite inusitada no que seria um dia banal. e nosso afastamento sem propósito, sem motivo. você se escorrendo pelas minhas mãos, líquida, turva. eu não fecho meus dedos e deixo-te ir no que talvez tenha sido a maior perda primária da minha vida. você escorreu de mim e se tornou o maior amor que eu não vivi.

choro sozinho
a chance perdida
de te amar
loucamente
como desimpedida
fosse você
minha linda
finda
minha musa
meu porquê

terça-feira, 29 de abril de 2014

a azia me rouba o sono que já era leve na sua presença. seu corpo respirando no meu. seu cheiro dominando-me todo, até meu canto mais íntimo. seu medo que não contém, de ser usada, virar refém. meu medo, escondo bem, de te ser pouco, por excesso de razão me impedir de ir além.

decepção crescente
buraco
minuendo
razão

cria
da expectativa
que cria

domingo, 27 de abril de 2014

limitless efforts
might not get you there
but whatever happens
in the end
they will free you
from any regrets

terça-feira, 22 de abril de 2014

sábado, 19 de abril de 2014

eu quando me vejo
vejo uma caricatura

a mãe da nina

nina tem quatro meses e meio e os olhinhos puxados da mãe. não puxados como uma oriental, mas bastante esticados para uma ocidental.
nina sorri, embaixo de uma cobertura plástica que a protege da chuva.
(chove muito hoje, uma chuva forte que veio de repente).
a mãe da nina atravessa a rua com ela, lutando contra buracos, poças e o desequilíbrio do guarda-chuva pesado, que toma uma mão que deveria estar ajudando a empurrar o carrinho. e mesmo com todas essas lutas, a mãe da nina ri. mas não é só pelo mundo: a mãe da nina ri para mim.
deixo-a passar e ela segue seu caminho em meio a obstáculos e dificuldades pelas calçadas que parecem feitas para alagar e dificultar, nunca para ajudar.
não resisto e me ofereço para segurar seu guarda-chuva. a mãe da nina, que não toma mais chuva, está feliz, um pouco encantada, mas principalmente aliviada pelo aumento de conforto da viagem da nina. se nina está bem, sua mãe está bem também.
ajudo-a até seu carro, que parte em direção ao humaitá, sem perguntar seu nome, sem pedir seu telefone.
a mãe da nina é a mais bonita das moças que apareceu na minha vida, entre um dia de shopping da gávea e uma chuva. é a mulher que eu queria para mim. mas deixo-a ir sem saber seu nome, sua rua ou qualquer coisa que o valha. tomara que o pai da nina valorize o tesouro que tem.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

são cinco
seis
todas de uma vez
nenhuma afasta
a saudade singular
minha vida
e sua
escassez

domingo, 13 de abril de 2014

a primeira vez que eu ouvi a história do palitinho foi da boca dela, aquele tipo de pessoa que tem tanta bondade que eu me pergunto logo o porque da sorte de tê-la como amiga. sorte maior só tê-la toda como tive. a história do palitinho: somos metade de palitos de picolé e nossa metade está por aí. e se encaixa perfeitamente. só uma metade pra cada palito, pra cada um de nós. e como o palito é de madeira, quanto a mais metades erradas tentarmos nos juntar, menor nossa chance de encontrarmos nossa verdadeira metade. a tentativa errada desgasta, amassa as arestas e passamos a não nos encaixar mais nem mesmo na metade perfeita pra nós. escutei essa história em 2001/2002. tinha então vinte e poucos anos e toda arrogância da juventude, pelo menos da minha. não concordava com a tese. me via mais como uma metade dura, inquebrável. e fui testando metade depois de metade. em minha defesa, posso dizer que acreditei piamente que cada uma delas era a metade. hoje vivo o conflito de me sentir finalmente pronto à outra metade,  porém só sendo o que sou pelas metades que não foram. se acreditar que sou palitinho de madeira, já perdi meu encaixe. acreditando no que acredito, não perdi o encaixe, mais ganhei um desgaste: como acreditar que um novo amor é o amor depois de tantos amores? e aí talvez eu compreenda a história: os desgastes, os sofrimentos podem nos fechar por completo se não nos esforçarmos muito a permanecermos abertos. se não formos resilientes ou crentes o suficiente. e talvez aí resida a verdade da história, mesmo que não aplicável a todos (ou pelo menos, a mim).

sexta-feira, 11 de abril de 2014

fico na dúvida
que me mata
de ansiedade

será que quer ser
por mim amada
com sinceridade

duvido e penso
em como faço
em amor por você
me desfaço

tive que aprender
questão de sobrevivência
a acalmar
dar tempo pro tempo
passar

tive que aprender
você me ensinou
a esperar
dar tempo pra tudo
recomeçar

tive que aprender
meio forçado
que amar
é se dar todo sem nada
resguardar

terça-feira, 8 de abril de 2014

a música doída
do nylon esgarçado
o samba em valsa
no sete cordas
dedilhado

domingo, 6 de abril de 2014

me torço, me espremo e não sai nada. estou seco, por completo. tenho saudades de ti e não consigo te chorar. conheço quem poderia me acompanhar e não sou capaz de me entregar. e não é porque tenho medo. é por essa secura, meu coração duro deste deserto que é a longa falta do amor. deliro em desespero. vejo oásis onde água não há. miragem do que sei é só o que pode novamente me encharcar. me debato neste calor, tento respirar. mas sou bicho d'água, estou seco e chuva pouca não pode ajudar. preciso de enchente, preciso nadar. estou seco e só o (a)mar pode me salvar.

emburaquei em mim e como de costume me tranco e quedo quieto. as idéias boas e ruins vão brotando, aos trancos e barrancos e a vontade exclusiva de solidão vai passando. só não sei até quando.

sábado, 5 de abril de 2014

é pólvora
que explode em cores
e brincadeiras
(espoleta)

é voz
que conta histórias mil
entre sorrisos
(vida)

é amor
que se esparrama
e te volta
(minha)
você me fez um ser
binário

domingo, 23 de março de 2014

espécie
não genérica
para gostos
específicos
manual para se recuperar de um fora
(execute na ordem abaixo)

1- saia e encha a cara
2- pratique sexo sem compromisso
3- tente substituir a figura amada por outra
4- encha mais a cara

se nada disso funcionar (dificilmente funcionará), relaxe, sofra e deixe o tempo passar.
cavo buraco fundo
onde vou te jogar
para ver se enterro de vez
meu imenso gostar

terça-feira, 18 de março de 2014

vou seguindo
em meio ao lodo
insalubre
dos meus demônios
de plantão
passos difíceis
pesados
dificultados
por minha loucura
minha total falta
de razão

te fiz uma declaração
de querer te amar

domingo, 16 de março de 2014

eu quero logo
que este dia acabe
abra alas ao amanhã
para que possa te ver
e levar o fardo
dessa saudade

eu te quis
pelo que queria ser
te convidei
por ser o que sempre amei
te beijei
pra me gostar
te larguei
pelo que tem
que tem em mim também

terça-feira, 11 de março de 2014

A impossibilidade inicial – primordial – do amor
(do desejo e do real)

“amor não é esporte
não é combate
amor é até a morte
gentileza
amor é consorte”

Esporte é jogo de soma zero. Só há vencedor havendo perdedor. Um ganha, outro perde. Simples assim. Esporte é combate, é conflito. Mesmo entre regras claras, esporte é disputa. Palmo a palmo. Milésimos de segundo. Ponto a ponto. Raça é coisa bonita no esporte – “queremos raça”. Garra também. Disputa-se espaço para vencer, vencer, vencer. No esporte o outro é adversário ou oponente. É oposto. E os opostos não se atraem, mas se digladiam.
Do amor espera-se o oposto. Amor é parceria, cumplicidade. Amor é família. Amor é gentileza. Amor para toda eternidade. É o que se deseja do amor. É o que desejamos. Nem mais, nem menos.

“Todo amor é uma espécie de suicídio” segundo a psicanálise. A entrega total, fundamental ao verdadeiro amor, causa o esvaziamento do ego no sentido narcísico. Quando correspondido, suicidam-se ambos para que ambos vivam, um se esvaziando para que o outro o ocupe por completo, na totalidade de cada um.

E daí surge a impossibilidade inicial do amor. Deste conflito entre o desejo romântico de cumplicidade e o instinto de sobrevivência. É no amor e só no amor que se pode matar sem que se esteja errado. Que se pode magoar sem que se seja culpado. Porque o amor pode acabar. E quando isso acontecer, alguém, invariavelmente vai sofrer. E essa entrega da felicidade a outrem traz muitos amores para o real: o amor romântico é uma luta, é esporte. É jogo de soma zero. Se não para todos, para a maioria. Há de manter-se no topo, há de ganhar a qualquer custo. A violência é moral. O alvo, o ego. Liga-se menos para quem se quer ligar mais. Trata-se pior a quem se quer melhor. Afasta-se a quem se quer mais próximo. É o jogo. É o conflito inicial. Só assim defende-se da mágoa, ou pensa defender-se. Só assim protege-se , ao custo de não se viver o amor em sua plenitude.

Só a abdicação de qualquer segurança e controle pode enterrar a impossibilidade inicial. Só a entrega irrestrita e total pode evitar o problema primordial. A completude, fundamental, depende da totalidade, que depende da entrega mútua, quase inocente. A generosidade é o alimento original do amor. O amor ideal é quase um ato de altruísmo e só na sua presença floresce.

sábado, 8 de março de 2014

tudo
todo dia
dia todo

não me peça o médio
não sou contido
te prometo extremos
amor maior
coração partido
poderia ser seu jeito
blasé
poderia ser seu rosto
quase angelical
mas o que é mesmo
é seu gosto
e seu cheiro
combinação que
caso seja mesmo o amor
uma espécie de suicídio
vai me ser fatal
eu penso 
e é como se eu tivesse te traindo
falo 
e como se você fosse se esvaindo
toco 
e é você se indo
amo é você,
mesmo você não sentindo

terça-feira, 4 de março de 2014

enquanto todos os pardos
enquanto todos os bêbados
enquanto todos os carnavais

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

domingo, 23 de fevereiro de 2014

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Os protestos e os direitos
(Lei e Justiça)

Ucrânia em chamas. Setenta mortos em um único dia. Venezuela em chamas. Mortes e violência aumentando. A nova onda de protestos não é só brasileira. Apesar de todos os problemas recentes, ainda podemos dizer que temos um governo democrata no poder, especialmente se comparado a estes dois outros países.
Antes de continuar, queria deixar clara a minha opinião frente a todos estes protestos: sou favorável a tentativas populares de melhoria de qualquer situação social. Acredito que mudanças profundas não ocorrem sem estímulos externos aos do que no poder, sempre os conservadores.
Há pouco mais de 58 anos, na fria manhã de uma quinta-feira, primeiro dia de dezembro de 1955, Rosa Parks entrou num ônibus em Montgomery, Alabama. Mais passageiros iam entrando e, ao ser intimada a ceder seu assento a um passageiro branco, Rosa negou veementemente, em atitude que nos dias seguintes culminou no Boicote aos Ônibus de Montgomery. Por esta recusa, Rosa foi presa. E o boicote foi um dos passos mais importantes para a justiça social e racial dos EUA. Os Estados Unidos viviam a segregação racial. As leis eram claras em criar classes de pessoas baseadas em sua cor de pele. Por mais absurdo que isto nos pareça hoje, repito: estava na lei. Era o certo pela ótica legal. O único certo. Rosa foi presa por desobedecer. Rosa cometeu um crime porque, sendo negra, não cedeu seu lugar no ônibus a um branco.
A atitude de Rosa foi de desobediência civil. Rosa estava contra a lei, apesar de inquestionavelmente justa ser sua atitude. A lei nada mais é do que um arcabouço jurídico independente de justiça. Sempre foi assim e sempre será. Lei é lei. Justiça é justiça. Muitas leis são justas ou estimulam a justiça. Quanto mais evoluído socialmente um país, mas os dois se alinham. Mas se alinharem não os fazem os mesmos. No máximo, estão os mesmos.
O Brasil é um dos países com maior desigualdade de renda do planeta. Somos ainda uma Belíndia (mistura de Bélgica e Índia). Nossas leis foram feitas pelos que detinham e detém o poder. Muitas delas são justas, mas a injustiça ainda é um mal muito nosso. Seja por desrespeitos gritantes e constantes a muitas destas leis, seja por incapacidade social de cobrança dos direitos dos cidadãos.
Temos um péssimo sistema educacional, que colabora ativamente para a perpetuação da desigualdade social, contribuindo até para sua piora. As condições de nascença de nossos cidadãos é um dos maiores fatores de definição de seu destino econômico-social. Quem tiver a sorte de pais abastados estudará em escolas particulares, universidades públicas ou particulares e terá qualificações escassas e valorizadas no mercado de trabalho. Os que nascerem da maioria pobre, não terão as mesmas chances, a não ser que tenham talento excepcional para o futebol.
Temos um dos piores sistemas de transporte urbano do mundo. Baseado em ônibus e carros, mas sem pistas e autopistas adequadas. Lentos. Sem conforto. Em condições precárias. E caros, muito caros para a qualidade do serviço ofertado. Sistema de concessões no mínimo polêmicas, com questionamentos constantes e não esclarecidos feitos pelos Tribunais de Conta, que vão desde esquemas de corrupção para facilitação das concessões até questionamentos sobre os custos e as tarifas cobradas. Um sistema que mistura amadorismo de gestão, corrupção e descaso completo com o chamado passageiro, que na verdade deveria ser tratado como cliente.
Melhoramos muito nos últimos vinte anos. Somos mais institucionalizados, a renda aumentou, a classe média passou por um boom de tamanho. Mas ainda somos um país continental e de problemas extremamente graves.
Nesse contexto é que se dão os protestos populares, especialmente desta nova classe média. Novas demandas e desejos surgem de quem vai melhorando de vida. E são mais do que justas. O povo vai mudando e a classe política permanece a mesma, com as mesmas atitudes. Corrupta, personalista, populista. Precisamos de mudanças sociais e políticas relevantes. Precisamos de um novo contrato social. Precisamos adequar nosso país ao nosso novo povo. Precisamos sacudir o atual para criar o novo. Precisamos incomodar e desconcertar a classe política.
Sou terminantemente contra a violência. Sou contra um estado extremamente paternalista. Sou favorável ao equilíbrio financeiro dos governos.
Acredito que as demandas e cobranças podem e devem ser feitas de maneira pacífica. Mas devem ser feitas. E devem ser respeitadas. O que vemos no país desde o início de todos os protestos é uma atitude violenta e descabida da polícia. As máscaras surgiram nos protestos em primeiro lugar para proteger os manifestantes dos abusos policiais, especialmente os feitos com a utilização de armas de gases tóxicos. A polícia foi a primeira a atirar. A polícia matou, foi a primeira a matar. E isso tem que parar.
Os manifestantes tornaram-se mais aguerridos. Passaram a depredar, a se armar. Passaram a lutar de igual para a igual com a violência policial. As passeatas transmutaram-se em atos de quase guerra. Viraram confrontos abertos. E isso tem que parar. Mas o final não deveria ser o do fim dos protestos e sim dos combates. Os pleitos, mesmo que não se concorde com eles, são justos. Pleitear é justo, por mais que perturbe o status quo, por mais que moleste os conservadores.
Enquanto à discussão se ativer à legalidade ou não dos movimentos, não solucionaremos seus problemas. A polícia continuará atuando de maneira grotesca. A imprensa seguirá não entendendo e discriminando. Enquanto à questão legal e não a justiça for o centro do debate, não apaziguaremos os ânimos. Não cessarão os embates nem a violência. Mudança social profunda só se faz com desobediência civil, assim foi em toda a história da humanidade. Assim foi com Rosa Parks.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

e desde que não nos conjugamos mais na primeira pessoa do plural que te busco em cada uma que conheço. e na falta da completude sua, da totalidade sua que tanto amei, enfilero detalhes seus divididos entre uma sequência errante de relacionamentos. seus olhos na primeira. sua cor na segunda. sua sensibilidade na terceira. e assim vou tentando te substituir, me completar. mas seu sorriso. ah, seu sorriso puro e lindo. igual a ele acho que nunca nenhum vou achar.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

a sensação é que tem medo do risco errado. se fecha, se protege, deixa de amar para não sofrer, quando a dor maior é completamente vazia permanecer.
se rasga
que eu gosto
se mostra
que eu gamo
se entrega sem medo
que eu te amo
às vezes penso que vivo
meu próprio truman show
é engraçado
mesmo certo
do tamanho
da insanidade
sigo
indo na mesma
direção

de quando mais te amei

de todo o tanto que te amei, em sua totalidade entre a risada boba, o ciúme bravo e injustificado, o mau humor matinal, a briga proposital, de todo o tanto que te amei, te amei mais no momento único - mesmo que se repetido - em que deitava em meu peito, depois de nosso amor de tarde de sábado, e se entregava toda ao sono que te chegava e ia te derrubando até seu último beijo ou sua última respiração mais forte em meu pescoço. eu lendo e me mantendo acordado para que o momento não acabasse e você entregue. despreocupada na certeza do amor incondicional. de todo tanto que te amei, assim te amei ainda mais.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

são tantas as mãos
tantos
os berros
tanta tentação
cada um em seu inferno

são mãos ao alto
tentativas de atenção
enquanto olhos fechados
mãos pelas mãos

estrondosos
os berros
dos monologuistas de plantão
incapazes de ouvir
qualquer senão

não são mais épocas dos quinze
de fama não
é tempo novo
do egoísmo
     da intolerância
            da infâmia
      
tempo sem razão

volto ao meu primeiro lugar neste mundo. volto mais de vinte e cinco anos. volto a ser o gustavinho, não pela idade mas pelo carinho. volto mais do que à minha infância, volto à época da inocência, que se em mim já passou, por aqui é mais do que presente: é a regra. volto e me pego pensando se não é por aqui que quero ficar.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Da violência e da adaptabilidade
(do despreparo e da criminalidade)

Embora eu nunca tenha dado um tiro com uma arma de verdade, posso dizer que já tive muitas experiências visuais com as mesmas, como provavelmente todos que moram nas grandes cidades brasileiras, seja pela visão constante dos canos das metralhadoras para fora das viaturas policiais, seja pelos traficantes exibindo suas armas pelas favelas ou então nos revólveres e pistolas ostentados por seguranças à volta de nós, cidadãos desarmados.
Também já fui testemunha visual de um assassinato quando tinha quase dez anos de idade. Não estava tão perto da cena e, por me encontrar dentro de um carro com os vidros fechados, só me ficou a imagem do assassino jogando o futuro morto no chão para depois dar-lhe um tiro. O fogo cuspido pelo cano da arma no momento do disparo, imagem que me vem nítida mesmo após os quase vinte e cinco anos que já se passaram. Fiquei algumas noites sem dormir até que o medo passasse.
O que não tinha ainda experimentado é me ver presente em uma cena de real perigo de morte como ontem. Sentávamos eu e um amigo em uma mesa na calçada em frente ao Bar Rebouças, tradicional reduto comandado pelo português Seu Alberto e seu fiel escudeiro Jorginho, eleito melhor garçom do Rio pela Veja em 2011. Conversávamos entre cervejas e frituras quando um Tucson preto entra em alta velocidade pela contramão da Rua Maria Angélica, vindo em nossa direção. Apesar de nossa mesa estar perto da rua, escapamos do atropelo, salvos por um poste que impediu que os bandidos subissem à calçada em cima de nós. Meu amigo, que estava mais próximo à rua, levantou-se rapidamente da mesa num reflexo surpreendente. Eu dei um passo para trás e fiquei atônito olhando o carro seguir no sentido errado, quando atrás dele veio o primeiro carro de polícia, também na contramão. Os bandidos conseguiram seguir por mais uns dez metros de rua, até que o carro foi parado por uma árvore à frente e o tráfego normal de carros no sentido correto, à esquerda. Assim que os bandidos pararam os policiais também o fizeram, saltando rapidamente com suas metralhadoras automáticas em punho. Éramos, os clientes do bar, talvez umas quarenta ou cinquenta pessoas espalhados pela calçada onde a cena se passava, incluindo algumas poucas crianças. A correria começa. Ouço dois ou três barulhos secos de tiros disparados, aparentemente pela polícia, colocando não só as pessoas em um estado emocional ainda mais estressante como nossas vidas em risco, num evidente despreparo de quem deveria prezar, acima de tudo, por nossa segurança. A correria é grande e corro também, procurando abrigo quase forçando minha entrada na cozinha da lanchonete ao lado, pedindo e quase empurrando um segurança boa pessoa, mas que estava atordoado com a confusão. Consegui convencê-lo a deixar duas mães e seus dois filhos entrarem antes dele trancar a porta com medo de uma possível invasão pelos bandidos agora em fuga. Duas moças de rostos quase angelicais batem à porta, num desespero evidente. Por falta de espaço (ou por medo), o segurança não as deixa entrar. Elas se sentam em frente à porta, em um pranto contido por uma e liberado por outra. Estamos no corredor que antecede a cozinha da lanchonete e as crianças não param de chorar, em pânico. Seus olhos vermelhos e soluços se misturam aos confusos olhares de suas mães, que combinam o desespero pela situação e o alívio de ver seus filhos bem.
A situação lá fora se acalma e resolvo sair, à tempo de ver as pessoas como ficaram durante toda a confusão. Atrás do balcão da lanchonete, um grupo de quase dez desconhecidos entre si se amontoam quase uns sobre os outros. Gente de vinte, trinta e até setenta anos, todos deitados e igualmente apavorados. A sensação de insegurança e temor pela própria vida é evidente em todos e um sentimento inexplicável. Árido, ácido, angustiante. Grande.

Os poucos minutos em que tudo se passou pareceram muitos, quiçá uma hora cheia. E se foi feliz por não deixar mortos e feridos entre nós, cavou um buraco de inquietação em mim. E se o Rio oferece pores do sol espetaculares, paisagens sensacionais, também é capaz de propiciar um dos piores sentimentos que já tive, a impotência. Desde ontem, tenho menos vontade de viver por aqui.

ontem no samba
uma moça quis me comprar

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

eu não sei
se daí você está
a sorrir
enquanto eu aqui
sorrio
com vontade de chorar
pela esperança
do bem estar
pela temperança
alcançada
e pela eterna
extrema
saudade de ti

passeio
por você inteira
te vejo toda
nas pontas dos meus dedos
dos seus cabelos
às costas da sua coxa
indo e voltando
e te conhecendo mais
a cada sentido
nem se ficasse
assim, te passeando
por anos a fio
cansaria
ou pensaria
te conhecer 
toda

sábado, 1 de fevereiro de 2014

nada mais agudo
e estridente
que os gritos
dos meus demônios
espero sua chegada
que traz além do êxtase
o silêncio eminente
no silêncio
da solitude
a sinfonia
da natureza
ode à vida
e sua beleza

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

da nossa (im)possibilidade

sonhei que estávamos juntos, mas não só nós. éramos parte de um grupo maior. ainda não éramos o que somos. e no gramado, fazendo surpresa, você se vira em minha direção, abre seu sorriso mais lindo e grita: parabéns! demorei o tempo de sua vinda até mim para entender o que estava acontecendo: você me parabenizava pelo beijo que eu ia te dar. por te ter. te pego pela cintura, caímos deliciosamente pela grama e quando vou te beijar, percebo minha boca cheia como nunca antes, de algo que não sei o que é. e ficamos assim, rostos colados, mãos enroscadas aos corpos deitados, num quase que não tem fim.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

meu corpo em estado deplorável, numa quase exaustão, evidenciada pelo peso de minhas pálpebras, que insistem em fechar mesmo que contra toda a adrenalina que me corre. é na madrugada que mais me falta, que mais te quero aqui. tateando o passado que é só meu, lembrando das suas histórias do que é só seu, me pego tentando entender como dois caminhos quase opostos se encontraram. o tamanho da coincidência daquele encontro, quase acidental, que virou ao avesso tudo que pensávamos estarmos predestinados a ser e viver, individualmente. encontro fortuito, constrangedor, desconfortável pelo tamanho que desde o início soubemos ter. como se antes dele, antes de nós ser pronome adequado a cada um dos dois ou ao que hoje somos, já esperássemos. como se vislumbrando essa unicidade que nos tornamos, essa completude que nos damos. como se ali houvesse uma linha de chegada que marcasse o início e não o fim, por mais contraditório que soe. chegamos um ao outro depois de muitas voltas que, mais do que tiveram de bom e ruim, de melhor, foi nos trazerem até aqui. até estarmos prontos um para o outro. não me é indiferente que tenha sido eu a percorrer o caminho mais longo e errante: foi sempre melhor do que eu em tudo que há de importante para ser. melhor até em me querer. e hoje, se estou que não me caibo em felicidade, se te tenho e isso na vida me basta, pego-me mais ansioso do que nunca. tenho todos os motivos do mundo para ter o sono leve como dos bobos, dos apaixonados, dos completos. mas tudo isso, confesso, me dá um baita de um medo.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

médio
morno
intermediário
meio-termo
insípido
mo
   nó
      to
        no

tudo isso eu
     passo
com gosto
    e por
         necessidade

só me
conforta
frequento
habito
só me acalma
me afaga
me basta
  o demais
     o exagero
        o sem 
           limite
tem·pe·ran·ça

sábado, 18 de janeiro de 2014

à força puxo-me e me levanto
caio, puxo-me e me levanto
caio
puxo
levanto
se não posso evitar o tombo,
só a persistência de me puxar de volta vale

sou todo tombos
e persistência
Madri-Berlin-Paris-NY














segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Relato de uma Paris B

Tomo a linha 7 do metrô em Montparnasse, precisamente na Censier-Daubenton. Tenho exatamente 23 paradas até o meu destino: La Courneuve, ponto final.
Acostumado a ver o lado pobre do Rio de Janeiro, decidi montar um roteiro do lado B de Paris. O lado que turista nenhum costuma ver a não ser nos noticiários, quando alguma onda de protestos ou violência assola estas regiões.
La Courneuve é um destes lugares, subúrbio da Paris central.
Vindo de uns dias em Berlin, onde a imigração não salta aos olhos nem pelas características físicas nem pelos dialetos ou modos, Paris já se mostra mais heterogênea.
As ex-colônias africanas, antes exploradas pela exportação de Commodities, Metais Nobres e Pedras Preciosas, são hoje grandes exportadoras de imigrantes ilegais, todos em busca de melhoria de vida econômica ou em fuga de situações de risco de morte, como as tantas guerras civis que explodem por seus países. Tem no francês aprendido por imposição o motivo para a escolha do país.
O que encontram em Paris parece ser diferente do que deixam somente pelo modo: a violência física transforma-se em psicológica, civil, fruto do preconceito xenofóbico.
Relegados aos subúrbios pobres e violentos, os imigrantes de primeira ou segunda gerações se penduram no estado social, em sub-empregos ou em atividades ilegais.
A dita primeira impressão, de uma Paris diversa em Montparnasse, vai mudando quanto mais o metrô se afasta dos “arrondissements” centrais e segue em direção às regiões mais pobres.
Rostos tipicamente franceses, principalmente novos, praticamente desaparecem, substituído por poucos orientais e muitos africanos, brancos e negros.
O clima é cada vez mais pesado. Não pela presença dos imigrantes mas por suas posturas. É como se qualquer ato violento estivesse próximo de eclodir. A cada parada, maior é a quantidade de gente com essa postura, mesmo que rodeados de outros que, estando mais confortáveis no ambiente do que eu (talvez pelo costume), não emitem a mesma carga de violência.
Vivendo no Rio de Janeiro há mais de 20 anos, presenciei toda a gradual piora da situação da segurança na cidade até a chegada do ponto crítico social entre as favelas e o dito asfalto, que levou a população à importantes mudanças de hábito como sair menos a noite, evitar certos caminhos e até a blindagem de carros. Dominadas completamente por traficantes, as favelas, mesmo estando encrostadas pela cidade, foram sendo socialmente excluídas da vida dos que nelas não habitavam.
Subir uma favela era então um ato de risco. Era comum ver traficantes nos bares, com garrafas de cerveja ao lado de fuzis como o AK-47, o preferido deles. Era habitual pessoas não locais serem revistadas ou interrogadas por estes mesmos traficantes, que formavam um verdadeiro estado paralelo, auferindo total controle sobre estas áreas.
Após o invento das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), programa em andamento, extremamente bem sucedido na reocupação das favelas pelo Estado, se não exterminadas, a presença dos traficantes voltou à marginalidade, com o tráfico de drogas se dando somente às escondidas.
Ao subir uma favela hoje, como subo regularmente o Morro dos Tabajaras, onde dou aula de inglês como professor voluntário, mais do que maior sensação de segurança, me impressiona a mudança no clima. O que antes era um ar de terror, de guerra, hoje é muito mais leve. Muitos dos problemas ainda estão lá. A pobreza e a falta de infra estrutura básica como água, esgoto, transportes, ainda são gritantes. Mas é como se houvesse uma esperança de dias cada vez melhores no ar.
A desigualdade social no Brasil, uma das maiores do mundo, ainda faz o país quase um país de castas, mas isso não impede esta esperança, talvez fruto da combinação atual de quase pleno emprego, crescimento de renda e paz. E talvez essa esperança seja a principal causa da grande mudança do ambiente nestes lugares.
Nas ruas de La Courneuve, não se vê traficantes com armas. Também percebe-se uma estrutura urbana mais adequada, apesar de bem pior do que o lado rico da cidade. O que não se vê é a presença do Estado nas ruas. Muita sujeira, nenhum policiamento e uma quantidade grande de pessoas que, mesmo em dia útil, dedicam-se à circular pelas esquinas, sempre com ares suspeitos, incluindo-se aí traficantes que agem em plena rua, à luz do dia. A sensação de insegurança que senti me remeteu à última vez que subi em uma favela ocupada pelo tráfico.
Pela primeira vez na minha vida, tive medo de tirar a câmera fotográfica da mochila. Talvez temendo mais, ao fotografar as ruas, ser confundido com algum agente da lei, do que ter minha máquina roubada.
Paro para um café, em parte para poder observar a região me sentindo mais seguro do que na rua. Fico por algumas horas sentado de frente para um cruzamento muito movimentado, tentando entender o que se passa, reparando em minha volta.
Não consigo deixar a região sem antes escrever tudo que vi. No café, aproveitando-se de meu péssimo (ou inexistente) francês, recebo uma conta onde uma água mineral, amplamente sinalizada à 0,30 Euros, me foi cobrada como limonada à impressionantes 3,80 Euros. Não questiono o atendente pois quero guardar esta nota como parte da experiência.
Sem as fotos que pretendia tirar, minha tarde em Le Courneuve me atirou no peito o tamanho do problema francês. Pela experiência do meu Rio de Janeiro, sinto que deixar os subúrbios largados à própria sorte vai se tornar um problema cada vez maior à Paris central. O que se passa em Le Courneuve é grave e não parece estar sendo combatido. Talvez nem tenha sido assim identificado. O que falta à La Courneuve e sua gente é esperança.

domingo, 22 de dezembro de 2013

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

vou seguindo a voz dela de volta à minha adolescência e quando vejo sou um camundongo, tremendo de medo num canto de um enorme labirinto. acima, uma constelação de olhos brilhando com a luz me acompanham. entre risadas e gritos, todos tendo no deboche a interseção, tremo, num misto de raiva e medo. tremo numa angústia sem fim.
as luzes se acendem e vejo um a um os rostos a me olharem. e vou guardando os nomes (e sobrenomes) todos em minha mente. e vou associando as vozes às pessoas. e me quedo raivoso a ponto de jurar vingança.
sinto então um dedo às costas que parece só servir para me lembrar de meu tamanho: um dedo dela é todo meu dorso.
não sei dizer o que fiz para estar ali, tão culpado quanto kafka em o processo. tão angustiado quanto.
marionete coletiva. ou pior, nem isso. somente um camundongo amedrontado. posto e largado à sua insignificância.

domingo, 15 de dezembro de 2013

1. be nice to people
2. go back to #1
só, entre tantos
pelos assuntos
pelas pessoas
pelo que seja
estou só
mesmo
entretantos
mordo minha pele para ver se ainda sinto. se ainda doo.
o inglês britânico é o idioma do rude operário, o americano do pragmatismo. o francês o idioma do delicado. o chinês do estressado. o espanhol do amor da paixão. e a nossa portuguesa é a língua da melancolia. até a alma.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê cadê você cadê você cadê você cadê você

que desistiu, cadê você?

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

o inglês britânico é o idioma do rude operário, o americano do pragmatismo. o francês o idioma do delicado. o chinês do estressado. o espanhol do amor. e a nossa portuguesa é a língua da melancolia. até a alma.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

somos todos poços fundos
de inseguranças
e problemas sem solução
somos covas
não das rasas
escavadas em nossas almas
um pouco mais a cada dia
que passamos em solidão

estou no taxi e o motorista assovia uma musica qualquer, que toma de mim meus pensamentos, mais pela sua falta de harmonia do que pela qualidade, a ponto de que se a tentativa não fosse de acompanhar o que toca no rádio, eu não saberia do que se tratava o barulho. e penso em como, nos últimos tempos, assovios desprovidos de talento têm sido produzidos à minha volta e o quanto somos (sou) invadidos em nosso espaço pela falta de limite alheio, em melodias, risos e movimentos que, se não nos atentarmos, nos empurram para o canto de tudo, até que só nos sobrem subsolos em nosso próprio mundo, já sem os barulhos e movimentos. pergunto-me o quanto nosso espaço é nosso de direito ou se ele só existe se quem a nossa volta o perceber também, nos obrigando a nos mantermos sempre em posição de combate, buscando nada mais que o pouco que cremos merecer. e, como o isolamento não é alternativa viável, passamos nossos dias em doídas lutas pelo que deveria ser nosso de direito, mas que sem a briga, já estaria perdido.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

estou no taxi e o motorista assovia uma musica qualquer, que toma de mim meus pensamentos mais pela sua falta de harmonia do que pela qualidade, a ponto de que se a tentativa não fosse de acompanhar o que toca no rádio, eu não saberia do que se tratava o barulho. e penso como, nos últimos tempos, assovios desprovidos de talento têm sido produzidos à minha volta e o quanto somos (sou) invadidos em nosso espaço pela falta de limite alheio, em melodias, risos e movimentos que, se não nos atentarmos, nos empurram para o canto de tudo, até que só nos sobrem subsolos em nosso próprio mundo, já sem os barulhos e movimentos. pergunto-me o quanto nosso espaço é nosso de direito ou se ele só existe se quem a nossa volta o perceber também, nos obrigando a nos mantermos sempre em posição de combate, buscando nada mais que o pouco que cremos merecer e, como o isolamento não é alternativa viável, passamos nossos dias em combates doídos, lutando por nosso espaço que deveria ser nosso de direito, mas que sem a briga, já estaria perdido.

sábado, 14 de setembro de 2013

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

the world is moving forward... how about you?

carrying some weight

altogether

even when things are not clear

classy steps

or sporty ones

on hills to be higher

or lower ones to be safer

on wheels to be faster

on flops as if not caring

in front or behind

together again

the best possible way

outdated

trendy 

awry

hipster

preppies