terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

e desde que não nos conjugamos mais na primeira pessoa do plural que te busco em cada uma que conheço. e na falta da completude sua, da totalidade sua que tanto amei, enfilero detalhes seus divididos entre uma sequência errante de relacionamentos. seus olhos na primeira. sua cor na segunda. sua sensibilidade na terceira. e assim vou tentando te substituir, me completar. mas seu sorriso. ah, seu sorriso puro e lindo. igual a ele acho que nunca nenhum vou achar.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

a sensação é que tem medo do risco errado. se fecha, se protege, deixa de amar para não sofrer, quando a dor maior é completamente vazia permanecer.
se rasga
que eu gosto
se mostra
que eu gamo
se entrega sem medo
que eu te amo
às vezes penso que vivo
meu próprio truman show
é engraçado
mesmo certo
do tamanho
da insanidade
sigo
indo na mesma
direção

de quando mais te amei

de todo o tanto que te amei, em sua totalidade entre a risada boba, o ciúme bravo e injustificado, o mau humor matinal, a briga proposital, de todo o tanto que te amei, te amei mais no momento único - mesmo que se repetido - em que deitava em meu peito, depois de nosso amor de tarde de sábado, e se entregava toda ao sono que te chegava e ia te derrubando até seu último beijo ou sua última respiração mais forte em meu pescoço. eu lendo e me mantendo acordado para que o momento não acabasse e você entregue. despreocupada na certeza do amor incondicional. de todo tanto que te amei, assim te amei ainda mais.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

são tantas as mãos
tantos
os berros
tanta tentação
cada um em seu inferno

são mãos ao alto
tentativas de atenção
enquanto olhos fechados
mãos pelas mãos

estrondosos
os berros
dos monologuistas de plantão
incapazes de ouvir
qualquer senão

não são mais épocas dos quinze
de fama não
é tempo novo
do egoísmo
     da intolerância
            da infâmia
      
tempo sem razão

volto ao meu primeiro lugar neste mundo. volto mais de vinte e cinco anos. volto a ser o gustavinho, não pela idade mas pelo carinho. volto mais do que à minha infância, volto à época da inocência, que se em mim já passou, por aqui é mais do que presente: é a regra. volto e me pego pensando se não é por aqui que quero ficar.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Da violência e da adaptabilidade
(do despreparo e da criminalidade)

Embora eu nunca tenha dado um tiro com uma arma de verdade, posso dizer que já tive muitas experiências visuais com as mesmas, como provavelmente todos que moram nas grandes cidades brasileiras, seja pela visão constante dos canos das metralhadoras para fora das viaturas policiais, seja pelos traficantes exibindo suas armas pelas favelas ou então nos revólveres e pistolas ostentados por seguranças à volta de nós, cidadãos desarmados.
Também já fui testemunha visual de um assassinato quando tinha quase dez anos de idade. Não estava tão perto da cena e, por me encontrar dentro de um carro com os vidros fechados, só me ficou a imagem do assassino jogando o futuro morto no chão para depois dar-lhe um tiro. O fogo cuspido pelo cano da arma no momento do disparo, imagem que me vem nítida mesmo após os quase vinte e cinco anos que já se passaram. Fiquei algumas noites sem dormir até que o medo passasse.
O que não tinha ainda experimentado é me ver presente em uma cena de real perigo de morte como ontem. Sentávamos eu e um amigo em uma mesa na calçada em frente ao Bar Rebouças, tradicional reduto comandado pelo português Seu Alberto e seu fiel escudeiro Jorginho, eleito melhor garçom do Rio pela Veja em 2011. Conversávamos entre cervejas e frituras quando um Tucson preto entra em alta velocidade pela contramão da Rua Maria Angélica, vindo em nossa direção. Apesar de nossa mesa estar perto da rua, escapamos do atropelo, salvos por um poste que impediu que os bandidos subissem à calçada em cima de nós. Meu amigo, que estava mais próximo à rua, levantou-se rapidamente da mesa num reflexo surpreendente. Eu dei um passo para trás e fiquei atônito olhando o carro seguir no sentido errado, quando atrás dele veio o primeiro carro de polícia, também na contramão. Os bandidos conseguiram seguir por mais uns dez metros de rua, até que o carro foi parado por uma árvore à frente e o tráfego normal de carros no sentido correto, à esquerda. Assim que os bandidos pararam os policiais também o fizeram, saltando rapidamente com suas metralhadoras automáticas em punho. Éramos, os clientes do bar, talvez umas quarenta ou cinquenta pessoas espalhados pela calçada onde a cena se passava, incluindo algumas poucas crianças. A correria começa. Ouço dois ou três barulhos secos de tiros disparados, aparentemente pela polícia, colocando não só as pessoas em um estado emocional ainda mais estressante como nossas vidas em risco, num evidente despreparo de quem deveria prezar, acima de tudo, por nossa segurança. A correria é grande e corro também, procurando abrigo quase forçando minha entrada na cozinha da lanchonete ao lado, pedindo e quase empurrando um segurança boa pessoa, mas que estava atordoado com a confusão. Consegui convencê-lo a deixar duas mães e seus dois filhos entrarem antes dele trancar a porta com medo de uma possível invasão pelos bandidos agora em fuga. Duas moças de rostos quase angelicais batem à porta, num desespero evidente. Por falta de espaço (ou por medo), o segurança não as deixa entrar. Elas se sentam em frente à porta, em um pranto contido por uma e liberado por outra. Estamos no corredor que antecede a cozinha da lanchonete e as crianças não param de chorar, em pânico. Seus olhos vermelhos e soluços se misturam aos confusos olhares de suas mães, que combinam o desespero pela situação e o alívio de ver seus filhos bem.
A situação lá fora se acalma e resolvo sair, à tempo de ver as pessoas como ficaram durante toda a confusão. Atrás do balcão da lanchonete, um grupo de quase dez desconhecidos entre si se amontoam quase uns sobre os outros. Gente de vinte, trinta e até setenta anos, todos deitados e igualmente apavorados. A sensação de insegurança e temor pela própria vida é evidente em todos e um sentimento inexplicável. Árido, ácido, angustiante. Grande.

Os poucos minutos em que tudo se passou pareceram muitos, quiçá uma hora cheia. E se foi feliz por não deixar mortos e feridos entre nós, cavou um buraco de inquietação em mim. E se o Rio oferece pores do sol espetaculares, paisagens sensacionais, também é capaz de propiciar um dos piores sentimentos que já tive, a impotência. Desde ontem, tenho menos vontade de viver por aqui.

ontem no samba
uma moça quis me comprar

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

eu não sei
se daí você está
a sorrir
enquanto eu aqui
sorrio
com vontade de chorar
pela esperança
do bem estar
pela temperança
alcançada
e pela eterna
extrema
saudade de ti

passeio
por você inteira
te vejo toda
nas pontas dos meus dedos
dos seus cabelos
às costas da sua coxa
indo e voltando
e te conhecendo mais
a cada sentido
nem se ficasse
assim, te passeando
por anos a fio
cansaria
ou pensaria
te conhecer 
toda

sábado, 1 de fevereiro de 2014

nada mais agudo
e estridente
que os gritos
dos meus demônios
espero sua chegada
que traz além do êxtase
o silêncio eminente
no silêncio
da solitude
a sinfonia
da natureza
ode à vida
e sua beleza

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

da nossa (im)possibilidade

sonhei que estávamos juntos, mas não só nós. éramos parte de um grupo maior. ainda não éramos o que somos. e no gramado, fazendo surpresa, você se vira em minha direção, abre seu sorriso mais lindo e grita: parabéns! demorei o tempo de sua vinda até mim para entender o que estava acontecendo: você me parabenizava pelo beijo que eu ia te dar. por te ter. te pego pela cintura, caímos deliciosamente pela grama e quando vou te beijar, percebo minha boca cheia como nunca antes, de algo que não sei o que é. e ficamos assim, rostos colados, mãos enroscadas aos corpos deitados, num quase que não tem fim.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

meu corpo em estado deplorável, numa quase exaustão, evidenciada pelo peso de minhas pálpebras, que insistem em fechar mesmo que contra toda a adrenalina que me corre. é na madrugada que mais me falta, que mais te quero aqui. tateando o passado que é só meu, lembrando das suas histórias do que é só seu, me pego tentando entender como dois caminhos quase opostos se encontraram. o tamanho da coincidência daquele encontro, quase acidental, que virou ao avesso tudo que pensávamos estarmos predestinados a ser e viver, individualmente. encontro fortuito, constrangedor, desconfortável pelo tamanho que desde o início soubemos ter. como se antes dele, antes de nós ser pronome adequado a cada um dos dois ou ao que hoje somos, já esperássemos. como se vislumbrando essa unicidade que nos tornamos, essa completude que nos damos. como se ali houvesse uma linha de chegada que marcasse o início e não o fim, por mais contraditório que soe. chegamos um ao outro depois de muitas voltas que, mais do que tiveram de bom e ruim, de melhor, foi nos trazerem até aqui. até estarmos prontos um para o outro. não me é indiferente que tenha sido eu a percorrer o caminho mais longo e errante: foi sempre melhor do que eu em tudo que há de importante para ser. melhor até em me querer. e hoje, se estou que não me caibo em felicidade, se te tenho e isso na vida me basta, pego-me mais ansioso do que nunca. tenho todos os motivos do mundo para ter o sono leve como dos bobos, dos apaixonados, dos completos. mas tudo isso, confesso, me dá um baita de um medo.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

médio
morno
intermediário
meio-termo
insípido
mo
   nó
      to
        no

tudo isso eu
     passo
com gosto
    e por
         necessidade

só me
conforta
frequento
habito
só me acalma
me afaga
me basta
  o demais
     o exagero
        o sem 
           limite
tem·pe·ran·ça

sábado, 18 de janeiro de 2014

à força puxo-me e me levanto
caio, puxo-me e me levanto
caio
puxo
levanto
se não posso evitar o tombo,
só a persistência de me puxar de volta vale

sou todo tombos
e persistência