domingo, 29 de janeiro de 2012

a primeira vez que ela encosta a cabeça em seu ombro, se entregando por completo, indefesa. não há verdade maior a aflorar. não tem eu te amo que seja mais importante.
é na capacidade de entregar ao outro parte da sua vida que começa qualquer coisa que valha a pena.
gostar é render-se, é confiar a ela sua felicidade.
amar é perder o controle, descontrolar-se.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

com nome composto e cabelo curto, a morena balançava o corpo na cadência da música. dançava como se dentro dela a música estivesse. como se fossem uma só ela e a música. como se quisesse roubar de todos o som, por puro egoísmo ou paixão. era a segurança em pessoa. ou assim parecia. até que nina becker chamou-a ao palco. bárbara eugênia seu nome, cantora, que estava para lançar um disco. dominou-a então a timidez e a insegurança, que de tamanhos, como se o corpo não aguentasse mais segurar, saíam pelos seus poros. levou ao palco, devagar e quase tremendo, toda a sua beleza. a voz, que começou quase parecer querer voltar pra boca a cada palavra cantada, foi aos poucos voltando ao normal. encantou a todos ao final.
a primeira impressão podia enganar. parecia frágil e se escondia atrás de um ar blasé. era francesa, e isso quer dizer que falava a fala mais linda de se ver qualquer mulher falando. falava também a segunda fala mais linda de se escutar de uma mulher: outra língua com sotaque francês. curiosa, interessada pelo novo país que conhecia. inteligente, descolada, alternava entre timidez e extroversão. mas foi seu domínio corporal pleno que me encantou, acima de tudo. sabia, por instinto, onde estava cada pequena parte de seu corpo e como cada uma dessas partes estava sendo mostrada aos olhos dos outros. fazia poses de cinema, andava como se bailarina fosse. leveza de movimentos que não tinha visto e não voltei a ver desde então. Ma petite jolie ballerine.
a vida se mostra a conta gotas... mas as verdades aparecem aos trancos

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012


distintas línguas
simultâneas
numa orgia idiomática
ou performática
onde cada um joga com tudo que tem

distintas línguas
em distintos ouvidos
simultaneamente

distintas
línguas
nas bocas
com
distintas
línguas

De lo que no sabemos hasta conocernos

desde hace mucho tiempo
pensaba saber de todo
creía que lo que me llegaba
era lo que acontecía

hasta que empecé
a conocer el mundo
y desde entonces
me pego asombrado por ahí

bolivia se fue como esto
una sorpresa fenomenal
las chollas y los indios
la paz original

el pueblo pobre
donde hasta el aire falta
con muchos sin gana
pero maravillosas excepciones

yo vi en la paz
un orgullo indio
que no sabía existir
sometimes you wonder
what have you done wrong
how do your life
this mess has become

it´s time baby
to move on
it is time darling
to get it on

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

dos costumes

newbie do facebook, ainda aprendo as regras de convivio sociais criadas e difundidas. não polemize jamais. nunca, nunca demonstre tristeza ou qualquer motivo que possa parecer que você é qualquer coisa menos feliz do que a felicidade máxima, mesmo que temporária ou justificadamente. tenha um tema ou uma postura clara: ame sua cidade, ame a night, ame música: um de cada vez. seja monotemático. seja simples. a complexidade, a dicotomia, assustam. seja clichê, o máximo possível. tenha amigos. adicione constantemente novas pessoas. quantidade de amigos é o status supremo do facebook. curta quem te curte, mesmo que não seja sincero. gera curtição e popularidade. demore a aceitar friend request de prospects. demore a responder inbox de prospects. deixe os prospects esperarem. mais espera quem mais interessa. essa é a regra. não quebre a regra pois a quebra será fatalmente mal recebida. todos esperam que as regras sejam cumpridas. cumpra-as e sejas eterna e constantemente feliz ao extremo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

éramos sete pessoas
                              eu      quando só
                           tu          quando só
                      ela             quando ó
                nós                  quando?
              vós                    que sós
            eles                     que nós

e você                             que vã

sábado, 3 de dezembro de 2011

É quando acordo a noite que mais me sinto só. Não sei se causa ou efeito da insônia às avessas - um quase desmaio cedo da noite seguido pelo despertar em plena madrugada, invariavelmente as 4:30 da manhã - essa sensação de solidão nada tem a ver com meu estado de espírito ou físico; posso estar com quem mais gosto ao meu lado ou vivendo a felicidade plena que me sinto ermo. Talvez seja tudo - às vezes realmente acho que é - culpa da urgência louca pela vida, pelos livros ou pelos sonhos. A expectativa é mãe legítima e única da frustração, e esse imediatismo insano por tudo aqui e agora é que esvazia meu peito. a imensidão vazia, o buraco negro que só deixa para trás a ansiedade, revigorada. E com o mundo dormindo, em plena útil madrugada, interrompo os sonhos e busco a leitura, que estava parada.

sábado, 19 de novembro de 2011

  um                      bu
     ra                   co
       fo                ii
         ss           oq
           ue       me
             re     st
                ou
sonhei um daqueles sonhos raros
você me escrevia um bilhete de amor
se dizia com saudades
se declarava apaixonada
me pedia para esperar
me dava data até
falava para eu me acalmar

acordei num daqueles pulos
tentando esquecer minhas lamúrias
me convencendo da inverdade
de que ainda me amavas
me levo a desistir
me encho de motivos
para definitivamente
de você partir

terça-feira, 15 de novembro de 2011

a cor desbotada
de seus cabelos
o verde gasto
de seus olhos
suas primorosas
desproporções
seu sorriso alegre
que não escondia
um que de tristeza
que atestava
sua perfeição
supero a sua ausência
como quem anda em gelo fino
num imenso lago, em dia de sol
passo a passo, o risco do gelo partir
e na água gelada cair
hipotermia

supero sua ausência
como o alcoólatra
um dia a cada dia

mas basta um passo em falso
um dia de desconcentração,
para o chão vazar
para a contagem
de todos os dias
do zero recomeçar

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

ela me acorda
de madrugada
a acidez de seu hálito
não muda o inevitável
acordo
mas não é amor o que quer
ela só me quer pensando
so me quer acordado
para que eu viva
para me extenuar
em mais horas
de profunda dor

sábado, 5 de novembro de 2011

Toda nobreza cabe na dedicação.

A dor que sempre me invade ao fim é também proporcional ao quanto me gostou cada um dos melhores livros que li. É a dor da perda, a impossibilidade de replicar o prazer da primeira leitura, dos textos virgens a mim. É como a consumação de uma paixão platônica que me acompanhava há anos e que se finda quando consumada. Se prosseguida, o será de outra maneira. A liberdade platônica é morta e com ela, todas as possibilidades de idealizações infinitas, possíveis por não reais. A cada bom livro que leio, morro um pouco por dentro. Choro sempre ao fim, mesmo que ele, o do livro, se proponha feliz. E para a dicotomia entre manter vivas as vésperas pela não leitura e o prazer infinito de consumar a morte do livro como novo, encontro saída na compulsiva procura por novidades, sabendo do risco que corro de nunca mais sentir o que já senti, de não mais encontrar em nova leitura o prazer vivido no passado. E está aí a grande lição que a literatura poderia me dar. Há que viver, há que arriscar transformar todas as vésperas em hoje. E há que seguir criando-se sonhos e expectativas. Ser feliz, afinal, é matar um a um seus sonhos, desde que outros se sonhe.